O nosso website armazena cookies no seu equipamento que são utilizados para assegurar funcionalidades que lhe permitem uma melhor experiência de navegação e utilização. Ao prosseguir com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a Politica de Cookies Medialivre

Máxima

Atual

Maria João Pires: "Gostava muito da ideia de ter filhos, mas nunca me devia ter casado nem ligado a ninguém"

Numa manhã de sol intenso à beira do Tejo, fomos mudando de lugar ao ritmo da luz, sempre com Maria João Pires à procura de um ângulo mais quente, mais aberto, como quem não abdica de continuar em busca de qualquer coisa.

Maria João Pires aborda palco, piano e evolução
Maria João Pires aborda palco, piano e evolução Foto: DR
15 de maio de 2026 às 14:23 Joana Moreira

Aos 81 anos, uma das maiores pianistas da atualidade está hoje longe dos palcos que a consagraram, trocados pela terra e pelo silêncio de Belgais, Castelo Branco, onde reencontrou outro tempo e outra forma de escuta. Rebelde desde o início - “contestei desde sempre” - construiu um percurso de transgressão e liberdade, muitas vezes em contraciclo com o que se esperava de uma mulher do seu tempo. Pelo caminho, enfrentou a pressão e as expectativas - “a expectativa é destruidora da liberdade” - e fala da maternidade sem romantização, atravessada pelas exigências de uma vida artística intensa e por um contexto que raramente acomodava essa dupla entrega.

Numa longa conversa, atravessada por temas como a infância, o ensino, a interpretação, o ego, a fé, o envelhecimento e a ideia de felicidade, vai desenhando um pensamento feito de inquietação e busca. E é nesse movimento, sempre inacabado, que parece continuar - como naquela manhã, insistindo em seguir o sol.

Disse recentemente, numa entrevista, que já não era pianista. O que quis dizer com isso?

É um estado de espírito, sabe? Ser pianista não é só ser músico: é tocar um instrumento, subir a um palco, tocar para um público. É uma atitude. Não vou dizer que já não sou artista ou música - nunca diria isso. Quando digo que já não sou pianista, quero dizer que já não estou... nessa prática.

Ser pianista é, então, mais uma prática do que uma identidade? 

Sim, mais prática do que identidade. Identifico-me muito com o piano - comecei a tocar com três anos - mas deixei de ser pianista profissional. Quis dizer que já não sou apenas aquela pessoa que toda a gente conheceu através do piano. Sou muitas outras coisas. No fundo, talvez há 40 anos já sentisse isto: não sou só pianista, sou muitas outras coisas.

Começou a tocar aos três anos, como disse, e aí descobriu o som.

Sim, a descoberta do som... Sou muito mais ligada ao som do que ao piano. O som no piano foi sempre uma luta: fazer o piano cantar, ter voz, não ser apenas percussão. Quero que conte histórias, que fale connosco. Hoje em dia, o piano é muito tocado pelo poder do volume, mas tem muitas outras capacidades — pode imitar muitos instrumentos, muitos sons. Isso exige esforço. Tocar uma nota não é só tocar uma nota: é procurar o som que queremos no contexto dela. E esse contexto, para mim, tem de servir uma ideia.

De onde nascem essas ideias?

Da música. Não sou compositora, nunca me interessou muito. Admiro muito os compositores. O meu trabalho sempre foi de procura e continua a ser, agora também através dos alunos. A interpretação não é igual à composição, mas é próxima: estamos a recriar a obra. Não à nossa maneira, mas num encontro com o compositor. Como se houvesse um diálogo com alguém que já não está cá, muitas vezes distante da nossa cultura e do nosso tempo. Temos de chegar a esse diálogo sem destruir o seu espírito. Isso implica abdicar de coisas que parecem evidentes. Pequenos sinais — como um acento — mudam completamente de significado de Haydn para Mozart ou Beethoven. É um trabalho que exige cultura, mas também algo mais. É isso que adoro fazer. E que posso fazer agora com pessoas mais jovens que me veem procurar. Fazer esse trabalho é muito recompensador.

Vê-se sobretudo como intérprete, não como criadora.

Sou intérprete, não sou criadora. Assumo isso completamente. Não me parece sequer que haja uma grande semelhança entre o intérprete e o compositor, ou criador, neste caso. Não há. Há pontos de encontro.

