Neste momento, só queria que o meu marido chegasse por trás de mim, como de costume, e me agarrasse e começasse com aquelas balelas dengosas ao meu ouvido, cheio de provocações e insinuações. Adorava. Só para eu lhe poder dizer que não - não, meu querido, tu daqui não levas nada. Não enquanto eu me lembrar da encrenca em que nos meteste. Podes rastejar, podes lamber o chão, os dedos, o fundo dos tachos, o que tu quiseres, mas nem esses teus lábios nem essa tua língua vão tocar nesta pele maravilhosa com que a natureza me abençoou e tu desgraçadamente tens por perto todos os dias desde há mais de quatro anos.
Juro: apetece-me arrancar-lhe as pontas dos dedos à dentada. Eu sei, isto parece violento, mas não estou a dizer que o vou fazer. Estou a desabafar, a dizer que sinto vontade, um desejo vulcânico, uma coisa que nasce da ira, da revolta, do exaspero. Neste preciso momento, procuro uma coisa tão simples como a chupeta do biberão da água do meu filho - do filho dele! Porque, nestas alturas, só me ocorre berrar-lhe “Sérgio, onde é que meteste a chupeta do biberão do teu filho?” (Quando a situação azeda, o filho dos dois passa a ser responsabilidade monoparental: “O teu filho teve um 2 a Matemática”; “o teu filho mordeu a bochecha do Fábio”; “o teu filho precisa que lhe mudem a fralda”.) O meu filho ainda só precisa que lhe mudem a fralda, não faz a menor ideia do que a matemática seja e não tem dentes suficientes para morder bochechas aos Fábios: dois dentinhos singelos, ambos em baixo, e é tudo. Chegam para me arranhar os mamilos na hora da mama? Sim. Magoam. Mas daí a poderem agredir um colega de creche ainda vai uma longa distância.
Eu não odeio o meu marido numa base normal. Na verdade, eu gosto dele. Claro que gosto. Só que ele às vezes tira-me do sério. Tem uma capacidade inigualável para complicar as coisas, baralhar a vida, tornar difícil o que aparentemente era fácil. Da última vez, foram as obras de “ampliação da cozinha, construção de um novo terraço, com um acrescento de um patamar elevado” não-sei-quê-blá-blá-blá. Ele repete-me isto tantas vezes que eu dou por mim, enquanto desabafo com quem me é próximo, a referir-me às obras - papagueando - como “as obras de ampliação da cozinha e da construção do patamar”, até que me dou conta do quão idiota deve ser este discurso repetitivo para quem está de fora. Tenho uma amiga que já diz logo “sim, sim, da ampliação da cozinha e do não sei quê do patamar, já sei”.
Decidiu arrancar com as obras estava eu a meio do oitavo mês de gravidez. Tentei demovê-lo. Disse-lhe “mas Sérgio, e depois com o bebé, como é que fazemos? Andamos com a trouxa às costas? Vamos para casa da tua mãe?” Nada. “Isto não demora nada”, respondeu. Que conhecia uns tipos que eram umas máquinas a fazer obras de ampliação e de construção e não sei quê e que, além disso, ainda tinha uns amigos que são uns porreiros e que ajudariam no que fosse preciso - carregar baldes e vigas, fazer massa, acartar materiais, dar serventia aos pedreiros. “Em três semanas temos isto pronto.”
Já lá vão sete meses e meio: tenho o chão todo escavacado, tenho uma porta provisória e no lugar da janela está um vidro de vitrine preso com uns arames enfiados na parede - que ainda está por rebocar. A casa está caótica. Tenho móveis espalhados por tudo quanto é lado, objetos de cozinha repartidos por todas as divisões. O chão do corredor foi arrancado e, até hoje, não foi reposto. “Os pedreiros vêm para a semana”, diz-me o Sérgio. Só não dizem qual é a semana.
Se a casa fosse grande, a coisa até se resolvia. Eu sou paciente, tenho resistência, sou pessoa de saber esperar. Só que vivemos num T1+1, rés-do-chão com terraço, na Cruz de Pau. São cinquenta e poucos metros quadrados dentro de casa, mais sensivelmente catorze lá fora. Não tenho onde guardar as minhas coisas, nem as do bebé, nem as da cozinha, nem, tão pouco, as do Sérgio. A minha vida já não era fácil. Assim, agora, tornou-se caótica - ainda não encontrei a porcaria da chupeta do biberão do bebé. É muito desgastante.
E depois, quem sofre no meio disto tudo é o amor. Não temos tempo um para o outro, nem privacidade, nem conforto. Como é que eu, com um bebé de colo, consigo estar à vontade com o meu marido, numa casa toda escalavrada, onde uma das janelas nem sequer tem janela? Como é que eu posso entregar-me a ele e receber aquilo de que gosto em troca? Se me chego ao fogão de manhã ainda só de soutien vestido, tenho medo que alguém assome à janela e espreite pelos tapumes que tapam a vitrine.
No fundo, no fundo, só queria que o meu marido chegasse por trás de mim e me agarrasse com força e com fome, começasse com aquelas tagarelices dengosas ao meu ouvido, que me arrepiam os pêlos que me restam e me deixam pronta para tudo. Tenho saudades desses momentos. Tenho saudades do corpo dele contra o meu. Só queria voltar à nossa vida normal.