Atual

Quanto tempo sem sexo é muito tempo?

Ter uma vida sexual constantemente ativa é um privilégio de um número raro de pessoas. O resto dos mortais oscila entre períodos de sexo frequente e épocas sem nada, independentemente de terem ou não um parceiro.

21 de outubro de 2019 | Aline Fernandez

Períodos de abstinência sexual são tão necessários quanto o jejum, mas se forem prolongados demais, especialmente sem ser uma escolha da pessoa, poderão ter consequências físicas e psicológicas. Experimente cancelar a inscrição no ginásio durante seis meses e veja como o seu corpo reage. Ou seja, a vida sem sexo é perfeitamente possível, mas não é a melhor vida, por assim dizer.

Quisemos, por isso, saber quanto tempo sem sexo é tempo demasiado? Marta Crawford, sexóloga e terapeuta familiar, tenta explicar-nos a razão da resposta não poder conter um número exato: "É muito variável porque depende do registo de cada casal. Individualmente as pessoas são capazes de aguentar mais tempo sem uma relação sexual." Marta reitera que recorrer à masturbação é uma forma de satisfação sexual, já que o que se entende por relações sexuais não se limita apenas à penetração ou masturbação recíproca, mas que abrangem muitas outras práticas e o o que de alguma forma dá prazer e satisfação. "Portanto, uma pessoa que se masturba consegue aguentar bastante tempo sem uma relação a dois", lembra, afirmando que quem não o faz também resiste mais tempo, já que por alguma razão não tem motivação sexual. "E muito tempo estamos a falar de muito tempo. Há pessoas que não tem uma relação há um ano, às vezes meses, pode muito variar e depende muito de cada pessoa."

Ou seja, uma pessoa com grande carga sexual, com grande necessidade de satisfação sexual e também de proximidade e intimidade é alguém para quem a sexualidade é muito importante e faz parte do seu equilíbrio e bem-estar – e por essa mesma razão é alguém que precisa de ser sexualmente ativa. "Uma pessoa que tem uma atividade sexual semanal ou diária, obviamente quando deixa de ter lida mal com isso porque a sua vontade é mais frequente e a abstinência mais difícil de gerir", explica a sexóloga ao completar que as pessoas aguentam muito tempo sem sexo. "Entre a personalidade da pessoa, a forma como ela se expressa sexualmente, as necessidades de cada um em cada momento da sua vida pode-se aguentar mais ou menos", conclui. Por isso nunca será possível encontrar um número certo.

É comum que casais se distanciem a uma qualquer momento e que a frequência das relações sexuais caia ou desapareça, devido a uma inúmera quantidade de fatores. Tensão maior, irritabilidade momentânea, stress, trabalho, problemas na capacidade de foco, doenças, entre outras. "Há pessoas a quem o facto de não terem sexo não lhes cria qualquer tipo de conflito e estão perfeitamente bem nesta circunstância", continua Marta. A sexóloga descreve uma parcela da população – alertando que algumas podem ter uma neutralização hormonal, que faz com que não tenham tanto apelo – e define outra: "Os que ficam nervosos, com uma grande ansiedade, insatisfação e um sentimento de solidão." Os que sentem na pele a falta de sexo também podem ter insónias, perturbação e mau-humor. "Quando não existe tanta prática, de alguma forma o organismo regula-se a essa falta e vai cada vez ser mais capaz de regular a sua vontade sexual ao longo do tempo", explica ainda terapeuta sexual.

Marta lembra existem ainda questões relacionadas com a autoestima e a capacidade de cada um sentir-se suficientemente interessante e com sucesso nos relacionamentos íntimos. "Já estamos a falar de outro género de características, que podem associar a falta de prática com outra dimensão, que tem a ver com o relacionamento e com a forma como a pessoa se vê", diz.

O principal impacto da falta de sexo por faixa etária

Dos 15 aos 25 anos – "Se é sexualmente muito ativo e deseja ter relações, obviamente há uma frustração acumulada", avança Marta Crawford. "Estamos a falar de uma etapa em que hormonalmente há muitas alterações." Se por outro lado for uma pessoa mais reservada, "a faceta sexual fica de lado" e pensa-se nisso após cumprir os objetivos académicos ou desportivos, por exemplo.