O intérprete tem menos ego?

Pode ter menos ou mais, depende. Conheço intérpretes que recriam a obra à sua maneira, esses terão forçosamente mais ego. Outros seguem mais a partitura, mas aí também falham noutras coisas, porque o ser humano tem de estar presente. O artista é um encontro entre corpo e cérebro. O artista que é puramente intelectual, falha, forçosamente. E aquele que é muito físico e não tem capacidade de procurar de uma forma cerebral, também falha. O essencial é o equilíbrio. É interessante falar de ego... Há um grande equilíbrio entre o ego e a humildade. Se a pessoa não tem ego a humildade não é verdadeira, não é útil. Se a pessoa só tem ego e não tem humildade nenhuma, se se acha o melhor de todos, também está a falhar. Portanto, no fundo, conseguimos as coisas pelo chamado caminho do bem, que é o equilíbrio.

Falou, noutras ocasiões, de uma certa sensação de não pertença no meio musical. Hoje vê isso como uma ferida ou como liberdade?

Nunca tive grande dificuldade em expressar a minha liberdade. Só que senti-me excluída talvez por ter tido uma infância diferente.

Em que sentido diferente?

Tive uma infância diferente foi porque éramos quatro. O nosso pai morreu antes de eu nascer, mas deixou muitas marcas porque os meus irmãos eram mais velhos, já não eram bebés nem crianças.

Quantos eram?

Tive um irmão e duas irmãs. Tive, já não tenho. E eu era muito mais nova. Vivi um bocado no luto nos primeiros anos. Os meus irmãos tinham uma vida própria... A minha forma de me expressar e de me entreter e de brincar foi um piano. Era um amigo, era um brinquedo e era uma forma de eu me expressar porque não tinha outras crianças. A minha irmã a seguir a mim tinha mais dez anos.

É uma grande diferença.

É. Ela rapidamente entrou na adolescência, dava-se mais com os outros irmãos do que comigo e eu estava muito sozinha.

O piano era um refúgio?

Foi um refúgio, mas não foi só um refúgio. Uma companhia, um brinquedo. Eu brincava tentando perceber qual era a participação do meu corpo na elaboração do som.

Isso parece muito analítico para uma criança.

Não era na altura, racionalizei mais tarde. Comecei a ensinar muito cedo, devia ter 12, 13 anos. Aí fui percebendo coisas que ainda hoje me ajudam, sobretudo no trabalho com jovens. Há muitas regras... às vezes até demais.

Que regras é que aprendeu e hoje prefere desconstruir?

Não aprendi nada quando era criança, pequenina. Aprendi a ler música muito cedo, ainda não tinha quatro anos, porque obriguei a nossa mãe a ensinar-me porque eu queria perceber o que é que estava escrito. Quando digo que não aprendi nada é sobre a técnica de piano. Nunca gostei muito de teorias. Gosto de desconstruir regras fixas. Prefiro a regra que serve o momento. Na arte, a rigidez pode destruir o que está a acontecer. Por exemplo, na música clássica: o compasso e a métrica são muitas vezes interpretados como limites rígidos, quando na verdade têm de ser interpretados. Se nos limitarmos à métrica, destruímos a história que estamos a contar. São as minhas lutas interiores. Aquilo que gosto de fazer é descobrir como não destruir aquilo que foi escrito, mas como saber interpretá-lo.

Isso leva-nos de novo à ideia de liberdade na interpretação. Fala de um lugar de grande liberdade, como se fosse algo inato, a transgressão.

Tenho tendência para criar caos para depois procurar. Quando encontro o essencial de uma frase, as regras deixam de me restringir. Respeito o ritmo, claro, mas procuro um ritmo natural, físico, corporal — não apenas métrico. Não quero ter razão, mas nesse sentido sinto que estou certa ao procurar sempre o verdadeiro ritmo e não a métrica. Ao procurar a expressão corporal e não a intelectual. Isso também nos diferencia muito do compositor. Temos que ter uma expressão que tem forçosamente que começar pela nossa expressão corporal. Vamos absorver a história e a emoção e tudo aquilo que construiu a obra. Primeiro de uma forma física e depois a seguir podemos analisar.

