Histórias de Amor Moderno: "Talvez fantasiasse com agarrar-me por trás, possuindo-me. É possível que fosse isso”

“Talvez me achasse sensual, talvez gostasse do meu tom de pele mais escuro, ou se calhar era o meu rabo empinado e de anca larga que o entusiasmava.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Foto: IMDB
27 de junho de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião

O Rui ajudou-me muito, logo desde o primeiro dia. De entre toda a equipa, foi o único que me olhou com respeito. Foi, aliás, mais do que isso: olhou-me com compreensão, com humanidade. Interagiu comigo como de pessoa para pessoa - sem estigmas, sem preconceitos. Eu sei que parece pouco, e que esta devia ser a norma, mas experimentem começar como estagiária na cozinha de um restaurante com estrela Michelin. Sendo mulher. E mulata. (E, modéstia à parte, bonita, já agora.)

Nem todas as cozinhas são espaçosas e fotogénicas, por mais que o restaurante e o seu chef sejam célebres. Às vezes, quando acontece tratar-se de um sítio antigo, o espaço é pouco e a arrumação, longe de ser a ideal, acaba por ser a possível. Era o caso desta cozinha onde me iniciei profissionalmente.

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Há várias consequências para a falta de espaço numa cozinha com 14 pessoas a trabalhar sob pressão. Uma dessas consequências é a necessidade de estabelecer fronteiras, territórios, dizer aqui começa o meu lugar e o teu termina aí; outra é termos constantemente alguém a passar-nos por trás e a roçar-se em nós. Especialmente quando se trata de homens sem maneiras, com dificuldade em manter o material dentro das calças, sempre sedentos por mais uma conquista.

Era o caso do meu chef de partie - um barbudo, mal lavado, com uma barriga proeminente, mas mesmo assim não tão proeminente como o seu ego. Cheio de confiança e tendo-se numa conta substancialmente desajustada dos seus verdadeiros atributos, o Joel era daqueles homens que acham que todas as mulheres são pedaços de carne. Possivelmente, era defeito profissional, já que a sua era precisamente a estação das carnes.

Dantes, dizia-se que o lugar da mulher era na cozinha, mas hoje, que ser chef is trending, a cozinha is a man’s world. Não sei como é o ambiente numa caserna durante a recruta, quando os rapazes vão à tropa. Tudo o que conheço são as histórias do meu pai, que fez a recruta nos anos 80, ainda antes de conhecer a minha mãe. Mas acredito que, no essencial, não existam muitas diferenças entre uma caserna e uma cozinha ambiciosa.

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Em ambos os sítios vamos encontrar homens jovens não muito limpos, cheios de testosterona e de vontade de mostrar a sua masculinidade, contudo ainda demasiado inexperientes para terem destreza nos jogos do amor - e nem por isso conscientes das suas insuficiências, pelo contrário: nestes meios, a testosterona parece um vírus, uma doença contagiosa, que se pega ao colega do lado e que se propaga através do olhar ou da palavra.

Imagino que o humor também seja semelhante num e noutro sítio, onde reina a chamada - adequadamente chamada - piada de caserna. Por fim, tanto numa caserna como numa cozinha estamos rodeados de armas potencialmente letais. Este não é um ingrediente menor: em situações-limite, convém que tenhamos a reação certa, caso contrário pode acontecer uma grande tragédia.

Gosto de ressalvar a postura do Rui, pelo menos naquele período inicial em que me juntei à equipa, porque ele era de facto diferente. Tratava-me bem, mostrava verdadeira preocupação e chegava mesmo a, dentro dos seus limites, exigir algum respeito por mim. Chegou a tomar o meu partido em situações mais tensas. E não o fazia enchendo o peito, abrindo as asas ou falando alto, o que denota inteligência e sensibilidade.

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O Rui preferia ser diplomático e subtil. É certo que a sua posição na hierarquia não lhe permitia muito mais - um simples cozinheiro, ainda novo e com pouco currículo, além da fisionomia destoante dos demais, um rapaz magrito com pouco mais de um metro e setenta, entre um bando de delinquentes, quase todos de cabelo rapado e com corpo ora de ginásio, ora de lutador de sumo. E eu gostei dele por causa disso, dessa postura serena, mas assertiva, e também daquela particularidade mágica que eleva certas pessoas acima das outras, que é ter sentido de justiça e uma outra de que hoje em dia se fala muito, que é ser capaz de ter empatia.

Enquanto eu me tentava adaptar a este mundo de homens duros e não muito bem formados, ia reparando no Rui, nas suas maneiras, tanto profissionais como pessoais, e ia gostando do que observava. E, ao mesmo tempo, ia tentando desviar-me das bolas do meu chefe de estação - e esta expressão é metade figurativa, metade literal, porque esse gordo imundo bem tentava roçar as suas partes baixas no meu rabo de origem cabo-verdiana. Felizmente, a barriga do Joel acabava por criar um espaço seguro entre o meu traseiro e a pélvis desse homem permanentemente transpirado, mas os toques aconteciam na mesma, o que me enojava particularmente.

