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"A perda de algumas amizades são desgostos maiores do que a perda de alguns namoros"

Sismance (Sisters romance) ou BFF (Best friends forever) são apenas duas expressões modernas para rotular a velha amizade feminina. Feminismo? Girl power? Também, mas acima de tudo uma celebração pública da maravilha que é ter uma maior amiga.

Foto: Ben White / Unsplash
11 de agosto de 2020 | Patrícia Barnabé

Todas já tivemos, ou temos, uma maior amiga. Uma alma gémea que sabe (quase) tudo sobre nós - até o que não se conta. Até, às vezes, o que nem nós sabemos ainda sobre nós próprias. A amiga com quem rimos e choramos, e contamos sempre, na euforia e na tragédia, sete dias por semana e 24 horas por dia se preciso for, para nos aconchegar ou dizer umas verdades, para nos motivar para os sonhos ou desacreditar de ilusões. Aquela primeira pessoa a quem relatamos o que nos acontece, do mais relevante ao mais irrelevante. My person, como dizem os ingleses. Seríamos muito menos felizes, e crescer seria ainda mais difícil, se não tivéssemos as amigas maiores. Como escreveu Aristóteles, em Ética a Nicómaco: "A amizade é uma alma com dois corpos."

Podia bem estar a falar do sismance. O sismance é uma amizade entre duas raparigas ou mulheres, "intensa, especial, única, caracterizada por uma forte cumplicidade, afinidade e, em certos casos, alguma possessão", descreve Vera Lisa Barroso, psicóloga clínica na Oficina da Psicologia. É a versão feminina do bromance, e está de tal maneira "na moda" que já se abriram canais do YouTube por muito menos. Se pensarmos bem, a maior parte das youtubers, assim como as bloggers, parecem falar para nós como se fôssemos suas amigas e forjam uma intimidade que é boa parte do seu sucesso. Da mesma forma, já vimos incontáveis posts no Instagram de modelos besties, ou lemos artigos sobre as melhores amigas em Hollywood? Quem não se lembra das inseparáveis Paris Hilton e Nicole Ritchie? Depois do amor e do glamour sedutor dos casais, parece que a amizade se tornou um hype. Em particular, entre mulheres.

Antigamente, era mais marcada a ideia de contínuo na amizade. Ia-se da pequena intimidade até esta aumentar e ganhar consistência. Agora, sinal dos tempos rápidos em que vivemos, tornamo-nos um pouco adolescentes em constante estímulo e deixaram de existir cartilhas ou protocolos para as grandes amizades, como para os grandes amores. Podemos acabar de conhecer uma pessoa e ela tornar-se indispensável, como uma paixão assolapada. E os escritores são os primeiros a dizê-lo. Lord Byron escreveu que "a amizade é o amor sem asas", Arthur Schendel em Um Vagabundo Amoroso diz que "a única amizade que vale é a que nasceu sem razão" e António Lobo Antunes afirmou, uma vez, que "a amizade é regida pelo mesmo mecanismo do amor, é instantânea e absoluta". Se bem que, acrescenta, se neste podemos substituir uma pessoa por outra, na amizade não, porque "cada amigo tem o seu lugar".

Para a maioria dos especialistas, como para a maioria de nós, amizade e amor são planetas diferentes, ainda que partilhem a mesma galáxia dos afectos maiores, os que nos seguram ao final de cada dia. "A amizade é uma relação de afecto e cuidado entre duas pessoas, sem carácter romântico, que começa a ser ensaiada por nós desde tenra idade; o amor é um sentimento mais amadurecido e com um interesse romântico, experimentado numa fase mais tardia do nosso desenvolvimento. Ainda que dois sentimentos com características semelhantes, eles têm na sua essência grandes diferenças", sublinha Vera Lisa Barroso. Professor e investigador em Sociologia na Universidade Técnica de Lisboa, Bernardo Coelho concorda.