Sente que essa visão a distingue do compositor?

Sim. O intérprete absorve primeiro de forma física e depois analisa. Mas hoje há também uma influência forte do digital, que trouxe muitas regras e atalhos. Isso pode afastar-nos da verdadeira interpretação. No passado, dois grandes pianistas tocavam a mesma obra de forma completamente diferente — e ambos respeitavam o compositor. Hoje há mais tendência para impor uma visão pessoal. Para mim, isso é um abuso. O intérprete é criativo, mas não é criador. Vai ter que dialogar com aquela pessoa que não existe, que já não está cá. Os grandes criadores têm um lado imortal. Que eles deixaram algo que nos dá acesso a eles.

Não reconhece em si esse lado de criação?

Não. Sou intérprete. O ser humano é criativo por natureza, mas ser criador é outra coisa. Não estou a querer nem desmistificar nem desvalorizar o papel do intérprete. Valorizo muito, acho que o papel do intérprete tem aquele equilíbrio ou devia ter aquele equilíbrio exatamente perfeito entre o criativo aquele que está lá que sabe estar lá e que ao mesmo tempo está respeitada a 200% o compositor e aquilo que ele nos deixou. Portanto, ser intérprete não é fácil. É uma arte, sem dúvida. Mas ser criativo é normal. Ser criador é um passo em frente, acho. É difícil.

Cresceu num tempo de ensino exigente, duro, por vezes autoritário. Recorda o momento em que percebeu que não podia, ou não devia, obedecer?

Foi cedo demais para lhe poder explicar. Foi cedo demais. Como menina, como criança, até nem era muito desobediente. A minha mãe não teve problemas ao nível da educação. Agora, em relação ao que queria fazer fui o mais rebelde que se pode ser. Passei todos os meus estudos a ser rebelde.

Pode dar um exemplo dessa rebeldia?

Contestar. Contestei desde o início. A minha mãe contava-me... Quando tinha quatro anos fui tocar pela primeira vez para o professor Campos Coelho. Uma tia minha dizia à minha mãe: tens de a levar a um professor. Era um professor do Conservatório, que estava na moda e que era um grande professor. Estavamos nos anos 1940. Imagine a diferença do que é hoje. A minha mãe lá foi. Ela não era ambiciosa em relação a mim, nada, não tinha a minima ambição. Isso foi muito bom. Agradeço ao céu ter tido uma familia que não tinha a minima ambição em relação a carreira nem a espetáculos, nada.

Isso era imposto então por quem? Pelos professores, pelo contexto?

Eu é que queria tocar e a minha mãe deixava-me. Depois comecei a tirar de ouvido as peças que a minha irmã mais velha tocava. Tínhamos aquele piano. Eu fazia aquilo tudo um bocado às escondidas, fechava as portas da sala onde estava o piano e fazia aquele exercício do som, uma brincadeira. Mas bem, levou-me lá ao professor e disse-me: então toca lá. E eu toquei as peças que conhecia... E de repente vejo uma mão enorme a pôr-se em cima da minha. Tive uma reação automática, infantil de fazer assim [afasta a mão] e dei-lhe uma grande cotovelada. Assim começou a guerra entre mim e ele (risos). Uma guerra tremenda que durou 10 anos. Não obedecia em nada, fingia que sim e ele dizia à minha mãe para me cascar (risos). 

Naquele tempo era exigida às mulheres uma certa obediência. Sente que pagou um preço pela rebeldia?

Paguei, todos os preços, sempre. Mas eu estava sempre pronta para receber o preço, para que o preço aparecesse. Fosse com o professor aos quatro anos ou na vida em geral, a minha rebeldia é demasiado forte para eu não aceitar que depois venha a contrapartida.

Casar três vezes também foi um reflexo de rebeldia?

Não. Casar foi incapacidade minha de julgamento, de perceber qual era o meu papel na familia e no casamento. Não percebi a tempo. Hoje percebo, mas passaram-se muitos anos... Gostava muito da ideia de ter filhos, mas nunca me devia ter casado nem ligado a ninguém. Eu via o casamento como uma ligação para sempre.

Acreditou sempre que era para sempre? 

Sim, sim.

Hoje não acredita que isso é possível?

Para mim?

Porque não?

