O nosso website armazena cookies no seu equipamento que são utilizados para assegurar funcionalidades que lhe permitem uma melhor experiência de navegação e utilização. Ao prosseguir com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a Politica de Cookies Medialivre

Máxima

Edição de Colecionador Comprar Epaper
Atual

Histórias de Amor Moderno: “O Gustavo achou-me graça. Eu era a sua 'cota jeitosa' - chamava-me isso e agarrava-me com força e com jeito."

“Acordámos que, para que o nosso amor não se tornasse um obstáculo à felicidade, teríamos liberdade para satisfazermos os nossos desejos voláteis e todas as leviandades que nos atravessassem a cabeça, o coração e o sexo.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

"A Ideia de Ti" (2024)
"A Ideia de Ti" (2024) Foto: IMDB
03 de janeiro de 2026 às 09:00 Maria Olívia Sebastião

Era véspera de uma data importante, já não sei precisar qual. Não era o meu aniversário, senão eu teria fixado, pois ter-me-ia magoado muito seriamente. Além disso, não imagino o Gustavo a fazer-me tamanha desfeita. Que fique claro: o Gustavo sempre me respeitou, e eu a ele. Aquilo que construímos foi, à nossa maneira, uma relação de amor - mas de amor a sério, profundo, um amor feito de compreensão, de cedências verdadeiras e, acima de tudo, um amor assente num bem raro e precioso, que é a verdade. Fomos honestos um com o outro, desde o primeiro até ao último dia. 

Talvez tenha sido numa véspera de Ano Novo. Quando eu era jovem, a passagem de ano tinha para mim grande importância. Porém, com o andar do tempo, fui-me tornando vítima do peso da idade. É um peso que se manifesta de múltiplas maneiras. Uma delas e tirando a graça às coisas simples, embasando-lhes o brilho e revelando-lhes os truques de ilusionismo que outrora julgáramos ser magia. A passagem de ano, esse momento definitivo e marcante, repleto de desejos e decisões, recheado de festa e de otimismo, de esperança, de amizade e de brindes à vida, com o tempo foi ficando cada vez mais igual àquilo que realmente é: um dia na vida, precedido por outro e sucedido por mais algum. 

O facto de não festejar, nessa altura, a chegada do Ano Novo como havia celebrado na minha juventude não significava que não lhe desse alguma importância. Tem sempre a sua importância, mais que não seja simbólica. Afinal de contas, fecha-se um ciclo, calendários de parede tornam-se obsoletos, as datas nos cheques (mas quem é que hoje ainda usa cheques?) podem sair muitas vezes enganadas durante as primeiras semanas, enquanto uma pessoa não se habitua o ano em que agora está. 

O Gustavo chegou a casa deviam ser onze da manhã. Estava bêbado, ainda. Disse-me bom dia e percebeu que eu estava apreensiva e, ao mesmo tempo, triste. Disse-me “desculpa, Magda” e eu devolvi-lhe meio-sorriso, ainda triste, mas como quem diz “vai-te lá deitar, precisas de descansar”. Foi nesse dia, possivelmente nesse momento pacífico e sem ódios, discussões ou rancores, que eu percebi que o que havia entre nós tinha chegado ao fim. Mas não lho disse logo. Aliás, deixei-me estar quieta, permiti que o assunto se entranhasse em mim e me fluísse pelo corpo como sangue, até fazer parte de mim e eu saber, de certeza, que era isso que queria fazer. O fim de uma relação não deve ser imposto ou resultar de uma decisão tomada de ânimo leve. O fim é uma coisa muito séria. E é por isso que o princípio de qualquer coisa deve ser também valorizado e avaliado. Tudo o que começa tem de acabar. Será que queremos passar por isso? Será que estamos dispostos a obedecer ao peso da vida no momento de dizer “já chega disto”? 

Sou 17 anos mais velha do que o Gustavo. Tinha 42 quando o conheci, portanto façam as contas. Ele era pouco mais do que um miúdo. Nunca tive especial queda para rapazinhos mais novos, pelo contrário. Os meus companheiros ao longo da vida eram, por norma, mais velhos do que eu. No máximo, seriam da minha idade. Mas o Gustavo arrebatou-me. Achou-me graça, eu era a sua “cota jeitosa” - chamava-me isso e agarrava-me com força e com jeito, numa mistura em doses perfeitas que me fazia sentir amada, acarinhada, protegida, segura, confiante.  

Não havia como não me apaixonar perdidamente por aquele rapaz, meio franzino, meio reguila, meio desalinhado, que parecia constantemente saído de um concerto nos anos 90: despenteado, calças rotas, camisas aos quadrados, barba nem feita nem por fazer, dois brincos na orelha esquerda, uma pulseira de cabedal que nunca tirava, nem para tomar banho. Um encanto - e não, não estou a ser irónica. 

O que podia ter sido uma noite bem passada - é preciso cuidado com os inícios - depois de um encontro fortuito numa noitada que começou no Bairro Alto, desceu até ao Cais de Sodré e se prolongou até ao Lux, acabou por se tornar uma relação genuína, espontânea, natural. Diria, mesmo, inevitável, inexorável. Eu e o Gustavo fazíamos sentido. E resultávamos bem, sempre funcionámos como um duo quase inseparável. Quase. 

