Os “não sapatos” da Chanel estão a deixar a internet confusa - e nós não podíamos estar mais obcecadas com eles
Na sua primeira coleção cruise para a Chanel, Matthieu Blazy deu um pequeno grande passo numa nova leitura da moda.
Não conseguimos parar de pensar no calçado que Matthieu Blazy apresentou na sua primeira coleção cruise para a Chanel. Não tanto por aquilo que é, mas pelo que parece não ser. O cenário? Biarritz - não um acaso, mas um regresso simbólico ao lugar onde Gabrielle Chanel abriu um dos seus primeiros espaços de alta-costura e começou a redefinir o que significava vestir uma mulher.
Quando Blazy foi anunciado como sucessor de Virginie Viard, em dezembro de 2024, as expectativas eram inevitavelmente elevadas. Vinha de um percurso sólido na Bottega Veneta e trazia consigo uma reputação de precisão técnica aliada a uma sensibilidade cultural rara. Três coleções depois, a narrativa parece confirmar-se: até Anna Wintour já o apontou, em entrevista à Vogue norte-americana, como um potencial herdeiro do legado de Karl Lagerfeld, sublinhando a sua "vitalidade e consciência cultural". Mais do que comparação, é um reconhecimento de equilíbrio - entre tradição e reinvenção - que sempre foi o verdadeiro teste dentro da Chanel.
E influência é algo que Blazy já começou a consolidar. Quando a coleção de estreia, Primavera/Verão 2026, chegou às lojas em março, instalou-se uma espécie de "Chanelmania". O desejo não era apenas aspiracional - era urgente. Um novo público aproximou-se da marca: menos herdeiro, mais acumulador paciente; menos estabelecido, mais aspiracional.
E, como quase sempre acontece, foram os acessórios a liderar essa aproximação. Carteiras incluídas, claro - lindíssimas, mas inacessíveis para muitos -, mas foram sobretudo os sapatos que dominaram a conversa. Das ballerinas icónicas reinventadas às mules com pontas contrastantes, havia um novo léxico visual a circular nas redes sociais. Blazy percebeu algo essencial: hoje, a porta de entrada para o luxo raramente é total - é fragmentada, estratégica, muitas vezes começando pelos acessórios.
Nesta coleção cruise, regressa às origens, mas fá-lo de forma inesperada. Em vez de revisitar códigos de forma literal, propõe quase uma ausência: os “não sapatos”. Em Biarritz, longe da rigidez parisiense, essa escolha ganha contexto. Foi precisamente aqui que Chanel introduziu o jersey, o linho e o algodão no guarda-roupa feminino, libertando o corpo de estruturas rígidas e propondo uma elegância funcional, adaptável, viva. Dinamismo, liberdade de movimentos, simplicidade: os pilares da maison nasceram dessa ruptura.
Blazy parece ter absorvido essa herança, mas traduzi-la para 2026 implica distorção. As sandálias apresentadas reduzem o conceito de calçado ao mínimo: tiras finíssimas enroladas no tornozelo, uma sugestão de estrutura no calcanhar, e pouco mais. Em dourado ou prateado, quase desaparecem na pele; em preto, ganham uma leitura mais gráfica. São, como descreveu Joelle Diderich, à WWD, "pouco mais do que uma biqueira". E, ainda assim, funcionam. Não são bem sandálias, não são ausência total - existem num território ambíguo que continua, curiosamente, a dialogar com os códigos da Chanel.
Talvez seja essa a sua maior inteligência: na aparente bizarria, há continuidade. O clássico sapato bicolor não desaparece - transforma-se. A segunda cor deixa de ser material e passa a ser pele. É um gesto conceptual simples, mas eficaz.
E depois há a dimensão quase histórica: durante séculos, o vestuário das elites foi pensado para sinalizar inutilidade prática - uma forma subtil de afirmar estatuto. Estes "não sapatos" parecem tocar nesse mesmo nervo. São desejáveis, virais, discutíveis, como também profundamente impráticos. Não são feitos para andar - são feitos para significar. E na moda, isso continua a ser a forma mais poderosa de dar um passo em frente.
É mesmo mesmo necessário lavar a roupa nova antes de a usar?
Sabemos que talvez não seja a resposta que queria ouvir, mas é, muito provavelmente, a mais sensata.
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