Aos 30 anos – "A maior parte das pessoas entende que nesta altura deve haver uma estabilidade sexual, especialmente para quem tem uma relação." Mas isso nem sempre acontece porque as pessoas estão a trabalhar demais ou a investir pouco no sexo, o que pode gerar um conflito nas relações conjugais. "Não é à toa que muitos procuram ajuda já na idade adulta, por alguma razão a intimidade não está a resultar", conta a terapeuta sobre as rotinas que se instalam e geram algum desequilíbrio em relação ao sexo. Quem não tem parceiro pode ter alguma ansiedade ou preocupação exatamente por ter não ter alguém.

Após ter um bebé – "Eu costumo dizer que no primeiro ano depois do parto, entre a regularização das hormonas, o tempo que a mãe está a amamentar e o seu novo papel leva-se algum um tempo até tudo estar novamente estável." Além disso está a amamentar, o que pode levar a menos interesse sexual. Mesmo a nova experiência da maternidade é todo um grande investimento pessoal e de tempo. "O primeiro ano, geralmente, é um ano conturbado", lembra Marta.

Após os 40 anos – "Nos relacionamentos que correm bem e são de longa duração há uma estabilização da frequência – pode ser uma vez por semana, de 15 em 15 dias ou uma vez por mês – e há casais que estão perfeitamente bem com isso", explica Crawford. E, às vezes, as pessoas arrastam a insatisfação por muito tempo. "Nesse período, geralmente, fazem uma reflexão porque esperam que a vida sexual seja melhor e procuram ajuda."

O que fazer se o desejo sexual do parceiro é menor que o seu

Viver uma vida de atividade sexual constante (leia-se diária ou algumas vezes por semana) acontece com pouquíssimas pessoas. O ritmo de Hugh Hefner, o criador da revista Playboy, do ator Jack Nicholson, do cantor Julio Iglesias e (há quem diga) do revolucionário cubano Fidel Castro, da rainha Isabel I da Inglaterra (paradoxalmente chamada de "rainha virgem", porque nunca se casou) e de Catarina II da Rússia não é o comum dos reles mortais.

A maioria, portanto, oscila entre períodos de atividade sexual frequente e épocas de vacas nada gordas, por assim dizer. "É a questão que leva mais gente ao consultório. Geralmente há uma das pessoas que sente que tem mais vontade do que o outro. Gera conflito, desconfiança, mal-estar… É nessas circunstâncias que não conseguem ultrapassar a questão", conta-nos Marta. E as razões que levam a que um tenha mais vontade do que outro podem ser diversas. "É preciso saber a razão e, se não conseguirem, devem pedir ajuda profissional", alerta a sexóloga e terapeuta sexual. "Não é um que tem culpa, os dois têm responsabilidade", chama atenção. O primeiro passo, portanto, é dialogar e continuar a manter o contato físico (carícias, beijos, abraços), o que tornará mais fácil retomar o erotismo. Os casais podem ainda dormir num motel, comprar brinquedos sexuais, viajar e, se nada disto resultar, procurar mesmo ajuda profissional.

Asa Butterfield e Emma Mackey em 'Sex Edcation' (2019)
Foto: Netflix
1 de 2 Asa Butterfield e Emma Mackey em 'Sex Edcation' (2019)
Justin Walker e Alicia Silverstone em 'Clueless' (1995)
Foto: Paramount Pictures
2 de 2 Justin Walker e Alicia Silverstone em 'Clueless' (1995)
Saiba mais sexo, abstinência sexual, Marta Crawford, sexóloga, Comportamento
Relacionadas

Em busca do desejo perdido

As parangonas de um jornal anunciaram que mais de metade das mulheres portuguesas tem orgasmos sempre ou quase sempre que têm relações sexuais. E apesar de 75% se queixarem de que andam exaustas, sem tempo para si e insatisfeitas com o corpo e, muitas vezes, com o companheiro, aparentemente nada disto influi na sua performance, afirmando que fazem amor mais de duas vezes por semana, mesmo nas ligações amorosas que já levam 15 ou 20 anos.

Mais Lidas
Celebridades Diana e Carlos em Lisboa: o princípio do fim do casamento real

Bela e espirituosa, Diana acompanhou o marido a Portugal em fevereiro de 1987, mas consigo trazia o segredo de um casamento arruinado. Sabendo dos quartos separados no Palácio de Queluz, os tablóides britânicos falaram, pela primeira vez, na crise conjugal dos príncipes de Gales e não mais pararam de os perseguir em busca de sinais comprometedores. A propósito da estreia da quarta temporada da série “The Crown”, recordamos esses quatro dias cruciais para a vida do casal