Perfumes. O que faz um produto merecer o Prémio Máxima Beleza&Perfumes?
Da primeira inspiração ao rastro que permanece, cada detalhe conta na avaliação do júri. Os especialistas explicam o que faz um perfume destacar-se e conquistar o estatuto de icónico.
Cláudia Camacho | Perfumista
Quais são os principais critérios que considera ao avaliar um produto de beleza?
Os ingredientes. Tenho muita dificuldade em conceber um perfume feito única e exclusivamente com matérias-primas sintéticas. É um perfume sem vida "orgânica". E aponto também o factor maestria de execução. Vivemos hoje num mundo de "hypes" (entusiasmos momentâneos, publicidades exageradas e euforias consumistas) que se transformam muito rapidamente em vazios. O que não falta no mercado são perfumes mal construídos e banais. Vejo a compra de um perfume como um investimento, portanto, há uma exigência no processo de escolha.
De que forma testa ou analisa um produto antes de emitir a sua avaliação final?
Eu testo o perfume na "mouillette" (tira de papel) e dou-lhe tempo. Os perfumes são sempre inicialmente tímidos, mesmo que se iniciem com muita pujança. Todos os perfumes precisam de tempo para poderem ser devidamente analisados, percepcionados e sentidos. A indústria percebeu que as pessoas estão com menos tempo, são mais imediatas, fazem as compras de forma mais impulsiva e passaram a apostar no deslumbre das notas de topo, as notas mais voláteis e as mais rapidamente perceptiveis, a fim de seduzir o consumidor. Mas só se consegue perceber a beleza de um perfume, ou a sua desgraça, quando deixamos que o tempo dê corpo às notas restantes do perfume. No acto da compra é muito importante experimentar o perfume na própria pele mas, no contexto onde nos encontramos, a avaliação passa a ser muito mais dúbia: pode resultar muito mal na minha pele e muito bem na pele da pessoa que está ao meu lado. Prefiro testar com toda a neutralidade possível. Quando termino um perfume é com a tira de papel que eu decido quando é que ele já está finalizado, portanto, não vou incluir o factor "pele" na minha avaliação. Neste processo, será importante perceber como foi feita a construção do perfume, analisar como as notas se dão a sentir, com que intensidades e se, no final, há uma história contada ou é apenas uma fórmula sem qualquer mistério, surpresa, inovação. Depois há toda a subjectividade inerente ao poder do olfacto: que memórias me traz, como me faz sentir, como me cativa, como me deslumbra. É impossível dissociarmos o processo olfativo do hipocampo.
O que define um produto de beleza verdadeiramente diferenciador no mercado atual?
Na perfumaria, o facto de ser, ou não, enigmático. Há uns anos um amigo atribui-me a alcunha de "Punk Chanel" e penso ter sido das alcunhas mais acertadas que algumas vez recebi. Não consigo abandonar um certo classicismo na construção de um perfume (e talvez a escolha de nas minhas linhas só trabalhar com matérias-primas naturais), mas não há nenhum perfume que tenha criado que seja óbvio por si. Há sempre uma procura, uma desconstrução, um elemento inesperado, uma cisão. Um perfume diferenciador é um perfume que me deixa a pensar nele durante horas, que me faz questionar sobre todas as suas transições, as suas personalidades. Um perfume diferenciador para mim tem de ser um perfume à la "Fernando Pessoa", um mundo de heterónimos.
Lourenço Lucena | Perfumista
Quais são os principais critérios que considera ao avaliar um produto de beleza?
O processo de avaliação de uma fragrância vai muito além do “gostar ou não gostar”. Implica compreender a sua estrutura, desempenho, contexto e impacto emocional. Se tivermos esses critérios em mente, a avaliação será sem dúvida consciente e completa.
A minha avaliação começa por avaliar as notas olfactivas e a sua evolução ao longo do tempo, atento à fluidez, harmonia de transições e equilíbrio da composição. Segue-se a avaliação da tenacidade/volatilidade do aroma na pele e o seu rasto, aferindo o impacto social da fragrância.
Por fim e não menos importante, a sua originalidade e identidade, avaliando a diferenciação face ao que já foi criado e à sua capacidade de se distinguir, não deixando de considerar a narrativa de comunicação e a embalagem.
De que forma testa ou analisa um produto antes de emitir a sua avaliação final?
Para que a avaliação seja justa e fiável, o teste de um aroma deve ser feito de forma metódica e com tempo, evitando decisões precipitadas e primeiras sensações.