Ah, para mim não, não.

E no geral?

No geral claro que acredito que seja possível. No fundo, acho que aquilo que chamamos uma profissão, mas que foi para mim uma forma de missão, de nos dedicarmos a qualquer coisa... E eu dediquei-me...

Não é compatível com o amor?

Com o amor é, mas foi sempre incompatível com o casamento. Não me parece que possa haver uma vida como aquela que eu tive, de concertos, de viagens, de... Com aquelas pessoas, com aquelas pessoas. Não quer dizer que não tivesse uma pessoa que existisse e que pudesse ter respondido... Temos um grande exemplo na história dos pianistas deste século passado: a Alicia de Larocha. Foi uma mulher que eu admirei brutalmente. Ela era mais velha que eu, era uma música absolutamente genial, maravilhosa. Tive o privilégio de a conhecer bem. E ela foi um exemplo de família que aconteceu. Ela vivia em Nova Iorque, o marido tomava conta dos filhos e ficava em Barcelona! O homem dedicou a vida dele àquela senhora e à arte dela. Isto é um exemplo raro.

A História está carregada de exemplos, mas de mulheres que abdicaram das suas vidas em prol da carreira dos maridos. 

Exato. Aqui foi o contrário, não é? É muito interessante. Ele não só abdicou da vida, como abdicou da sua carreira. Há uma barreira da sociedade, de que a mulher é que tem que abdicar e o homem não... Se houver uma igualdade, quando as coisas acontecem, acho que tanto um como o outro poderão abdicar. 

Fala como se hoje talvez escolhesse abdicar da carreira. 

Sim, teria abdicado, sim. Da carreira, não do meu trabalho. Eu poderia ter feito o meu trabalho, o trabalho que eu fiz durante a vida, sem carreira. Claro que a carreira deve ter ajudado um pouco à evolução do meu trabalho. De certeza que ajudou, na medida em que encontrei muita gente, muitas culturas, muitos acontecimentos que dão uma certa riqueza à nossa observação do mundo, à nossa capacidade de observar o mundo. Mas teria conseguido, teria continuado, sim. Acho que sim. E principalmente teria gostado muito de não ter levado os meus filhos a viajar o tempo todo. 

Arrepende-se disso? 

Eu acho que os traumatizou. Não foi bom. 

Mas acha que não lhes deu o mundo? 

Dei. Eles tiveram isso. Mas não tiveram aquilo que nós temos normalmente, que é... A rotina, a segurança. A rotina e a segurança. E os hábitos. Porque depois eles não tinham uma continuidade nisso. Eles não tiveram uma continuidade nisso. Essa não segurança que nós artistas tanto necessitamos. Não somos seguros em nada, não sabemos nada. Não sei o que é que há amanhã. Só me importa o hoje. E só me importar com o hoje não dá segurança às crianças. E essa não segurança eles não sabem viver com ela mais tarde. Se não tiverem uma atividade artística.

Maria João Pires aborda palco, piano e evolução
Maria João Pires reflete sobre a evolução, a liberdade na imaginação e a importância de não prejudicar Foto: DR

Algum seguiu a música? 

Não. Nenhum. Mas eu também não estimulei. 

Porquê? 

Porque tinha a convicção de que não devemos estimular nada nas crianças que elas não estejam a querer fazer. Foi uma época de educação: vamos educar na liberdade, no hoje, amanhã se verá. Arrependi-me um bocadinho de ter seguido um pouco essa moda dos anos 1970 em que as crianças eram tratadas com muita liberdade de escolha. Achava que a liberdade de escolha era importante... Mas as crianças nem sempre estão fazer uma escolha certa (risos). Eu ficava horrorizada quando via um colega meu com os pais que lhe diziam: podes tocar piano, mas antes de estudar música tens de tirar um curso de engenharia. Tens de tirar, para a segurança da tua vida.

Não a imagino como esse tipo de mãe. 

Não, era ao contrário. Mas não foi bom. Acho que não foi bom. Quer dizer, os meus filhos não me acusam, mas sinto em alguns que não foi positivo. Mas é assim. As coisas são como são. 

Sinto que lhe estou a perguntar sobre temas sobre os quais já pensou. Percebe-se que tem uma grande capacidade de reflexão sobre si própria.