Claro que eu tinha presente que um rapaz tão mais novo do que eu não podia partilhar de todos os meus apetites e vontades, de todas as rotinas e caprichos. Nem eu dos dele - muito menos eu dos dele! E isso ficou muito claro desde início. Respeitámos abertamente as vontades um do outro. Ele queria sair com amigos, fazer isto ou aquilo, claro que sim, que fosse. Já eu e os meus círculos, de que ele até gostava bastante e aos quais aderiu com grande naturalidade, também nem sempre se afiguram como o plano mais desejável para ele em dado momento. Logicamente, nunca lhe disse faz isto, faz aquilo, ou não quero que vás aqui, vem antes comigo. Sou mais velha, mas não sou babysitter nem educadora. 

Eu e o Gustavo vivemos, como a generalidade dos casais a quem as coisas correm bem, um período de grande deslumbramento. Aquela fase inicial em que uma pessoa parece andar permanentemente embasbacada com a outra, cheio de amor e carinho e também desejo e libido saltitante, aqueles dias, semanas e meses em que sentimos uma felicidade pura e infantil, que não contempla concessões nem consciência de realidade envolventes, para lá daquilo que vivemos, aqui e agora, com esta pessoa, com o toque desta pele, o tom desta voz, o perfume deste corpo. 

Só que esse nosso período idílico estendeu-se no tempo muito mais do que seria de esperar. Diria que os nossos primeiros cinco anos juntos foram verdadeiramente românticos, com toda a excentricidade do verdadeiro romantismo, do fervor à ingenuidade, do desejo ao ciúme quase irado e injustificado. Mas nunca deixámos que o ciúme nos amachucasse. 

Por causa da nossa diferença de idades, era eu a mais ciumenta. Ele, ainda jovem, cheio de amigos e amigas igualmente jovens, eu cada vez mais envelhecida, a sentir-me a ficar de fora, a ficar para trás - não foi fácil lidar com a constatação de que o meu prazo de validade estava a chegar ao fim. Uso esta metáfora, esta frase em sentido figurativo, e sei que é feio, que não devia dizê-lo, porque isso não existe, o prazo de validade de uma pessoa. Mas foi isso que eu senti. Estou a falar dos meus sentimentos, da minha relação com a minha idade e com a nossa diferença de idades. Eu era uma mulher à beira dos cinquenta anos, o Gustavo era um rapaz que mal tinha trinta. Ponham-se no meu lugar. 

Após o idílio, quando o pó da paixão e do desejo começou a assentar e as rotinas começaram a cristalizar-se, começámos a olhar um para o outro e acredito que o Gustavo já não me reconhecia como a mulher por quem se apaixonara anos antes. Ele, sim, era o rapaz vivaço e brilhante que eu conhecera, só que agora estava mais depurado, mais sofisticado, mais maduro. Mas eu não. Estava mais velha, só. Não foi fácil aceitar esta mudança, esta curva na vida, virada para baixo. 

Falámos abertamente sobre isso. Pedi-lhe que fosse honesto, que fosse sincero, que não poupasse na mensagem. E o Gustavo - acredito que este tenha sido o maior gesto de amor que alguma vez tiveram comigo: respeitar o meu pedido, mesmo que isso pudesse ter um custo elevado - assim o fez. Foi meigo, foi gentil, mas disse-me que sim, que era verdade que eu estava mais velha. E, sim, o desejo que tivera por mim ia desaparecendo. Perguntei-lhe se desejava outras mulheres. Ele demorou a responder, o que por si só era resposta. Mas a pergunta era mais retórica do que outra coisa. “Sinto, às vezes sinto.” Magoou-me, mas como se me magoasse com uma espada de mel. Senti-me tão amada pela sua sinceridade que o abracei. “Mas amo-te muito, talvez mais do que no início, e só te amo a ti”, disse ele. E eu acreditei e acredito que sim. 

Acordámos que, para que o nosso amor não se tornasse um obstáculo à felicidade, teríamos liberdade para satisfazermos os nossos desejos voláteis e todas as leviandades que nos atravessassem a cabeça, o coração e o sexo. O compromisso era simples: ser verdadeiro, respeitar o outro e a imagem pública do outro. E nada de relações com amizades comuns ou pessoas conhecidas de ambos.  

O nosso tratado era razoável. E foi graças à razoabilidade que se aguentou durante tanto tempo. Vivemos juntos mais sete anos - a nossa relação durou 12 anos no total. Até àquele dia, àquela véspera de qualquer coisa mais ou menos importante, em que decidi que era altura de libertar o meu rapaz belo. Não é que eu não o amasse, e eu sei que ele me amava também, mas há coisas que deixam de fazer sentido. E naquela manhã, quando ele me entrou em casa ainda bêbado, senti-me uma figura maternal, não a mulher amada com quem ele gostava de se deitar. Foi por isso que o mandei dormir.

*Se conhecer uma história real envie-a para m.oliviasebastiao@gmail.com. As suas ideias podem dar origem à história do próximo sábado. 

Leia também
As Mais Lidas