Para ele, "o desejo sexual está fora deste espaço de intimidade", partilha-se "a vida, os gostos, os desgostos, as incertezas e onde se vivem e exprimem coisas em conjunto". De qualquer das formas, é natural entendermos porque alguém se apaixona pelos nossos amigos: porque somos, à nossa maneira, também nós um pouco apaixonados por eles. Admiramo-los. Todos nos lembramos da obsessão com o maior amigo quando éramos crianças e é essa a essência do sismance.

Se fizer uma pesquisa rápida no Google, o dicionário de calão urbano vai dizer-lhe isto sobre o sismance: "Um amor intenso partilhado por mulheres heterossexuais; uma relação muito próxima entre duas mulheres ao ponto de começarem a parecer um casal." José Manuel Palma, professor de Psicologia Social na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, senta-se connosco num restaurante charmoso, junto à Avenida da Liberdade, para falar destes temas novos e complexos na medida em que falamos de linhas subtis, às vezes vermelhas, de campos que tínhamos como bem definidos. Recorda-nos que nas amizades existem várias dimensões e que, para além da confiança e da partilha, existe intimidade e paixão, um certo sentimento passional, "e não há nada que impeça que sejam muito profundas", afirma.

Por isso, como acontece entre homens e mulheres, também duas amigas se podem "apaixonar" em maior ou menor grau. Na verdade, a perda de algumas amizades são desgostos maiores do que a perda de alguns namoros. "Pode não existir a dimensão sexual, mas esta acontece com maior frequência na nossa sociedade numa amizade entre mulheres", acrescenta o psicólogo social. "Pela natureza da sua definição, os homens são muito mais homofóbicos, para eles uma experiência de homossexualidade é mais definidora da sua identidade. As mulheres têm experiências, vão e vêm – e pode acontecer, naturalmente, não o vivem como uma imposição ou como tendo uma influência duradoura na construção da sua identidade, como nos homens onde há uma espécie de linha que se passa. Na sociedade ocidental, a distância das mulheres é mais curta, estão mais próximas intimamente."

Vera Barroso é especialista em temas da adolescência, a fase em que estas amizades de irmandade se evidenciam, saudáveis numa certa medida: "Relações de afecto, afinidade e cumplicidade são sempre recomendáveis. No entanto, a tendência destas amizades (até pelo seu carácter singular) é para limitar e afunilar o campo relacional, o que numa fase como a adolescência pode representar uma grave restrição das experiências sociais e, por conseguinte, das aprendizagens e amadurecimento emocional daí decorrentes (não tão grave se estivermos a falar de jovens adultos).

Por outro lado, muitas das pessoas que (se) alimentam de relações exclusivas como estas são menos confiantes, seguras e autónomas, ficando muito dependentes e, por vezes, isoladas."  "Do ponto de vista evolutivo, a quantidade de pessoas que conhecemos mantém-se, mais ou menos, há ‘séculos’", diz-nos José Manuel Palma: "Temos quatro a seis amigos íntimos; conhecidos que podem ir até aos 150; e, depois, os outros", pormenoriza. "Tem havido uma diminuição no número de amigos íntimos, no mundo moderno, e isto é preocupante", ao mesmo tempo que "há uma quantidade avassaladora de pessoas sem amigos: as pessoas sozinhas são, hoje, o dobro da percentagem dos anos 80", acrescenta, baseado em estudos norte-americanos, alguns sobre o Facebook. Por isso, no contexto social urbano em que vivemos, o mesmo que induz a uma crescente solidão, é compreensível as amizades estarem na ordem do dia: "Criámos mecanismos de afunilamento das relações: elas são mais reduzidas e mais focalizadas. São fenómenos que nos acompanham sempre, mas estão mais intensos, hoje."

Da mesma forma, acrescenta Vera Lisa Barroso, vivemos numa era "onde as tecnologias limitam os convívios sociais e favorecem o aparecimento de relações singulares". E talvez seja uma revelação mais recente, amizades com um carácter tão intenso, exclusivo e especial, "sem olhares preconceituosos. Actualmente, temos uma sociedade que caminha para uma maior aceitação e capacidade de tolerância, onde as pessoas podem ligar-se a outros seres humanos de forma mais livre e sem receios". Por isso, vamos celebrar as amizades. "Felizmente, vamos conseguindo nomear, cada vez melhor, as ligações humanas", remata a psicóloga.