Espero que sim. Quer dizer, na minha idade, se não refletimos sobre a nossa vida (risos). Acho que é importante refletir. Gosto muito de analisar o que aconteceu.

Gosta de olhar para o passado? 

Gosto. Não vivo do passado, mas gosto de olhar. Não vou dizer nada de novo para ninguém, mas o passado ajuda-nos a estar no presente para podermos evoluir para o futuro. Nós temos que estar constantemente flexíveis para passar do presente para o futuro. Mas para estar bem no presente, temos que conhecer o passado. Eu falo nisto porque, na interpretação, na música, no intérprete, é extremamente importante conhecer o passado. É uma coisa que se está a perder na escola: conhecer o passado. Está-se a perder muito. Conhecer o estilo, conhecer a pintura da época, a literatura, as coisas, tudo aquilo que aconteceu na época do compositor que estamos a tocar, influencia-nos para o situar. Para nos situarmos em relação a ele. Situar-nos é muito importante. 

Porque o passado diz-nos como chegámos aqui. 

Claro. Exatamente. Isto está-se a perder muito. Está-se a criar muito uma época do hoje e amanhã. 

Como tem lidado com o envelhecimento e as limitações físicas? De tempos a tempos vai sendo notícia pelas pausas que vai fazendo, e que sempre esperamos que sejam breves. Esse novo ritmo é algo pacífico para si? 

Pacífico não posso dizer, porque não sou uma pessoa pacífica por natureza. Mas sempre lidei muito bem com as mudanças. As mudanças para mim são o resultado da evolução. Não estou a falar das doenças ou dos acidentes. Tive doenças e acidentes e tive que parar. Às vezes parei não só por isso, cheguei a parar por incompatibilidade minha de aguentar o peso da profissão que tinha, pelo conflito interior. Por exemplo, ter família e ter de lidar com duas coisas completamente opostas. Ter de sair de casa o tempo todo. Com a família pequena não, porque eu levava com os filhos comigo e expu-los a uma grande aventura. Mas esse conflito existiu sempre. Queria fazer da melhor maneira. Como era muito enérgica, tinha muita energia, achava que podia estar sempre em tudo. Aceitava, assumia, e fazia. Depois, claro, tive não só acidentes como doenças, sempre vindas do excesso de trabalho. O excesso de trabalho, o excesso de viagens, o excesso de me expor. Expus-me...

Querer estar sempre em tudo e em todo o lado tem o efeito de se sentir que se falha sempre em alguma das partes. Alguma coisa vai falhar. 

É. E espalhava-me. E espalhava-me e levava-me a grandes problemas. Depois tinha de parar tudo e depois começar tudo de novo. Tive uma vida de altos e baixos nesse sentido. Em relação ao envelhecimento, nunca vi nisso como uma coisa negativa. Todos nós temos, existe, é humano. Temos uma grande ponta de interrogação em relação à morte. Em relação à passagem... 

Pensa nisso? 

Mas há alguém que não pense nisso? Acho que não há. 

Se calhar aos 80 pensa-se mais um bocadinho, ou não? 

Acho que não. Não posso estar dentro das pessoas, mas observo que as pessoas estão todas muito preocupadas com isso. Por exemplo, preocupadas com o envelhecimento. Ou com a morte, não é? Porque o envelhecimento leva à morte. À morte que para uns é o fim para outros é um princípio, para outros é uma mudança. Mas há sempre a questão, seja qual for a sua crença ou a sua não crença, há sempre a questão e o ponto de interrogação: então, como é que isso vai acontecer? Vai ver haver sofrimento? Vemos pessoas a encontrar a morte depois de sofrimentos horrorosos. Vemos pessoas morrerem de um minuto para o outro. 

A ideia de finitude assusta-a? 

Não tenho essa ideia. Não consigo admitir essa ideia. Não vejo a morte como uma coisa definitiva, como um fim. É o fim de um período. Não quer dizer que eu esteja certa. Pode ser uma ilusão. 

É uma mulher de crenças? 

Eu tenho muita crença, muita. 

Em que é que acredita? 

Acredito nisso. Acredito que não conhecemos o que está para lá de nós. E parece me que... É difícil dizer. Sou uma pessoa de grande fé. Não tenho nenhuma religião. 

