A resposta de Alexandra Leclerc diz muito sobre a forma como a internet olha para as mulheres
Bastou um comentário para ficar claro que, nas redes sociais, o estilo, a presença e a influência de uma mulher continuam, muitas vezes, a ser secundários perante a necessidade de a definir pela relação que tem - ou teve - com um homem.
Depois de marcar presença, como habitualmente, no último Miami Grand Prix, Alexandra Leclerc, influenciadora digital francesa, viu-se confrontada com um comentário menos agradável nas redes sociais feito por uma conta anónima que defendia que “ela não seria ninguém sem Leclerc”. Alexandra, que tem apenas 23 anos, respondeu da melhor maneira possível. Com calma e sem nenhuma tentativa de provar nada a ninguém, escreveu uma resposta poderosa, vulnerável e necessária sobre identidade e o respeito de alguém que ainda valoriza a normalidade.
“Na verdade, sem o meu marido, sou uma rapariga normal, com os meus passatempos normais, os meus interesses normais, as minhas paixões normais, que tenta ser o mais gentil possível.” Continua, “é isso que eu também sou como mulher. E não há nada de errado nisso; provavelmente é isso que tu também és (...) nem todos estamos destinados a ser cantores, médicos, atrizes ou atletas, e isso não diminui o valor de ninguém. Quem tu és como pessoa, como tratas os outros e o que escolhes fazer no teu tempo livre é que importa! Pensa nisso”.
Isto não é apenas mais um comentário a atacar uma mulher na internet, isto é a prova que a identidade das mulheres, principalmente quando estão numa relação pública, continua a ser vista como extensão do homem.
Já sabemos que no universo das celebridades existe uma pressão extra, uma espécie de contrato silencioso, em que as mulheres de atletas, músicos e atores são constantemente expostas, mesmo quando não querem ser, mas quase nunca reconhecidas pela sua individualidade. Tornam-se "a mulher de", e não importa se são bem-sucedidas, independentes ou com carreiras próprias, todas elas acabam reduzidas a uma lógica quase competitiva: será que "merecem" o homem com quem estão?
Poucos homens que namoram mulheres famosas são sujeitos ao mesmo escrutínio obsessivo sobre aparência, comportamento ou mérito. Porque a mulher, antes de ser reconhecida por quem é, tem primeiro de convencer o público de que merece estar onde está.
Parece também que existir deixou de ser suficiente. Hoje, temos de ser extraordinários para ter valor, como se a normalidade e as nossas paixões pouco ou nada importassem se não vierem acompanhadas de reconhecimento público, números ou troféus - que muitas vezes se resumem a likes vazios.
Quando o reconhecimento vive à base de métricas, como número de seguidores, sucesso financeiro, estatuto e produtividade constante, é difícil remar contra a maré. E quando uma mulher não apresenta imediatamente provas (e mesmo quando o faz, no caso da Alexandra), o julgamento torna-se automático: “o que é que faz da vida ?”, “o que é que acrescenta?”.
Num mundo que vive obcecado com status e validação viver de forma simples ou ser amado por alguém continua a parecer insuficiente e, no fim do dia, assumir-se como “uma rapariga normal” é, na verdade, completamente revolucionário.