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“Vou dormir com Aretha Franklin e acordo com Aretha Franklin”

Jennifer Hudson tem um dos papéis mais marcantes de Cats, o musical que continua nos cinemas nacionais, mas será a sua interpretação da diva Aretha Franklin a marcar 2020. A atriz explicou como se preparou para os dois filmes.

Foto: Getty Images
16 de janeiro de 2020 | Rosário Mello e Castro

Tornou-se conhecida em 2004 como finalista da terceira temporada do concurso American Idol e teve o seu primeiro papel no cinema como Effie White em Dreamgirls (2006), pelo qual recebeu um Globo de Ouro, um Bafta e um Screen Actors Guild Award para Melhor Atriz Secundária. Jennifer Hudson Fez ainda parte do elenco de O Sexo e a Cidade (2008), A Vida Secreta das Abelhas (2008) e Black Nativity- Um Espetáculo de Natal (2013). Em 2015, estreou-se na Broadway como Shug Avery em The Color Purple. O seu primeiro disco homónimo saiu em 2008 e chegou ao ouro nos EUA, vendendo mais de um milhão de cópias em todo o mundo e recebendo um o Grammy para Melhor Disco de R&B. Seguiram-se os álbuns I Remember Me (2011) e JHUD (2014).

Em Cats, realizado por Tom Hoope, e baseado no conhecido musical com o mesmo nome, é Grizabella, o gato Glamour, uma alma isolada e sozinha. É sua uma das performances mais notáveis da produção original da Broadway, a do tema ‘Memory’.  

Teve de cantar ‘Memory’ cerca de 25 vezes quando estava a gravar essa cena do filme. Foi muito esgotante?

Emocionalmente, sim. Estavam sempre a dizer-me para poupar a minha voz. Mas eu estava bem vocalmente. Foi o lado emocional que me custou. Adormeci no set a certa altura. Foi uma sesta de gata! Acordei com o Tom Hooper a olhar para a mim e a dizer-me ‘Memory’ (canta).

Já conhecia o tema?

Sim, é daquelas canções que toda a gente conhece. Quando o Tom veio ter comigo para falar sobre este papel, eu conhecia o famoso musical, mas não conhecia a história. Ele disse-me: "conhece a ‘Memory’" e eu disse-lhe que não. Mas ele começou a tocá-la e claro que a conhecia. Sempre adorei essa canção. É essa a minha ligação a tudo – através da música. Aconteceu o mesmo no Dreamgirls. (…)

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Quando Tom Hooper falou consigo quais eram as suas intenções iniciais para o personagem? 

Acho que a ideia foi chegarmos a uma performance honesta da narrativa da Grizabella – porque na verdade ela aparece muito brevemente. Mas a sua presença é muito marcante. Quando a vemos, temos de ficar a pensar em quem ela é. É misteriosa e é pesada porque carrega consigo um peso emocional muito forte. O Tom Hooper foi muito particular em relação à cicatriz no olho dela, na sua forma de andar, à história daquele lábio e às razões para as suas emoções. Tudo isso tem de estar concentrado nas batidas de uma canção. O público tem de a conhecer num espaço muito curto de tempo.   

Como encontrou esse estado emocional – foi buscar elementos da sua própria vida?

Acho que todos já passámos por esses momentos em que nos sentimos em baixo ou aquém de alguma coisa. E para mim isso tem a ver com a música da canção. Sempre que a cantava a emoção apoderava-se de mim (…). Uma das razões pelas quais tive de cantar 35 vezes foi o facto de nas primeiras doze não conseguir fazer muito mais do que chorar. E chorava durante a canção toda. Tive o mesmo problema no Dreamgirls. O [realizador] Bill Condon dizia-me: "É demasiada emoção, tens de a controlar". Eu tinha de esperar um minuto (…) porque, quando era miúda, quando começava a cantar, ficava sempre demasiado emocional. A minha mãe dizia-me, ‘Jennifer, canta e pronto!’ Começava a ouvir essa frase na minha cabeça e tinha de equilibrar essas emoções para conseguir cantar. Tentar com que tudo corresse bem é a parte mais vital do processo.

Sempre que grandes cantores pegam numa canção como esta, como se consegue encontrar a sua própria versão?

Essa é uma grande questão. "O que posso fazer com isto?" Tenho de me deixar sentir o que sinto e essa será a minha versão. Não tento fazer uma coisa específica. Não podemos tirar as coisas do contexto ou adicionar um riff aqui ou prolongar uma batida ali. Não se pode brincar com os clássicos assim. Temos de mantê-los ao mesmo tempo que os tornamos diferentes, se é que isso faz sentido? Tenho de contar a história e deixar que esta seja honesta para mim e isso faz com que as coisas fiquem à minha maneira.

Sente que trabalha bem sob pressão? Em Cats canta um tema icónico e vai interpretar Aretha Franklin no seu próximo filme.

Eu própria penso nisso – porque faço isto a mim própria? (risos) A minha mãe costumava dizer-me "Jenny, tu lidas bem com a pressão". E eu não sei se atraio, mas é um facto que me encontro sempre nesse tipo de posição. Eu gosto de um bom desafio, é como me sinto bem. E adoro temas como o ‘Memory’ e adoro a Aretha. Só quero fazer-lhes justiça da forma que conseguir. 

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Conheceu Aretha Franklin?

Sim, sim, muitas vezes. Éramos amigas.

Como a vai interpretar no filme?

Esse processo já começou. Acabei de deixar o set de Respect. Quando estava a filmar Cats tive de sair e fazer algumas coisas para o Respect e agora aconteceu o inverso. Vou dormir com a Aretha e acordo com a Aretha. Neste momento, é estranho ser eu. Porque fui diretamente da Grizabella de Cats para o Respect, na minha cabeça estou nos anos 60. Dou graças ao meu stylist porque se fosse por mim provavelmente estaria agora com a minha peruca de Aretha, é mesmo uma viagem no tempo. Para mim, tudo neste momento gira à volta de Respect.

Sempre foi assim desde os tempos de escola?

Sempre gostei de trabalhar arduamente. A vida prepara-te para a próxima coisa. Lembro-me sempre de estar na escola e de ter de cantar um tema clássico complicado ‘O Divine Redeemer’, para um concurso. Comecei logo no nível avançado no primeiro ano do secundário, o que só costuma acontecer quando se está no último ano. O concurso estava a aproximar-se na mesma semana em que a minha avó morreu, a irmã dela morreu e todos estes acontecimentos da minha vida estavam a acontecer ao mesmo tempo que tinha de me preparar. Agora, quando olho para a forma como a minha vida se desenrolou e com tudo aquilo com que tenho de lidar enquanto faço aquilo que faço, é como se tudo me tivesse preparado para o que vinha a seguir. O facto de me confiarem com coisas que são muito importantes impõe-me imenso respeito. Não o encaro de ânimo leve. A minha mãe sempre me disse que não valia a pena trabalhar numa coisa se não nos vamos dedicar mesmo a ela. Tento sempre lembrar-me disso. Quando penso em ‘Memory’, ‘Respect’, ‘And I am Telling You…’oiço sempre a minha mãe dizer: ‘Tudo o que podes fazer é o teu melhor’. Não posso ser fantástica como Aretha; tenho de ser fantástica como Jennifer. Não posso ser fantástica a ser tudo o que as maravilhosas cantoras que interpretaram ‘Memory’ também foram. Só posso fazer o que a Jennifer Hudson consegue fazer.

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