O que significa para si fé? 

Acreditar nas coisas. Acredito no que possa acontecer. Acredito em coisas que não sei. Acredito em coisas que não sabemos. Para mim, não perceber não significa que não exista. A minha imaginação é muito grande. Não tenho dificuldade em admitir muitas coisas. Por isso é que costumo dizer que sempre acreditei em milagres. Porque os milagres existem. Estamos a vê-los todos os dias. Mas... Nós não conseguimos explicá-los. Nem percebemos porque é que eles existem. Sinto é que as nossas limitações são brutais.

Sempre soube dar a volta às suas limitações: a começar pelas mãos pequenas para pianista. 

É verdade, é verdade. Ou então aceito as ideias de facto. A minha flexibilidade faz-me querer estar onde sou útil. 

O que é que a faz sentir útil? 

Colaborar na sociedade. Isso faz-me sentir útil. Colaborar consigo, estarmos aqui a conversar, se isso é útil para si, faz-me sentir útil também. 

Despediu-se várias vezes do palco, mas regressou sempre. O que é que as chama de volta? 

São várias coisas da vida. A vida é assim. A vida é muito imprevisível. A vida chama-nos às coisas por razões diversas. Agora que parei, não vou tocar no palco, mas vou acabar alguns discos, começar um disco que não terminei. Tive um problema neurológico que me afetou muito a mão direita, mas consigo tocar. E depois tive um breakdown completo de esgotamento. Foi pequenino, mas foi definitivo para decidir deixar o palco. Isso produziu um grande choque, o esgotamento. Eu não sabia parar. No momento em que eu tinha que parar, precisava ali, precisava ali, precisava colar, precisava ali. Sou daquelas pessoas que não sabem parar. Eu pertenço a esse grupo. 

Esse colapso assustou-a? Ver-se no hospital assustou-a? 

Eu nem fui ao hospital. Tive um AVC que identifiquei. Fui ao hospital depois, foi uma amiga que me levou e lá soube que estava certa, tinha tido um AVC. E o problema neurológico que eu tinha intensificou-se muito em relação à mão direita. Também tenho agora um problema que não tinha antes, que era a dor do pé, etc... Essas coisas. Fiz os exames, tive sorte e dois médicos que me ajudaram muito. Mas eu aceitei imediatamente a história do palco. Foi muito fácil. Agora, porque voltava? As razões foram muitas... Os pedidos. 

Nenhum pedido agora faria voltar, arrumou o assunto? 

Arrumei o assunto na minha cabeça em relação ao palco. Em relação ao piano e à música não. Tenho intensificado muito o ensino no sentido artístico, não de mestre para aluno, mas de grupo. Estou a descobrir muitas coisas, estou a aprender muitas coisas com os alunos. É muito importante para mim e para eles. 

Tiram-lhe certezas? 

Não sou pessoa de certezas. Para mim, pessoalmente, uma certeza é sempre algo muito mau. Há uma certeza que nós temos: não devemos prejudicar os outros nem nos devemos prejudicar a nós próprios. Prejudiquei-me muitas vezes e prejudiquei os outros. Hoje tenho a certeza de que não devemos invadir o espaço dos outros ou prejudicar. Nem devemos deixar que eles nos prejudiquem e nos destruam. É um equilíbrio como todos os outros equilíbrios. Viver em grupo é uma arte, é uma forma que tem regras.

Gosta dessa convivência em grupo, ou prefere estar sozinha? 

Gosto muito de trabalhar em equipa, de trabalhar em grupo. Por outro lado, é verdade que também gosto muito de estar sozinha. Mas eu acho que isso é comum a nós todos. Temos momentos em que gostamos de estar sozinhos. 

Quando pensa na ideia de felicidade, em que é que pensa? 

Tenho a sorte de sentir a felicidade da minha vida constante. Mesmo nos momentos difíceis, consigo voltar a ativar qualquer coisa de bom. Ir agora dar a volta até ali ao fundo e voltar é uma felicidade. É um privilégio estar ao pé deste rio lindíssimo, de estar num sítio bonito, num mundo complicado, feio, muitas vezes cheio de horror.

Perguntava-lhe isso, como se encontra felicidade neste mundo marcado por guerras... 

