Histórias de Amor Moderno: “E então ele pegou-me ao colo, enfiou-me no quarto e começou a despir-me."

“Então o Gaspar o sugeriu: e se perdesses o avião? Respondi-lhe que seria muito difícil. A não ser que surgisse um grande, grande imprevisto ou um motivo de força muito maior.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Casal na cama partilha momentos com livro, num conto sobre o amor moderno Foto: IMDB
10 de janeiro de 2026 às 09:00 Maria Olívia Sebastião

Já viram os desfiles dos Reis Magos, em Sevilha? Se não viram, têm de ver. Mas têm de ver estando lá, no meio daquela multidão esmagadora e caótica, numa espécie de Carnaval cristão em que os carros alegóricos distribuem guloseimas, atirando-as pelos milhares e milhares de pessoas que, eufóricas, enchem as ruas planas e estreitas do centro da cidade. É uma loucura saudável e uma festa realmente diferente das nossas, em Portugal, feitas de paz e de harmonia, de Missa do Galo e bacalhau com todos, luzinhas na árvore de Natal e o mito ocidental às cavalitas de um São Nicolau gordo e barbudo, a deixar prendas na chaminé dos meninos - dos que se dão ao luxo de ter uma chaminé, pelo menos. 

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Ali, é tudo menos isso. O Natal é uma vírgula, o Ano Novo umas reticências: é com os Reis que vem o ponto de exclamação! As pessoas cantam e riem, há fanfarras, gente a dançar, confetti e crianças na rua, mesmo quando a temperatura desaconselha os mais cautelosos. É verdade, vi-o com os meus olhos: zero graus marcados nos termómetros das farmácias e criancinhas de casacos, gorros e calções, uns pela mão dos pais, outros ao colo, outros ainda em carrinhos, mas todos na rua, porque a hora é de celebração. Às tantas, a confusão é gigantesca e pés colam-se ao chão, onde jazem milhares rebuçados e chupa-chupas atirados do cortejo e que ninguém conseguiu apanhar. 

Foi no meio de toda aquela confusão, com cânticos, gritos e risos a toda a volta, que conheci o Gaspar. O nome não é usual, mas a maneira como alguém o chamou foi ainda mais incomum. No meio de uma multidão profundamente andaluz, aquele muito português “Gaspar, vens ou ficas?” destacou-se imediatamente. O rapaz por quem os amigos chamavam estava ao meu lado. Eu estava com o meu grupo de amigas. Ri-me quando ouvi o nome e percebi que era português. Num impulso, meti-me com ele, “Gaspar, não devias estar ali no desfile?” Ele não percebeu, ficou com um ar estranho, sem saber o que dizer. “Gaspar? Um dos três Reis Magos? O desfile?” E então ele riu-se bastante - não percebi se da piada, se do embaraço por não ter percebido à primeira. 

As minhas amigas aperceberam-se da situação e, claro, meteram-se. "Olha, o Gaspar fugiu do trio, agora são só dois! És português? De onde? O que estás aqui a fazer? Trouxeste amigos? São giros? Porque é que te chamas Gaspar? Qual é o teu presente, é o ouro?" Ele tentou explicar que era o incenso. Quisemos saber como é que ele sabia; respondeu que, sendo Gaspar a vida toda, havia certas coisas que teve de aprender - precisamente, para satisfazer a curiosidade de pessoas como nós. 

Foi obviamente divertido e acabámos por escoltar o Gaspar até aos seus amigos e esses, claro, diante de quatro raparigas bem-dispostas e giras, convidaram-nos a seguir com eles. E nós aceitámos. 

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Nessa noite, em que todos em redor celebravam os Reis Magos, eu e o Gaspar celebrámos o nosso encontro. Fomos partilhando factos e curiosidades, uma maneira singela de nos darmos a conhecer tanto quanto possível, construindo atalhos imediatos para alcançar uma proximidade que levaria muitos anos até estar completa. Contei-lhe que vivo em Lisboa, que estou no último ano de Enfermagem e que tenho dúvidas sobre o que fazer no futuro. Ele disse-me que não terminou o curso, que decidiu ir viver para Sevilha em busca de qualquer coisa diferente. É artista, faz stencil e grafiti, produz autocolantes. Claro, para ganhar dinheiro estável, tem um emprego fixo - trabalha numa das equipas de terra do aeroporto de Sevilha. 