E porque se fala de sismance, agora, se sempre existiu? Viveremos, também, numa era da amizade feminina? "Não e sim", responde, sem vacilar, Bernardo Coelho, recostado no sofá. "Não, porque as mulheres sempre viveram amizades exclusivas entre si, sempre tiveram formas de sociabilidade exclusivas. Mas eram mais privatizadas e socialmente desvalorizadas, vividas de forma recatada.  Sim, porque, neste momento, essas amizades ganham carácter público na forma como se expressam. Essa é a novidade. Pelo contrário, as amizades entre os homens sempre foram vividas na esfera pública (nas tabernas, nas tascas, nos bares, etc.; ou em actividades feitas em conjunto).

Assim, vivemos uma era em que mulheres e homens vivem as suas amizades mais abertamente e de forma mais igualitária, tal como noutras esferas da vida social." Falar, agora, de sismance significa, em certa medida, "uma manifestação de conquista de maior centralidade das mulheres no mundo social. Haver uma expressão que descreve a forma como vivem a amizade e as sociabilidades, entre si, significa a conquista da legitimidade de viverem e expressarem, publicamente, essas amizades. Revela as mulheres como produtoras da sua vida e agentes da sociedade." Por outro lado, o fim da exclusividade masculina da esfera pública também se torna evidente na forma como as amizades de homens e mulheres são vividas em contextos mais íntimos.  Por exemplo, diz Bernardo, "o desejo cada vez mais comum de termos cozinhas abertas em casa revela a ruptura da ideia de que mulheres e homens têm espaços e tarefas distintos para viverem as suas vidas".

O sismance surge, naturalmente, num tempo de reavaliação dos papéis de género e, nesse aspecto, será um sinal de empoderamento no feminino. Por isso, assistimos a tantas manifestações de girl power, na televisão, no cinema, na moda, na cultura popular. Por outro lado, também surge num momento em que todos tentamos recolocar-nos no mundo. Em consultório, Vera Lisa Barroso diz deparar-se com uma grande procura de balanço interior. "As pessoas procuram relações perfeitas e estados de paz interior, numa era onde tentamos equilibrar as conquistas sociais com a herança cultural e biológica (as mulheres são, ainda, as maiores cuidadoras do lar e dos filhos, acumulando muitas responsabilidades)", diz. E serão elas, hoje, mais amigas entre si, isto é, desapareceram os velhos sinais de competição que, por vezes, observamos e ouvimos em expressões como "As mulheres são terríveis umas para as outras"?

Bernardo Coelho é um dos especialistas por detrás do programa governamental para a igualdade de género e diz que as mulheres não estão, hoje, mais amigas, o que mudou é a forma de "construírem, viverem, experimentem e expressarem essa amizade. A vida das mulheres transformou-se radicalmente, nos últimos 50 anos: o modelo de família, vendo no homem provedor e na mulher cuidadora, caiu por terra; as mulheres acedem ao mercado de trabalho; são mais escolarizadas do que os homens e têm tido, progressivamente, mais acesso a lugares de tomada de decisão política e económica, etc. 

Neste contexto, as suas amizades são, também, mais públicas e constroem-se em torno de um conjunto mais vasto de contextos sociais". De uma forma ou de outra, "precisamos das amizades porque elas confirmam a nossa identidade pessoal e social", que é sempre reforçada pelas outras pessoas. "A amizade confirma a nossa visão do mundo", diz-nos José Manuel Palma. Em estudos sobre a felicidade, "e há estudos muito engraçados", acrescenta, "quando se pergunta às pessoas quais foram os momentos mais felizes das suas vidas, em termos médios, elas respondem que é quando estão com os amigos – o que, muitas vezes, ultrapassa a felicidade do encontro sexual. Estar com os amigos é um dos momentos fundamentais na nossa felicidade". Porque "estamos entre irmãos e irmãs", como diz a jovem escritora japonesa Banana Sugimoto, "e continuamos a ser crianças para sempre". Neste caso, sisters for ever.

*Artigo originalmente publicado na Edição 353 da Máxima, janeiro de 2018.

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