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Menos é mais: a arte de simplificar

A arte de simplificar chegou ao momento (crítico) de arrumar as malas e seguir viagem. Porque ninguém precisa de sete pares de sapatos e cinco vestidos pretos para uma semana sob o sol de Menorca. Ou precisa?

31 de julho de 2019 | Maria Wallis

"Nesta época do ano, quando – vulcões à parte – grande parte de nós começa a pensar em férias, palavras como ‘Pack light!’ ou ‘Capsule wardrobe!’ provocam medo no coração de uma compradora dedicada como eu." É assim que começa um artigo escrito por Joan Collins para o Daily Mail, em 2010. O texto, que pretende ser uma sátira sobre a nova moda de viajar com pouca bagagem, é um apelo ao que a atriz considera ser uma necessidade: andar de um lado para o outro com a casa às costas, principalmente porque não tem de se preocupar com a logística de organizar e de transportar os seus luxuosos baús. Há sempre alguém que faz isso por ela. Além disso, garante, das poucas vezes em que decidiu ser comedida acabou "exausta." "Eu preciso de cada uma dessas 30 malas", confessa, e nós não duvidamos porque Joan Collins, a lenda, não se pode movimentar com dois ou três sacos de nylon eco-friendly. A mulher que deu vida a Alexis Harrington, na série Dinastia, é uma das últimas representantes de um certo glamour old Hollywood e dela não se espera que apareça nas escadas de um avião em calças de fato de treino e boné de algodão. Não. Dela espera-se uma repetição daquele dia, nos anos 80, em que foi fotografada à chegada ao aeroporto, impecavelmente vestida com um tailleur branco e um chapéu da mesma cor, ao lado de uma pilha de malas Louis Vuitton. O resto são fait divers e tendências mais ou menos passageiras.

Lista negra. O conceito de travel light é todo ele muito luminoso, muito limpinho, mas ao mesmo tempo um pouco asfixiante. Somos mulheres. Simplificar não é connosco. Assim, de repente, a melhor parte de viajar com pouca coisa é poder trazer a mala cheia no regresso. E quem nunca pensou nisso que atire a primeira pedra! Ao que parece, um dos truques para fazer as malas de forma mais prática é tão simples que roça o cómico: coloque sobre a cama todas as coisas que pensa que vai usar na viagem. Depois tire metade. Aparentemente fácil, de facto. Mas só aparentemente. Eu tenho a certeza de que a mente por detrás de tal receita só pode ter sido um homem de fato cinzento, cujo armário é feito de outros 14 fatos da mesma cor. Nós, mulheres, precisamos mesmo das nossas coisas durante aquela semana/fim de semana/mês. Seja porque nos fazem sentir confortáveis (seguras?), seja porque nos apetece. Isso devia chegar. Não chegando (olá restrições de peso, normalmente 23 quilos), vale a pena ter algumas coisas em mente antes de fechar a mala uma última vez. Não deixe tudo para a última. A pressa é inimiga da perfeição. Se deixar tudo para horas antes da viagem, vai esquecer-se de coisas fundamentais. Por exemplo? O kit de primeiros socorros. Não estamos a sugerir que vai passar as suas férias doente, mas convém levar os medicamentos básicos para evitar surpresas. Aqui é importante incluir medicamentos para alergias, febres tropicais, dores de cabeça, etc. Cosmética em terra? Há quem diga que é possível. A não ser que os seus 15 dias de sonho sejam passados numa ilha deserta é quase certo que conseguirá comprar champô, amaciador, gel de duche e protetor solar em todo o lado. O mesmo serve para o creme de corpo e todas as outras loções que aplicamos diariamente. Perfume? Opte por uma versão míni – nesta altura há sempre promoções de 30 ml. Esqueça as toalhas. Pesam toneladas. Verifique se o local onde vai ficar alojada não as disponibiliza. Claro que disponibiliza. Bem-vinda ao século XXI.  