Antes de mais, no momento em que faço uma avaliação, devo assegurar que não tenho nenhum aroma em mim - fragrância ou loção corporal com aroma. O espaço deve ser inócuo, tranquilo, sem cheiros, nem estímulos visuais. Não devem ser testadas muitas fragrâncias seguidas, a não ser que vá fazendo intervalos e limpezas olfactivas. O olfacto satura facilmente, o que pode distorcer a percepção e a avaliação. Por outro lado, o espaço útil no corpo - braço e ante-braço é limitado, levando a que por dia não sejam testadas mais do que 6 composições.
Estando criadas as condições ideais para a avaliação, começo por aplicar o aroma numa blotter (tira olfactiva de papel) e cheiro após alguns segundos, identificando as notas de topo e se o aroma é minimamente agradável, antes de o aplicar na pele.
Segue-se a aplicação na pele - braço e ante-braço, com dois ou três sprays, deixando secar naturalmente e nunca esfregando. Aguardo e observo a sua evolução, em diferentes momentos - 5 a 10 minutos, para avaliar as notas de topo, 30 a 60 minutos, para sentir as notas de coração e passadas 4 a 6 horas, para identificar as notas de fundo, respectiva tenacidade e volatilidade.
Este tempo é fundamental porque uma fragrância muda com o tempo, pelo que uma avaliação imediata é sempre superficial, incompleta e enganadora.
Idealmente, a mesma fragrância deve ser avaliada pelo menos duas vezes e em dias diferentes, já que a sua projecção varia conforme o ambiente e a temperatura. Requer paciência e tempo, para ser uma avaliação séria e consistente.
O que define um produto de beleza verdadeiramente diferenciador no mercado atual?
Numa frase, uma fragrância que se destaca não apenas pelo aroma, mas pela identidade, narrativa e experiência sensorial que proporciona. Em traços gerais, diria que o que torna especial é a originalidade olfactiva, a narrativa e conceito, a qualidade das matérias-primas e a inovação, a consistência da estrutura e evolução da composição, equilíbrio entre a tendência e atemporalidade, a capacidade que tem de me surpreender e a sua autenticidade e diferença na pele.
O mercado está saturado de perfumes “seguros e familiares”. Precisamos de ser surpreendidos positivamente, “agarrados” a um aoma que nos desperta e desafia. É isso que se espera quando se conhece uma nova fragrância.
Miguel Matos | Perfumista
Quais são os principais critérios que considera ao avaliar um produto de beleza?
Ao avaliar um perfume, o primeiro fator que me salta à vista (ou deverei dizer ao nariz) é a sua originalidade. Se um perfume surpreende imediatamente por ser único, ou por ousar usar acordes invulgares ou estruturas inovadoras, pouco comuns, isso é só por si algo que o coloca à frente dos outros. Depois há a sua contextualização no que diz respeito a famílias olfativas, tendências atuais, e história da perfumaria. Importantíssima é também a qualidade dos ingredientes utilizados. No caso de composições deliberadamente sintéticas, a inovação pode ser mais importante do que a qualidade. Mas quando se trata do uso de ingredientes naturais, a sua complexidade pode fazer com que um perfume possa ter muito mais impacto artístico, sensorial e emocional.
Existem também casos em que o conceito do perfume e o design da embalagem são tão fortes que, por si só, transformam o perfume num produto de alto valor artístico. No entanto, cada caso é um caso e o equilíbrio de todos os fatores é a chave para vencer. Depois, há dois fatores técnicos menos importante mas que devem ser equacionados: a longevidade e a projeção de um perfume. Finalmente, é preciso reiterar que um perfume que é uma cópia de algo já existente, é imediatamente desqualificado.
De que forma testa ou analisa um produto antes de emitir a sua avaliação final?
Eu testo todos os perfumes em papel e sobre a pele, porque eles podem comportar-se de modo diferente. Alguns produtos apresentam uma maior facilidade de serem entendidos do que outros. Por isso é necessário conviver algum tempo com um perfume. Primeiro, é preciso apreciá-lo ao longo de toda a sua duração sobre a pele. E depois é preciso repetir a experiência para conhecer mais a fundo a sua evolução e comportamento. Uma vez apreendido o essencial de cada perfume, o mesmo é intelectualizado no contexto da história da perfumaria e das tendências atuais.
O que define um produto de beleza verdadeiramente diferenciador no mercado atual?
Um perfume que consiga trazer algo de novo ao mercado, seja através do uso de tecnologias inovadoras, da reinvenção de algo familiar, do uso de matérias-primas de alta gama, ou do revisitar histórico de algo que se tenha perdido no tempo, é um perfume diferenciador. Em casos pontuais, um perfume pode ser revolucionário e inventar toda uma nova família olfativa.