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Na cidade suspensa com Leonor Teles e Vicente Gil

Reporter noturno é uma entrevista feita a um ou vários convidados durante uma noite.

Leonor Teles e Vicente Gil em Lisboa
Leonor Teles e Vicente Gil em Lisboa Foto: D.R.
17 de julho de 2020 | Tiago Manaia

"Filmar à noite é das coisas mais especiais que existe, é como se entrasses num mundo interior" - Leonor Teles 

O elétrico 28 acaba de passar com duas pessoas, estaria apinhado não fosse a pandemia. No Louvre em Paris fotografa-se a Mona Lisa, no elétrico 28 os aparelhos documentam sobretudo as esquinas que se fazem esconsas, e a população local que habitualmente enfrenta as colinas a pé. Mas as ruas na Graça em Lisboa estão desertas, apesar de estarmos numa noite quente de verão. Diz-se, "é o novo normal". Os bares são obrigados a fechar às onze da noite numa tentativa de impedir ajuntamentos. O desconfinamento, na primeira semana de julho, proíbe ainda o consumo de bebidas alcoólicas nas rua.

"Temos pouco mais de meia hora para encontrar um bar que aceite servir-nos" – , Leonor Teles está à minha frente com o ator principal do seu filme, Cães que Ladram aos Pássaros. "Tive muita vontade de filmar o Vicente, quando tenho vontade de filmar alguém não há como escapar, sinto uma presença e penso em captá-la. É quase como quando te apaixonas".  

Vicente Gil tem 19 anos, caminha empolgado com a nossa procura de álcool e uma esplanada, enquanto fala das aulas na Escola Superior de Teatro e Cinema. Durante a quarentena regressou à casa materna, onde fez monólogos de Tchekhov para a escola via zoom, "aquelas personagens estão quase sempre fechadas também, o objetivo delas é sair e nunca o fazem, era um pouco o que nós estudantes de teatro estávamos a viver". 

Há algo de comovente na sua energia de jovem ator à espera de se encontrar novamente com o público. Há algo de reconfortante quando percebo que a ameaça que parece ter esvaziado as ruas da cidade em nada fez esmorecer a sua paixão artística. Todo ele é cinema. A silhueta de Vicente lembra Tadzio, a personagem do filme Morte em Veneza de Visconti que encarna um ideal de beleza.  

"Tive muita vontade de filmar o Vicente, quando tenho vontade de filmar alguém não há como escapar", conta a realizadora Leonor Teles Foto: D.R.

Estamos já sentados numa rua que nos leva até ao miradouro da Nossa Senhora do Monte, nas mesas à nossa volta as pessoas riem alto – risos fortes que quase nos impedem de falar. Passa por nós um casal gótico estranhamente real a cantar Rain on Me de Lady Gaga, canção lançada durante a pandemia com letras que evocam a celebração das lágrimas para superar a dor.

Leonor Teles e Vicente conheceram- se no Porto. Leonor procurava histórias para filmar na cidade e foi dar com o drama que envolvia a família do ator. "Nas conversas, comecei a perceber que eles estavam a ser expulsos de onde viviam. Pensei logo em filmar aquela história. Foi mesmo gritante, eu estava a sentir a mesma coisa em Lisboa, estava a ver os meus amigos a ficar sem casa assim de um momento para o outro, e as rendas a subir estupidamente… E de repente dou de caras com a família do Vicente, e a cena de gentrificação deles. Parecia que me estavam a chamar para filmar". 

No filme de Leonor, segue-se a procura de casa e o desnorte da mãe de Vicente, Maria Gil – Na vida real é ativista antirracista e luta pela integração dos ciganos na sociedade. Em Cães que Ladram aos Pássaros, a ficção é quase documental, "para já não consigo criar coisas distantes desta âncora que é a realidade. É quase como filmar documentários ao contrário, vejo a vida primeiro e depois vou reproduzi-la". As mensagens políticas ecoam nas criações de Leonor Teles. Na curta-metragem premiada Balada de um Batráquio, filmava-se a quebrar sapos de louça no chão que certos comerciantes deixam à porta de lojas com a intenção de afastar pessoas de etnia cigana. Fazia assim ligação às suas origens. "É muito difícil desligar-me do que penso, e daquilo que sinto enquanto pessoa. É difícil para mim estar a criar e ser um mero observador, acho importante ter um ponto de vista crítico sobre nós e o que estamos a fazer", diz Leonor. 

Com a gentrificação apercebeu-se que a capacidade de adaptação é intrínseca ao ser humano, "tiram-te a casa e voltas a construir vida noutro sítio. Mas deveriam haver políticas de proteção para as pessoas. Agora, com a pandemia, conseguimos ver que há realmente bairros inteiros com casas vazias porque não estão cá os turistas", acrescenta. 

As ruas da Graça,em Lisboa, parecem profundamente adormecidas pouco depois das onze e meia da noite. Enquanto descemos em direção à Mouraria, paramos subjugados com a vista sobre a cidade. Falamos sentados numa esquina de rua,  Leonor evoca a memória do ator Filipe Duarte, com quem gostaria de ter trabalhado, ou Isabel Abreu com quem se vai cruzar numa futura apresentação do seu filme. Até agora tem trabalhado só com atores desconhecidos, na sua primeira longa documental Terra Franca (2018), filmou um pescador. 

"A noite ajuda-me muito a pensar as coisas", lança Leonor . "É o momento em que desligo e me consigo verdadeiramente concentrar a ser produtiva. Filmar à noite é das coisas mais especiais que existe, é como se entrasses num mundo interior". De uma janela, uma voz pede para não fazermos barulho. Somos três vozes contra o silêncio da cidade. Minutos depois passamos por um carro de polícia, Lisboa está sob vigilância.

Há no olhar de Leonor a excitação de quem tem um filme a estrear nas próximas 24 horas. Será que o público se vai deslocar até às salas? "Antes da pandemia, os cinemas já andavam vazios", diz numa constatação. A vida parece balançar agora nesta possibilidade de tudo ter mudado.

Como vamos encontrar a cidade quando a vida voltar ao normal? Que sítios do nosso quotidiano terão capacidade de se aguentar financeiramente para além desta paragem? 

"Os bairros, nas cidades, têm sobretudo a ver com coreografias que nós criamos e impregnamos no nosso corpo. O caminho que fazemos para o supermercado é quase sempre o mesmo, o arrumador de carros, ou as caras que conhecemos nas ruas...Todas estas coisas fazem parte de um dia a dia que se cria. E às vezes há pequenas coisas que alteram as nossas dinâmicas sem quase percebermos. Basta fechar um bar que vende álcool e cigarros fora de horas, e tudo muda", diz Leonor. 

A pandemia deixou a cidade em suspenso. E na vida urbana de Lisboa continuamos sem saber que mudanças nos podem surpreender ao virar da esquina.


Agradecimentos: Artur Araújo e Rui Palma

"Dia de Festa", de Sofia Bost, "Ruby", de Mariana Gaivão, e "Cães que Ladram os Pássaros", de Leonor Teles, estão em exibição numa só sessão de curtas-metragens de realizadoras portuguesas. 

 

Saiba mais Leonor Teles, Caões que Ladram aos Pássaros, cinema, artes, cultura e entretenimento, questões sociais, Vicente Gil
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