Histórias de Amor Moderno: “O meu pensamento foi diferente, ‘vou ser mãe’ significou medo, pavor, horror, pânico”

“O David engravidou-me. Sei que foi ele porque eu não ia para a cama com ninguém havia quase seis meses, e não acredito na inseminação divina por obra do Espírito Santo.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Numa festa, uma mulher reflete sobre a maternidade e a sua relação com David. Foto: "L'événement" (IMDB)
30 de agosto de 2025 às 08:03 Maria Olívia Sebastião

Duas linhas: a de controlo e a outra, a que eu não queria que aparecesse, mas essa teimou em emergir daquelas trevas descartáveis, prontas para deitar fora. Uma pessoa tira a canetinha da embalagem, desembrulha, lê as instruções, muda completamente a vida e o destino e, a seguir, atira para o lixo. Há qualquer coisa de profundamente trágico e, em simultâneo, desligado da realidade neste exercício. Não faz sentido na minha cabeça que o instrumento que confirma que tudo muda seja tão efémero.

Vou ser mãe, foi a única coisa que consegui pensar. Normalmente, quando as pessoas pensam estas palavras, fazem-no com alegria e regozijo. Pelo menos, é assim que imagino estas palavras a ressoar na cabeça das outras pessoas. Eu vejo-as tão felizes, tão realizadas, tão absolutamente convictas do que são e do que fazem, que acabo por presumir que é assim que se sentem, felizes, quando descobrem que vão ser mães. Mas o meu pensamento foi diferente. Pânico.

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Eu gosto de gin. Gosto de gin e de sair à noite. E gosto de vodka, de cocktails, de shots de whisky. Gosto de tudo aquilo com que os snobes intelectuais gozam - mas quantas vezes não gozam por pura inveja? Gosto de jantar em restaurantes chiques e gosto de chocar com tops descapotáveis. Gosto de relógios vistosos, de bling-bling, como dantes se dizia. Gosto de parecer bonita, pois gosto, e não sei o que isso tem de mal. Gosto que me apreciem. Se eu usasse palavras mais elaboradas, diria que gosto de ser contemplada. Mas não o vou fazer, porque as minhas amigas iriam estranhar se eu dissesse frases com palavras dessas.

Gosto que me subestimem na quantidade certa - não o suficiente para me humilharem, mas o bastante para que não me temam nem me deem demasiada importância. É nesse equilíbrio que eu vivo e prospero: sem ser rebaixada, sendo sempre querida e apreciada, mas nunca temida.

Rodeio-me de pessoas que gostam do mesmo que eu. Há quem considere tudo isto fútil, supérfluo, superficial, vazio. Eu acho que depende da perspetiva: se é isto, este tipo de vida o que me preenche e satisfaz, se não encontro alegria nem apelo noutras realidades, sejam elas mais ou menos intelectuais, mais ou menos sofisticadas, porque hei de renegar o meu instinto e o meu desejo? Só para vos fazer a vontade? Minhas amigas, ganhem juízo.

É claro que, nestes círculos, conhecemos muita gente. Nem todas as pessoas são especialmente interessantes, nem todos nos abordam com pensamentos profundos, demonstrações de consciência social, noções genéricas das principais correntes filosóficas ou sequer, em muitos casos, coerência gramatical. Mas, então e a quantidade de gente bonita com que eu me cruzo? Gente arranjada, bem vestida, com bons perfumes, corpos bem cuidados, músculos tratados, cabelos aparados, depilações perfeitas, lábios e sobrancelhas de contornos ideais.

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E sim, gosto de homens que se cuidam e que têm condições para cuidar de mim. Não me envolvo seriamente com facilidade. Tive poucos amores a sério. Prefiro ter as minhas relações, as minhas amizades e a minha liberdade. Prefiro andar pela vida sem correntes que me prendam.

Um dos meus melhores amigos é jogador de futebol. Conheço vários, é normal, nestes círculos. São pessoas com gostos semelhantes aos meus, que procuram os mesmos restaurantes, os mesmos sunsets - lá vão as minhas amigas sofisticadas e inteligentes gozar comigo, por eu gostar de “sunsets”, mas, como eu costumo dizer, “pores do sol, há muitos”, se é que me entendem. Esse meu amigo é mesmo amigo a sério. É daquelas pessoas que me atendem o telefone seja quando for, que me ajudam sempre que preciso, que me escutam, que me recebem, que me mimam se eu precisar. Já nos conhecemos há muitos, muitos anos. E, sim, já fomos para a cama. Até mais do que uma vez.

Esse meu amigo não se chama David, mas vamos fingir que sim, que é assim que ele se chama: apresento-vos o David, futebolista de segunda linha, que muda de clube todos os anos, mantendo-se num equilíbrio muito habilidoso entre as piores equipas da primeira liga e as melhores da segunda, fazendo sempre o possível por evitar uma emigração forçada para mercados menores, embora bem pagos, mas nunca descartando a possibilidade de uma saída para a Arábia ou para o Qatar, caso surja a oportunidade. Ao David não faz confusão o calor nem a areia, que ele está habituado a passar o julho na praia da Falésia, e é quando não vai com a mulher e a filha para Ibiza ou para um resort qualquer nas Caraíbas.

O David engravidou-me. Sei que foi ele porque eu não ia para a cama com ninguém havia quase seis meses, e não acredito na inseminação divina por obra do Espírito Santo, isso é história que comigo não pega. Foi, aliás, a minha saudade de sentir o corpo no corpo, a pele na pele, juntamente com uns copos em excesso, o que me levou a desejá-lo uma vez mais e a consumar aquilo que não devíamos. Respeito muito a Liliana, a mulher dele, tornou-se até minha grande amiga. E, por tudo isto, lamento muito. Só não lhe peço desculpa porque ela não sabe de nada e contar-lhe seria criar um problema onde ele não existe. Deixemo-la assim, saudável e alegremente ignorante. Quem não sabe é como quem não viu e, se ela não viu, então, para todos os efeitos, nada aconteceu.

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O David também não sabe que fiquei grávida. Não precisa de saber. Tratei de tudo. Chamem-me frívola, se quiserem. Há momentos na vida em que temos de tomar decisões. E essas decisões devem ser serenas, racionais, lógicas. Eu não sou tão frívola quanto vocês pensam. Simplesmente, sei pesar prós e contras. Sei o que quero da vida e o que tornaria a minha existência insuportável. Sei daquilo que sou capaz e aquilo que não quero sequer imaginar. Eu seria uma péssima mãe. Péssima, terrível. Não me peçam para ser aquilo que não sou e não consigo ser. E, para aqueles que acham que, então, eu devia ter mais cuidados quando me deito com alguém, só tenho a dizer o seguinte: eu não fiz isto sozinha. Quando me dou prazer sozinha, o objeto não me engravida, os meus dedos também não. Percebem a ideia? It takes two to tango, como dizem nos filmes americanos. Porque não vão exigir cuidados e consciência ao David? Até porque é ele quem tem mulher e filha. Venham falar comigo . Até lá, teremos sempre Badajoz.

*Se conhecer uma história real envie-a para m.oliviasebastiao@gmail.com. As suas ideias podem dar origem à história do próximo sábado.

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