Como podemos ajudar a minha mãe a dar a volta na entrada na reforma?

Ana, 29 anos, Sintra

22 de julho de 2015 às 11:33 Dra. Catarina Rivero

Sinto-me preocupada, pois a minha mãe nos últimos três meses está a mostrar-se muito abatida, seis meses depois de ter entrado na reforma (o meu pai continua no ativo, pelo menos por mais um ano). Era funcionária do estado na área financeira (super dedicada) e, se nos primeiros tempos estava muito animada (celebrou com colegas, fez uma viagem com o meu pai, etc.), ultimamente mostra-se cada vez mais abatida e fechada. Têm amigos e interesses, mas não quer participar em nada. Nem se anima quando eu e os meus irmãos vimos visitá-la… Que podemos fazer?

Cara Ana, desde já a felicito pelo cuidado com esta fase sensível de vida que a mãe está a viver e que, naturalmente, implica toda a família.

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A entrada na reforma é um marco no ciclo vital individual e familiar e nem sempre este tem a devida atenção e preparação, por se considerar que o tempo livre é o melhor que o ser humano pode ter. Mesmo os trabalhadores satisfeitos com o seu trabalho repetem frequentemente que a reforma será um tempo excelente (e que eventualmente é o que mais anseiam), contribuindo para a idealização coletiva de uma fase que se mostra muitas vezes desafiante. Pode ser efetivamente positiva se for planeada e considerada com as múltiplas implicações inerentes (emocionais, existenciais, relacionais, etc.), criando espaço para cada um poder encontrar uma nova fase de vida (cada vez mais com saúde) em que poderá realizar sonhos e objetivos até então não realizados.

Na sociedade ocidental, muitas vezes a identidade de cada pessoa fica intimamente ligada à sua atividade profissional. Quando há uma paragem, mesmo que esperada, são muitas as questões que cada indivíduo pode levantar - perceber que significado para os seus dias, quem é, como viver novas rotinas, qual a utilidade dos seus dias futuros e do seu percurso profissional até aí, entre outras. Se as primeiras semanas são frequentemente um período de "lua-de-mel" - em que se procura celebrar, qual ritual de passagem (sejam jantares de despedida, viagens ou outros) - chega depois o confronto com a realidade do tempo não planeado ou preenchido, tantas vezes com um tempo demasiado longo, como o é sentido tantas vezes por quem estava no ativo a tempo inteiro.

Planear a reforma atempadamente é a forma de prevenir embates maiores, procurando atividades que vai gostar de integrar nas sua rotina futura, como hobbies, cursos, exercício físico, almoços com amigos, etc., e que poderão dar um novo significado aos seus dias. Será uma forma de manter uma atitude positiva e orientada para as possibilidades na nova fase de vida. Ainda a considerar é a importância da estabilidade de rotinas do primeiro elemento do casal a reformar-se no sentido de ser facilitador para o momento em que ambos passam a estar reformados e que irá implicar nova reorganização individual e conjugal, já que têm mais tempo conjunto em casa e podem deixar de ter o espaço individual.

O trabalho, para além de conferir um estatuto, sentido, objetivos e rotinas, traz ainda uma rede social diária. Neste sentido, se o tempo de reforma não for planeado, a pessoa pode experienciar um embate emocional muitas vezes não calculado. É assim o tempo de luto, em que a pessoa pode experienciar um tempo de tristeza e incerteza o que - de modo geral e num tempo próprio e de cada um - irá levar a um novo equilíbrio, com aceitação da nova realidade e mesmo um olhar para as oportunidades emergentes.

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Esta é uma fase para encontrar um novo olhar, novos sonhos e metas, outras formas de estar e viver. Toda a família irá fazer parte, direta ou indiretamente, deste processo, que integra mudanças relacionais, de disponibilidades e/ou de atividades. Nestes momentos de crise familiar, há oportunidade para reforçar a resiliência, reforçando laços, comunicação, criatividade nas soluções facilitadas, criando novas rotinas inclusivas e naturalmente um significado acrescido de ser família. Num processo positivo de mudança, o recém-reformado reforçará o sentido de pertença à família e comunidade, para além de encontrar o seu espaço para dar asas às suas aspirações.

Quando a dor se mantém como incapacitante ao longo do tempo, sentindo-se um bloqueio neste processo de mudança, pode ser facilitador consultar um psicoterapeuta com quem poderá trabalhar estas questões, reencontrando o equilíbrio esperado para mais bem-estar.

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