Nessa noite, descobrimos que somos do mesmo signo e que partilhamos o ascendente. A descoberta tornou inevitável o que era previsível: ao fim de um dia em que partilhámos tudo, conversámos muito, segredámos um pouco e fomos hesitando sobre o momento certo para avançar, beijámo-nos. Estávamos no apartamento dele - nós e os amigos dele e as minhas amigas. Os outros continuavam a celebração dos Reis, comiam, bebiam, alguns cantavam, outros conversavam. Eu e o Gaspar ficámos no nosso canto. A festa foi terminando e eu fui ficando. Quando as minhas amigas saíram, eu disse que ficava mais um pouco. Responderam-me com risinhos cúmplices e foram embora. 

Nos dias seguintes, dividi-me entre a casa do Gaspar e o alojamento onde estávamos. Por fim, chegou a hora de ir embora, de regressar a Lisboa. Mas quando estamos a viver a paixão em estado puro, é difícil tomar decisões racionais. As minhas amigas partiriam do alojamento, eu seguiria diretamente de casa do Gaspar para o aeroporto. Disse-lhes que ele me dava boleia. E então o Gaspar o sugeriu: "e se perdesses o avião?" Respondi-lhe que seria muito difícil, pois eu era uma rapariga séria, sensata, pouco dada a loucuras e improvisos. A não ser que surgisse um grande, grande imprevisto ou um motivo de força muito maior, seria impossível eu perder aquele avião precioso. E então ele pegou-me ao colo, enfiou-me no quarto e começou a despir-me. 

Quando liguei para casa a explicar as razões do meu atraso - "um trânsito infernal, vocês não conhecem Sevilha, fiz mal as contas, é só semáforos, é o metro de superfície, são as charretes com os cavalos, turistas aos magotes, espanhóis conduzindo em fúria, todo um panorama dantesco" -, os meus pais já me tinham tentado telefonar 18 vezes. Não os censuro. Pondo-me no lugar deles, sei que faria o mesmo ou até pior: enfiava-me no carro e ia a Sevilha buscar a minha filha. O meu pai, incrédulo, só dizia “então, mas se as tuas amigas vieram, como é que tu conseguiste perder o avião sozinha?” Como se não conseguisse entender as minhas tentativas toscas de explicação, às tantas disse “olha, fala com a tua mãe”. E a minha mãe, paciente, com voz de quem está agastada, disse “já aborreceste o teu pai, foi-se enfiar no escritório”. 

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Permaneci calada por um momento. Não consigo mentir à minha mãe, enganá-la de forma alguma. “Estás aí, Filipa?” E eu “sim”. “Pronto. Conta lá à mãe, diz-me como se chama esse teu Rei Mago.” E riu-se. Que vergonha. Acabei por me rir também. É extraordinária a facilidade com que ela me lê e descodifica. Quando eu disse “Gaspar”, desatou a rir à gargalhada, “estás a falar a sério?” E, por fim, perguntou-me se eu precisava de dinheiro para comprar nova passagem. Como não respondi logo, acrescentou que podia ficar mais dois ou três dias. Ela trataria de conversar e amolecer o meu pai. 

Quando desliguei, fui contar ao Gaspar o que eles tinham dito. E estava tão feliz com a compreensão da minha mãe e especialmente com a maneira como encarou e com a sugestão que fez de ficar mais uns dias. “Mais uns dias? Mas quantos dias?”, perguntou ele, surpreendido e visivelmente aflito. “Pensei que ficavas só hoje.” 

Durante alguns momentos, que não consigo quantificar, podem ter sido apenas segundos, talvez tenham sido minutos, mergulhei numa profunda confusão mental. Não conseguia pensar com clareza, um turbilhão de ideias e sound bites de conversas e confidências nossas, e ainda as frases da minha mãe ao telefone, o surgimento do Gaspar, a festa, a folia - mais parecia um sonho realizado pelo Fellini. Mas ele permanecia de pé, diante de mim, à espera que eu lhe desse uma resposta. E então eu dei: peguei na mochila e nas minhas coisas, “desculpa, não quero incomodar”, e saí. Regressei num desses autocarros low-cost nessa mesma noite. À chegada, já a altas horas da madrugada, o meu pai recebeu-me com surpresa e um grande sorriso. A minha mãe, não. A minha mãe ficou triste por mim. 

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