Todas sonhamos com aquele "sono de beleza" dos filmes: aquele em que nos deitamos, desligamos do mundo e temos oito horas de um descanso profundo, calmo e sem interrupções, capaz de fazer milagres na nossa pele, na nossa energia e na nossa paciência para o dia seguinte. A realidade, no entanto, insiste em trocar-nos as voltas. Quantas de nós não passam noites a dar voltas na cama, a olhar para o relógio e a fazer contas às horas de sono que restam, enquanto a cabeça continua a mil à hora a rever a lista de tarefas do dia seguinte? A resposta é retórica. O tal descanso de princesa acaba, na maioria das vezes, por parecer um luxo inalcançável.
Sente que nos últimos tempos é cada vez mais difícil adormecer ou manter um sono contínuo? Existe uma boa notícia (se é que podemos chamar-lhe assim): é mais comum do que pensa e não está sozinha. Nos últimos anos, o número de pessoas a procurar ajuda por queixas relacionadas com a falta de descanso disparou. Como confirma o médico Tiago Sá, pneumologista especialista em Medicina do Sono da Sleeplab à Máxima, "não há dúvida de que na última década temos recebido cada vez mais pessoas com queixas relacionadas ao sono", acrescentando que a "maior consciência da sociedade civil sobre a importância do sono para a nossa saúde contribui de forma significativa para este aumento do número de pedidos de consulta". Sabermos que o sono é essencial é o primeiro passo para uma mudança, mas, afinal, o que é que nos está verdadeiramente a tirar o descanso? E quando é que aquela noite mal dormida deixa de ser uma "má noite" isolada para passar a ser um sinal de alerta?
Para compreendermos o problema das insónias que afeta a população, e principalmente as mulheres, precisamos de começar a analisar muito antes da entrada no quarto. Entre os prazos do trabalho, a gestão da casa, a família, as amizades, a tentativa de manter uma vida social ativa e ainda sermos saudáveis, damos por nós a viver em contrarrelógio. O problema é que o nosso cérebro não tem um botão de off onde possamos carregar assim que apagamos a luz.
A famosa carga mental acompanha-nos para a cama. É no silêncio do quarto que todas as preocupações que ignorámos durante o dia resolvem vir ao de cima. A somar a isto, ao cometermos o erro de levar o telemóvel para a mesa de cabeceira, levamos também a chamada luz azul dos ecrãs que envia ao cérebro o sinal de que ainda é dia, travando a produção natural de melatonina, a nossa hormona do sono. Fazendo-nos ficar presas num ciclo em que o corpo está exausto, mas a mente continua em alerta.
Além do stresse do dia a dia, a verdade é que a nossa própria biologia parece, muitas vezes, lutar contra nós. As mulheres enfrentam desafios hormonais únicos ao longo da vida que afetam diretamente a qualidade do sono. Como explica Tiago Sá, "existem características biológicas particulares da mulher como o ciclo menstrual, a gravidez e a menopausa que condicionam alterações da qualidade do sono". Na semana que antecede a menstruação, por exemplo, a queda acentuada dos níveis de progesterona pode fazer subir ligeiramente a temperatura corporal e tornar o sono mais leve e fragmentado. Durante a gravidez, são os desconfortos físicos, a necessidade constante de ir à casa de banho e as flutuações emocionais que interrompem o descanso. Mais tarde, com a chegada da menopausa, os afrontamentos e os suores noturnos transformam o quarto num autêntico carrossel térmico, tornando impossível manter uma noite tranquila.
A própria insónia é estatisticamente mais frequente no público feminino, tal como a síndrome das pernas inquietas - uma condição neurológica de que pouca gente fala, mas que afeta muitas mulheres. O médico descreve-a como uma "perturbação neurológica caracterizada por uma necessidade irresistível de mover as pernas, geralmente acompanhada por sensações desagradáveis, como formigueiro, ardor, comichão ou desconforto que agrava ao final do dia e melhora com o movimento e que pode dificultar o início ou manutenção do sono". É aquela sensação desesperante de estar quase a adormecer e sentir um formigueiro incontrolável que obriga a esticar ou mexer as pernas, atirando o descanso para segundo plano.
Por outro lado, condições como a apneia obstrutiva do sono - marcada por paragens respiratórias repetidas durante a noite e frequentemente associada ao excesso de peso - tendem a afetar mais os homens. Contudo, as mulheres não estão imunes: o especialista lembra que "após a menopausa, a incidência desta patologia torna-se idêntica para ambos os sexos", igualando os riscos.
As nossas noites mudam connosco e cada idade traz as suas próprias batalhas no momento de descansar. "Os distúrbios do sono podem ocorrer em qualquer fase da vida, como, por exemplo, o sonambulismo na infância, a dificuldade em adormecer cedo na adolescência e no início da idade adulta ou o despertar precoce após os 65 anos." Na juventude, o nosso relógio biológico empurra-nos para sermos mais noturnos e por isso, muitas das vezes, não conseguimos adormecer cedo. Já quando somos mais velhos, o desafio inverte-se e passamos a adormecer com mais facilidade, mas a tendência é acordar, na maioria das vezes, antes sequer do sol nascer.
Dormir mal de vez em quando, depois de um dia especialmente tenso ou antes de um momento importante, é perfeitamente humano e expetável. A questão passa a tornar-se importante quando o problema se arrasta e começa a afetar a nossa qualidade de vida, a nossa memória, o nosso humor e a nossa imunidade. O verdadeiro sinal de alarme surge quando fazemos tudo bem e, ainda assim, não funciona. "Quando percebe a importância do sono e começa a adotar comportamentos e rotinas para o melhorar e apesar disso, continua a ter dificuldade em adormecer, manter o sono ou obter um sono de qualidade, é altura de procurar ajuda."
A insónia crónica não deve ser encarada como uma sentença ou como algo a que temos de nos habituar. Se a higiene do sono já não resolve, o acompanhamento de um médico e de um psicólogo especializado é o caminho certo para devolver o equilíbrio às noites. Para reaprendermos a dormir, precisamos de fazer uma pequena revolução nas nossas prioridades diárias. Passámos anos a ver a privação de sono como uma espécie de medalha de produtividade. Se dormíssemos menos, conseguiríamos fazer muito mais coisas, em casa, no trabalho e na vida em geral (se ainda têm esta opinião, está na hora de começar a reavaliar os seus padrões de sono).
Como destaca o especialista, "o mais importante é valorizar o sono como parte essencial duma vida saudável". Isso passa por mudar a forma como olhamos para as nossas 24 horas: "Organizar o nosso dia de forma a promover um sono de qualidade e encarar o sono como mais uma tarefa do dia, encontrando espaço na nossa agenda para dormirmos adequadamente, como fazemos para tantas outras coisas."
Tratar do nosso sono com o mesmo respeito e rigor com que marcamos uma reunião de trabalho, uma ida ao ginásio ou um almoço com amigas não é um capricho nem um ato de egoísmo. É o investimento mais simples e eficaz que podemos fazer para a nossa saúde física, para a nossa clareza mental e também para a nossa “beleza”. Afinal, dormir como uma princesa devia ser um direito de todas e não um privilégio de algumas.