Inicialmente, o Joel era o tipo que mandava as piadas sugestivas. Chamo-lhe sugestivas para evitar chamar-lhes porcas, mas talvez seja melhor chamar os animais pelos nomes - e sim, o que ele fazia era mandar piropos porcos. Por um lado, é risível: como é que um homem adulto, em plena década de 2020, acredita que uma boca foleira, machista e degradante pode encantar uma mulher? Mas, por outro, foi-se tornando intimidante, porque não precisamos de pensar muito para perceber que aquele é um meio e um sítio onde somos claramente o elo mais fraco. Repito: mulher, afrodescendente e bonita no meio de 13 homens brutos no limite humano da testosterona. You do the math.

Houve um dia em que o Joel me pôs a mão no rabo e disse “que bela suã” e deu-me uma palmadinha. Para quem não sabe, a suã é um corte do porco um bocadinho acima da perna, ao pé do traseiro do bicho. Toda a equipa riu, todos alarves, ahahahah, que grande piada, que sentido de humor requintado, ahahahah, que finesse, a mexer na bunda da estagiária e, ainda por cima, a chamar-lhe porquinha.

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Eu fiz o meu mais difícil sorriso amarelo, numa tentativa de desvalorizar o horror que sentia dentro de mim e, já agora, para tentar controlar os meus gestos com a faca - estava precisamente a fatiar carne de porco ibérico, que foi, durante os 73 dias em que estagiei naquele antro, uma das funções que mais vezes desempenhei.

Nesse episódio, que se prolongou um pouco mais, o Rui aproximou-se do Joel e disse-lhe qualquer coisa baixinho e perto do ouvido, quase em segredo. O outro, com as suas lendárias maneiras, respondeu-lhe alto e bom som, para toda a gente ouvir: “Ó meu peso-pluma, se queres ir lá tu, vai lá tu, eu estava só a brincar”. O Rui baixou os olhos e corou muito, saiu da cozinha. Fez-se silêncio, ou quase, porque as risadinhas de hiena começaram imediatamente a espalhar-se entre os mancebos. Eu esperei um pouco e, passado um momento, fui à procura do Rui. Encontrei-o lá fora, a fumar um cigarro, cabisbaixo. Aproximei-me dele, sorri-lhe, toquei-lhe no braço. “Não sei o que disseste ao Joel, mas foi corajoso da tua parte. Obrigado por não me teres deixado sozinha.” Sorriu com alguma timidez. Tinha um sorriso bonito, o Rui. Conversámos durante um bocadinho - até alguém vir à porta gritar um “atão, pá?”, porque as pausas ali tinham de ser curtas ou inexistentes - e acabei por convidá-lo para beber um copo depois dos jantares. “E, se tivermos fome no fim do copo, sei de uma cachupa fora de horas que é uma maravilha.” Ficou combinado.

Não é preciso ser-se um génio das relações para perceber que havia entre nós um interesse mútuo. Eu achava-lhe uma certa graça e ele tinha uma clara paixoneta por mim. Talvez me achasse sensual, talvez gostasse do meu tom de pele mais escuro, ou se calhar era o meu rabo empinado e de anca larga que o entusiasmava. Talvez fantasiasse com agarrar-me por trás, possuindo-me. É possível que fosse isso, pois foi precisamente o que fez quando, depois da cachupa fora de horas, fomos para o meu quarto, que ficava perto. E fizemos sempre da mesma maneira. Fiquei sem perceber se era o meu rabo que o atraía ou a minha cara que o desgostava.

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O dia seguinte foi o meu último no restaurante. Quando acordei, o Rui já tinha saído. Percebi depois que me tinha deixado dormir. Na mesa de cabeceira, onde podia estar uma flor, um bilhetinho, um objeto qualquer que significasse qualquer coisa, nem que fosse um simples “bom dia”, não estava nada. Era só a ausência daquela pessoa com quem eu tinha passado um bom bocado e com quem fizera amor - não sei bem se lhe podemos chamar “fazer amor”, acho que é mais rigoroso dizer que “tivemos relações sexuais” - várias vezes durante mais ou menos duas horas. Bom, pensei eu, pelo menos foi um bom bocado.

Quando cheguei à cozinha do restaurante, todos se calaram. E eu quero dizer todos, mesmo, chef e sous-chef incluídos. Calaram-se e seguraram risadinhas, as tais risadinhas de hiena, meio engasgadas e um pouco agudas, aquelas que as matilhas seguram no cimo da garganta para que ninguém as oiça, mas que toda a gente ouve. Quando eu digo todos, é todos mesmo: o Rui também.

Logicamente, percebi o que se passava, que já todos sabiam, que eu era a piada do dia, o pedaço de carne. Fiz o meu melhor sorriso e segurei as lágrimas - de raiva, sim, mas sobretudo de tristeza, porque me senti sozinha, muito sozinha, e desapontada, desiludida -, que acabariam por correr, silenciosas, rosto abaixo durante todo o serviço, que executei com rigor e com zelo. Em silêncio e com um sorriso magoado, mas executei.

No fim, lavei as minhas facas e guardei-as. “Obrigado, chef, pela oportunidade que me deu de aprender consigo. Foi uma experiência enriquecedora. Até sempre.” Quando a porta se fechou atrás de mim, ouvi as gargalhadas das hienas sem maneiras.

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