É bom dizer não!
Não à discriminação, não ao consumo, não... Quando a recusa se mostra salutar, é necessário saber usá-la sem moderação.
Resposta em destaque? “No, no, no...”, cantava Amy Winehouse. “Não ao consumo!”, clama a nova vaga de ecologistas puros e duros, que protestam contra o excesso de consumo. Opor-se, contestar, boicotar, em suma, travar a fundo num mundo que acelera o ritmo, com o risco de queimar etapas: dos artistas aos patronos, passando pelos Bobos (burgueses boémios), toda a gente diz sim ao não! Descobrimos que o não, durante muito tempo considerado agressivo ou medroso, se revela frequentemente salutar.
“Saber dizer não, hoje em dia, é fundamental”, confirma o filósofo Michel Lacroix*. “Corresponde a precaução quando se trata de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) ou clonagem, a afirmação dos valores humanistas quando se trata de maus tratos ou de discriminação, recusa das dependências e dos paraísos artificiais... Numa sociedade em plena efervescência tecnológica e económica, que faz cintilar todas as felicidades possíveis, o indivíduo contemporâneo dá-se conta que o segredo de uma certa sabedoria de vida é dizer não”, prossegue o filósofo.
MULHERES QUE DISSERAM NÃO
Juliette Binoche... em Hollywood. Jurassic Park? Muito pouco para ela. A actriz francesa deu-se ao luxo de dizer não a Steven Spielberg, em nome da sua exigência artística. Muita classe.
Benazir Bhutto... ao islamismo. Assassinada em Dezembro de 2007, esta mulher ligada à política paquistanesa pagou com a vida a sua luta contra o islamismo no Paquistão. Um acto de enormecoragem em nome da democracia.
Angela Merkel... aos Jogos Olímpicos de Pequim. Perante o gigante chinês, sem recear represálias económicas, a chanceler alemã afirmou desde o início e assumiu a sua opção. Não compareceu à cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. E ganhou o respeito da classe política internacional.
Estimulante e positivo
Ana, de 37 anos, disse sim durante muito tempo. Aos pais, que lhe desaconselharam fazer o curso de Enfermagem, quando era o que ela sempre sonhou. Aos amigos, de quem foi atrás para a Escola Comercial.
“Toda a vida, fui atrás, sem me dar realmente ouvidos”, conta. “E um dia, a minha vontade sobrepôs-se à vontade dos outros. Aos 32 anos, larguei tudo para me inscrever na Faculdade de Enfermagem. Disse não à família, e também a um salário, a uma carreira, ao culto do desempenho.”
Hoje não lamenta o que fez. “Descobri que o mundo não desabava por eu ir contra a corrente. Consegui vencer os meus medos. Dizer não é estimulante e positivo. Ganhei confiança e uma grande liberdade.”
Formatadas para dizer sim
Mas porque é que por vezes é tão difícil pronunciar esta sílaba crucial, um Himalaia interior tão difícil de escalar para algumas pessoas?
“A educação e a sociedade não favorecem a utilização do não pelas mulheres”, lamenta Marie Haddou, psicóloga clínica no hospital Sainte-Anne**. “Muitas são ainda educadas dentro de uma certa imagem consensual da feminilidade. Trata-se de prestar serviço, de manter o que as rodeia antes de se ocuparem de si próprias. Existem muitos estereótipos que associam feminilidade a generosidade, docilidade e obediência. Se bem que as mulheres, pressionadas pelas exigências profissionais, familiares e sociais, aceitem demasiado depressa pedidos que não lhes convêm.” Sem contar com esse gosto pelo desafio, que empurra a dizer sim para terem um sentimento de omnisciência.
Dessa forma, Luísa, de 35 anos, advogada, confessa sem rodeios: “Quando o meu patrão me entrega dossiers do tamanho de listas telefónicas para tratar para o dia seguinte, sinto-me sempre tentada a dizer sim para lhe provar que sou capaz, que nada é impossível.
Recusar, aprende-se>>>
Recusar, aprende-se
“Dizer sempre sim dá a impressão de se evitar os conflitos, de se facilitar a vida. Cultiva-se a esperança de se ser recompensado e amado”, analisa Marie Haddou. “É um engano.” Como, então, dizer não? “Não se precipite a responder”, preconiza a psicóloga. “Diga antes ‘tenho de pensar, porque isso coloca-me um problema’. Esta distanciação permite trabalhar as emoções negativas que nos invadem quando queremos recusar um pedido.” Uma vez tomada a decisão é importante que não tergiversemos, que demos a resposta com firmeza. Outro conselho útil: utilizar sempre o “eu”, e não o “tu”, que é demasiado agressivo. Podemos também utilizar cuidados verbais do género “O que eu vou dizer não é fácil”, que permite adoçar uma recusa.
Cada vez mais psicólogos e psiquiatras elogiam as virtudes do não.
Embora seja melhor evitar justificar-se, pode-se, em contrapartida, negociar.
Exemplo: se o seu patrão lhe pede para ficar até mais tarde para terminar um dossier, enxote o seu medo de ser substituída caso recuse e proponha uma alternativa, do género “Está bem, mas amanhã chego mais tarde”.
Hoje em dia, cada vez mais psicólogos e psiquiatras elogiam as virtudes do não. “Conseguir dizer não dá uma grande liberdade interior”, prossegue Marie Haddou.
“Dizer não leva a que nos ultrapassemos e a que ganhemos uma aspiração, mesmo que seja uma aspiração que pareça impossível”, alegou Laurence Parisot na Universidade de Verão do Medef (instituição francesa que reúne grandes empresas). Entre os convidados, o cardeal Philippe Barbarin quis reafirmar a importância do não num mundo em que crescem as desigualdades: “Saber dizer não é um acto de sinceridade e de veracidade. Em 1954, o ‘não’ do abade Pierre à miséria e à exclusão foi um marco porque ele rompeu com o conformismo e a cegueira colectiva. Abriu perspectivas. Isso prova que é preciso dizer um não veemente, claro e cheio de amor.”
*Autor de Avoir un idéal, est-ce bien raisonnable?, edições Flammarion.
**Autor de Savoir dire non, edições Flammarion.