Um mundo de horror, um mundo de horror. Mas um mundo de horror não é forçosamente um criador de infelicidade. O mundo é de horror, o que é que podemos fazer? Vamos colaborar, sentir essa felicidade em si para poder transmiti-la. Talvez isto seja um bocado estúpido da minha parte, mas acho que transmitir a felicidade é muito importante. 

Ao ouvi-la, fica a ideia de uma inquietação permanente, de alguém que continua em busca de qualquer coisa. É uma leitura justa? O que é que procura? 

Não, está bem. Estou sempre nesse estado de espírito. Estar sempre à procura de algo é uma constante na minha vida. Começou assim e provavelmente acabará assim. É o meu caráter, a mesma forma de estar. Eu não consigo estar sem estar à procura. Consigo estar num estado de meditativo, de solidão durante um tempo, mas depois eu estou sempre à procura de um equilíbrio... Daquilo que nos leva a equilibrar e a transmitir esse equilíbrio. Pode ser através de qualquer coisa. O meu caso foi muito através da música. Agora sinto-me muito realizada. Quando dou aulas há pessoas que compreendem isso e que procuram também esse equilíbrio. Isso é muito recompensador. Claro que tocar, fazer música fosse com orquestra fosse com o solista... Também era muito realizada nesse sentido. Mas o facto de... de me estar a destruir no palco a fazer mal a mim própria não era bom. 

O que é que lhe fazia mal? A pressão, o ritmo? 

Era a pressão. Pressão, ritmo. Inclusive criei algo que não tinha quando era mais jovem: criei o medo do palco. Eu tinha medo! Não gosto de estar sempre ter que enfrentar expectativas. 

As dos outros ou as que colocava sobre si? 

Ambas. Hoje de manhã estava a estudar piano antes de vir para aqui e pensei exatamente nisso. Evoluo muito mais no meu trabalho quando não estou a ter que corresponder a nenhuma expectativa. É uma procura simples, uma procura aberta. Um espaço aberto para descobrir coisas. Esse é o verdadeiro papel de um artista, não é? É ter o espaço aberto e não ter expectativa atrás da porta. Está ali um e já ali outro. Atrás da janela. No quarto ao lado. A expectativa é destruidora da liberdade. Da liberdade de imaginar.

Essa ausência de expectativas lembra-me o início da sua história, quando falava de sobre a importância da ausência de ambição por parte da sua mãe quanto a uma carreira sua. Isso parece ter sido determinante para a sua liberdade. Que recordações tem dela? 

Tenho as melhores memórias. A minha mãe ajudou-me. E as minhas irmãs talvez não tenham querido ajuda. Eu não quis, mas precisei. Então, ao precisar, aprendi a conhecê-la melhor. Os lados bons e os lados maus. O facto de ela não ter ambição para mim a não ser que eu fosse boa pessoa e fosse feliz. O facto de ela só querer que eu fosse feliz deu-me muita paz. Deu-me muita capacidade de enfrentar a vida difícil que tive. Essa era a grande qualidade dela. Depois tinha defeitos, como todos temos, era rígida, um bocadinho moralista... Mas mudou com a idade, envelheceu muito bem, aprendeu a ser mais flexível, a ter mais compaixão com as pessoas. Mas eu também tenho um lado rígido, como a minha mãe. Mas vou aprendendo aos poucos. É um processo que não só não é mais lento, como vai sendo mais rápido com a idade!

Ai sim? 

Sim, sim, aprendemos mais depressa. É engraçado, somos mais lentos, demoro mais tempo a tomar banho, a vestir-me, a caminhar cinco quilómetros... Com a idade tudo demora mais tempo, mas aprende-se muito mais depressa. 

Leia também

Tânia Laranjo entrevistada pela filha: "Quando comecei disseram-me que nunca faria televisão, porque era mais gorda e mais velha"

Depois da tempestade, a bonança: com quase 30 anos de carreira, o reconhecimento. A repórter do povo, a que está onde mais ninguém quer estar, a que não se importa de estragar o penteado em direto. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, parámo-la para lhe dar folga. Sentámo-la no lugar que raramente é o dela, com maquilhagem e enquadramento perfeitos. Hoje, não foi ela a correr atrás da história - foi a história que correu atrás dela.

As Mais Lidas