Emilie Lesclaux, a mulher por trás de "O Agente Secreto": "A partir de agora vou ter sempre ‘nomeada ao Óscar’ à frente do meu nome"

A produtora que pode levantar um Óscar no próximo dia 15, é cúmplice também na vida de Kleber Mendonça Filho, o realizador. Nesta conversa fala da afinidade com Portugal, da dureza da maratona da campanha para a premiação e o porquê desta maravilha do cinema brasileiro ser tão universal.

Emilie Lesclaux, produtora de "O Agente Secreto", fala de Portugal e dos Óscares Foto: Getty Images
04 de março de 2026 às 17:30 Rui Pedro Tendinha

No cinema brasileiro não é raro os melhores filmes serem produzidos por mulheres. Emilie Lesclaux é a produtora de O Agente Secreto, de , e está nomeada aos Óscares, melhor filme e melhor filme internacional. A partir de agora esta francesa radicada no Brasil será sempre apresentada como “Oscar nominee” ou, se as coisas correrem bem no próximo dia 15, “Oscar winner”. Ela sabe disso, mas também sabe que já está a fazer história com um projeto literalmente de amor: é a companheira do realizador. Juntos têm feito um percurso de escalada lindo no cinema brasileiro e agora globalmente. e O Agente Secreto tem sido a coqueluche nesta altura da temporada dos prémios.

Desde os EUA, onde tem passado muito tempo a acompanhar Kleber, Emilie conversou sobre esta maratona promocional que começou em maio passado quando este conto sobre as memórias de um Brasil em 1977 amordaçado pelo medo da Ditadura Militar foi o filme mais premiado do Festival de Cannes.

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O que se sente quando se percebe mesmo que se está nomeada a um Óscar? Neste caso, dois…

Nem sei. Surpresa, emoção… Demorei vários dias a entender o que resultou disso. Quando saiu logo a notícia tive de fazer uma série de coisas, em especial dar entrevistas. Mas foi agora que me caiu a ficha, quando há uns dias estive com todos os nomeados no chamado almoço da Academia, o Oscar Luncheon. Quando vi o Presidente da Academia a fazer o discurso até fiquei arrepiada! A partir de agora, vou ter sempre à frente do meu nome “nomeada ao Óscar”- isso é muito bonito.

Mas isso também não tem um certo peso?

Eu só sei que vou continuar a fazer o meu trabalho da mesma maneira, ou seja, pensarmos sempre no próximo projeto. No dia-a-dia, nunca irei pensar nisso. Queremos é fazer bons filmes.

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Fala-se muito no lobby nos Óscares, claro que existe, mas o que vocês fizeram basicamente foi aparecer, dar entrevistas, apresentar sessões, ir a festivais…

Exato. Mas é claro que existe muito dinheiro envolvido nas campanhas. Mas este trabalho que eu e o Kleber estamos a fazer há meses é mesmo esse, apostar nos debates, nas sessões e em alcançar uma visibilidade geral. Depois, é claro, conhecemos muitas pessoas. O importante também é que o filme seja visto por membros da Academia para comprovarem a sua qualidade, sobretudo tendo em conta que é difícil verem todos os filmes… Eu própria sou da Academia e sei o que estou a falar.

Tem, por isso, uma teoria para explicar a razão pela qual o filme está a ficar tão global? Parece que toda a gente ama O Agente Secreto.

Isso é difícil aferir mas talvez vá pela humanidade das personagens. Uma humanidade que toca muito as pessoas. As pessoas ficam conectadas e O Agente Secreto tem igualmente algo universal e ligado ao que está a acontecer na atualidade política do mundo. O filme tocou num nervo, em especial aqui nos Estados Unidos da América.

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Mas há um feeling que podem realmente ganhar?

Sim, tem hipóteses - vamos percebendo pelo retorno diário que temos tido! Fico surpresa por estar na conversa para vencer. Com tudo o que está a acontecer nas premiações, tudo é possível, está tudo muito em aberto. Vamos ver, mas estamos tranquilos e achamos já vitorioso tudo o que aconteceu.

Sentem que Valor Sentimental é o vosso principal adversário?

Pelo que a imprensa diz, sim. Esta categoria está muito aberta, todos os filmes são fortes. Foi um ano excelente para os filmes internacionais.

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Emilie Lesclaux, produtora nomeada aos Óscares, destaca afinidade com Portugal Foto: Getty Images

E dá para desfrutar deste momento ou é apenas trabalho, stress e viagens?

É divertido. Estamos a aproveitar e a desfrutar imenso. Tem sido uma experiência humana muito rica. As trocas são extremamente interessantes. E, atenção, não tem como reclamar: somos muitíssimo bem tratados. A questão é que é um período muito longo: estamos nesta missão desde Cannes e a campanha começou mesmo em agosto, desde aí não parámos de viajar! Isso implica fazer um parênteses na vida e nos nossos projetos. E é complicada a parte da casa, dos filhos. Essa é a parte mais complexa.

E como é que os meninos estão a reagir lá no Recife, com os pais tanto tempo longe?

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Precisámos de uma logística através da família, dos amigos. A minha mãe foi para o Brasil ajudar nos momentos em que deixei de ir e vir ao Brasil.

Não há qualquer coisa de missão de amor, em especial por vocês serem um casal?

Isso está a ser importante, vemos os outros que estão solitários “na estrada” e dificulta por certo.

Estamos numa fase da campanha em que no mundo real vivemos uma guerra. Apetece colocar tudo isto dentro de uma certa perspetiva. 

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Evidentemente. Estamos numa bolha e a política, por vezes, fica um pouco ausente. A cerimónia mais política que tivemos foi os Cesar [prémios da Academia francesa], foi impressionante ser a única. Até nos BAFTA [prémios da Academia britânica ], o único discurso político foi cortado. E, depois, tudo isso que aconteceu no Festival de Berlim…

Em contraste, nesta maratona tem que estar preocupada com os looks e toda a questão estética, sobretudo sendo mulher. Acredito que deva ser muito surreal…

Sim, acabo por despender muito tempo e energia para pensar na roupa que escolho. Preferia não ter que pensar nesses detalhes, mas sei que faz parte. Ao longo dos meses, aprendi a organizar-me melhor - no final do ano tive de pedir ajuda: não estava a conseguir fazer tudo isso sozinha.

Há uma ligação interessante com O Agente Secreto a Portugal, não só porque está no elenco Isabél Zuaa, mas também por terem sido em Lisboa as primeira sessões  comerciais do filme em Junho em pré-estreia…

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!!  Gosto muito dela e estou muito feliz pelo facto de vir a estar na cerimónia. Além do mais, com Portugal nós temos a sorte de termos uns distribuidores muito queridos - somos muito próximos e passámos aí uns dias maravilhosos.

Como é se que descreve como produtora? Há um lado de rigor francês no seu trabalho?

Eu em França não era produtora, aprendi a ser produtora no Brasil. Mas com certeza que terei algo da minha formação francesa, sobretudo na maneira como funciono. Sou uma pessoa “pé no chão” e isso é uma qualidade que julgo importante para produzir.

Esse “pé no chão” remete para a parte de “bad cop” numa produção?

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Nunca “bad cop”, mas há que ter os dois lados. Há que servir a visão do realizador ou da realizadora e tentar sempre ajudar.

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