Faz o que eu digo, não faças o que eu faço. Entre os meus sonhos de consumo está uma Rimowa Check-In L, um clássico da marca alemã que, com as suas medidas esculturais (seis quilos, 79 centímetros de altura, 53 de largura e 28 de profundidade), se apresenta como um minitorpedo das passadeiras rolantes dos aeroportos. Por aqui se vê como gosto de viajar com pouca bagagem. Na impossibilidade de aterrar em JFK ou em Charles de Gaulle com semelhante obra-prima, eu vou palmilhando o globo com malas mais ou menos vulgares que insistem em não satisfazer os meus desejos de globetrotter premium. A última vez que viajei de forma light foi em 1980, um ano antes de nascer. Escrevo-o com toda a sinceridade. Depois disso foi o descalabro. As bolsinhas com produtos de beleza triplicam de ano para ano, os saquinhos de pano para "eventualidades" ocupam o espaço de um kispo, o calçado precisa de uma mala à parte, os livros que vou ler mesmo que tenha a agenda ultrapreenchida parecem um amontoado de pedras. É um drama. Tenho várias histórias tristes que incluem as palavras "eu", "sozinha", "ultracarregada", mas há duas que me fazem questionar o meu lado prático – ou a falta dele. Em Londres, onde fazia escala vinda de Los Angeles, palmilhei vários quilómetros entre terminais, sem ajuda, com três malas que, não querendo parecer exagerada, tinham mais ou menos o peso de uma criança de cinco anos (cada uma delas). Por outro lado, ainda em Lisboa e a caminho de Chicago, tentava despachar a minha terceira mala quando me deparo com o valor absurdo que sou obrigada a pagar por ela. Tendo em conta que não ia de férias, mas que ia de forma permanente, foi doloroso ficar sem todas as coisas que tinha naquele retângulo de alumínio. Claro que nada disto teria acontecido se de antemão eu tivesse confirmado junto da companhia aérea quanto custa despachar duas, três ou quatro malas porque o número quase duplica – não, não é só o peso excessivo.

Must-do. Mesmo que nunca se torne uma guru do less is more há uma coisa que deve fazer, seja qual for a situação: levar uma muda de roupa na bagagem de mão. Só para o caso de chegar ao destino e as suas malas não. É também na bagagem de mão que deve colocar todos os pertences de valor, do computador ao tablet. Ninguém quer vê-los desaparecer no escuro do porão (estas coisas não acontecem só aos outros). No que diz respeito à roupa, os peritos garantem que dois pares de jeans (caso não tenham lavagens excêntricas ou rasgões) são versáteis o suficiente para cinco dias de viagem. É uma boa dica. Os blazers oversized também são uma excelente opção pelas múltiplas hipóteses de conjugação que oferecem, assim como lenços de seda ou de caxemira, uma ótima forma de se proteger do ar condicionado no avião. É igualmente importante ter em conta que a escolha de uma paleta de tons simples pode ser a chave para conseguir um guarda-roupa eclético. Sim, até nas férias. Estabeleça de antemão uma ou duas cores neutras que lhe permitam misturar todas as suas peças, do beachwear aos vestidos de noite. Assim terá muito mais possibilidades de escolha e será muito mais fácil juntar os acessórios e os sapatos. E visualize. Estabeleça uma imagem mental de tudo o que quer usar e em que dia. Recrie esses looks. E arrume as coisas em conformidade. Pode ser difícil, mas vai-lhe poupar muito tempo mais tarde. E leve sempre, mas sempre, um vestido para uma ocasião inesperada que exija algo mais elegante – um little black dress, por exemplo. E chegamos ao ponto em que é impossível não falar nos rolinhos. Exato. Há uma tendência que defende que enrolar a roupa (principalmente as T-shirts) é a base do conceito de travel light porque (supostamente), além de evitar que as coisas se amarrotem, poupa espaço na mala. Se conseguir fazer isto sem fazer disparar o seu sistema nervoso, tem a nossa bênção.

Freud explica. Ou então não. Há tempos abordei o assunto com a minha psicóloga. Não lhe perguntei diretamente como se fazia uma mala que não me obrigasse a pagar excesso de peso, mas juntas chegámos à conclusão que, no meu caso, existe uma diferença significativa entre as viagens de trabalho e as pessoais: sempre que viajo por motivos profissionais, o que raramente ultrapassa os três ou quatro dias, sou exímia a organizar as minhas coisas. Já quando a razão da fuga é lazer, a coisa muda de figura. No primeiro caso eu consigo preparar de forma coerente tudo o que vou usar. Raramente levo peças a mais – ou a menos. Basicamente a pessoa que vai viajar é uma versão melhor de mim mesma. No segundo caso, bom, no segundo caso há uma confusão de luzes (as do meu quarto), de texturas (a roupa espalhada pela cama, pelos sofás, por todo o lado) e uma voz interior que grita, em loop: "Leva só mais isto." Porque é que é assim? Tenho uma pequena ideia, mas seria preciso espaço extra para divagar sobre essa alteração da consciência. Assim sendo, desafio as leitoras a realizar o mesmo exercício. Será que também são mais assertivas quando o assunto é trabalho? "O truque para viajar com pouca bagagem é não viajar", diz-me uma amiga que não sendo familiar de Joan Collins poderia alinhar, com toda a justiça, nos primeiros destinatários do testamento da atriz. Estou tentada a concordar com ela. Ou então, como sugerem os mais velhos, consulte a meteorologia e organize as malas de acordo com essa informação. É inacreditável a quantidade de roupa que se leva quando se está equivocada com o tempo.

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