Retail therapy: Rita Bretão x Constança Entrudo. Até onde vai a autenticidade quando tudo é exposição?
Um encontro que começa com o melhor do mundo feminino: roupa. Roupa que veste, roupa que inspira, roupa que expande. Juntámos duas vozes criativas num espaço onde a moda não é apenas cenário, mas um gatilho para dizer, pensar e imaginar em conjunto.
Maxima - Constança Entrudo V03.mp4
07 de maio de 2026 às 18:18 Patrícia Domingues
No novo estúdio de Constança Entrudo, em Lisboa, a atriz Rita Bretão veste as novas peças da designer para um shooting da Máxima. O ponto de partida é a moda, mas o encontro rapidamente se torna mais íntimo: um jogo de perguntas que funciona como campo de reflexão. Há uma leve desorganização coreografada - risos, interrupções, “espera, deixa-me só pensar” - que torna tudo mais próximo de uma conversa entre amigas do que de uma entrevista.
A primeira carta é voltada: “Quando te olhas ao espelho, sentes que a tua imagem representa quem és?” A ideia de identidade surge sem pressa de se resolver. “Acho que nunca vou descobrir”, admite Constança, sem dramatizar. “É um processo.” Rita acompanha, reconhecendo esse movimento contínuo, meio instável, de quem vai sendo várias versões de si. Não há uma resposta definitiva e ninguém parece precisar dela.
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Rita Bretão usa visual de Constança Entrudo para a Corte & Costura
Foto: Francisco Hartley
Nos percursos de ambas, a certeza aparece mais no fazer. Para Constança, foi durante um estágio na Marques’Almeida, ao observar de perto o ritmo de uma equipa criativa. “Foi o momento em que percebi que era mesmo isto que eu queria.” Rita encontra esse ponto na sua estreia na novela A Herança: “Era tudo o que eu gosto de fazer… eu vibro mesmo com isto.” Antes disso, a representação parecia algo distante. Depois, deixou de haver grande alternativa.
Só que a dúvida não desaparece, muda de lugar. Surge depois, no intervalo, quando um projeto acaba e ainda não começou o seguinte. “E agora, o que é que eu vou fazer?”, diz Rita, resumindo uma ansiedade familiar. Constança reconhece o mesmo momento: quando o trabalho já foi lançado e deixa de estar nas suas mãos. O controlo desaparece e com ele, uma certa segurança. Relatable: é aquele limbo estranho entre “correu bem” e “ok… e agora?”, geralmente acompanhado por scroll pela Vinted e um ligeiro overthinking às três da manhã.
Rita Bretão e Constança Entrudo desafiam convenções na moda
Foto: Francisco Hartley
Entre moda e representação, há mais pontos de contacto do que seria expectável. Rita - que se estreia este ano no cinema com HERA, de Catarina Mourão - fala do desconforto de se ver em ecrã, mas insiste nisso como ferramenta: “Eu meio que me obrigo a ver… para perceber o que é que podia ter feito melhor.” Mais do que o resultado, interessa-lhe o estado em que estava quando filmou. Constança sorri - no design, esse processo é constante. Testar, ajustar, voltar atrás. “Tentativa-erro, tentativa-erro.” Sem romantizar demasiado: há dias em que custa, mas são cada vez menos.
Também a idade entra na conversa. “Sim, muitas vezes”, responde Constança, de 31 anos, quando surge a ideia de não ser levada a sério. Rita, de 22, acrescenta uma nuance inesperada: “Por ser sempre simpática… às vezes isso é visto como uma fragilidade.” A clássica armadilha aplicada às mulheres do “too nice to be taken seriously”?
Rita Bretão e Constança Entrudo exploram questões de identidade em "Corte & Costura"
Foto: Francisco Hartley
As redes sociais também são puxadas para a conversa. Constança afasta-se, cada vez mais cética: “Se foi paid, não quero nem ver. Porque eu não sei qual é a opinião verdadeira.” Fala de uma exposição excessiva, de uma certa perda deautenticidade. Rita sente-o de forma mais física: “Sinto-me muito mais feliz quando não tenho o telemóvel por perto.”
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Já perto do fim, a conversa regressa ao ponto de partida. Expor-se surge como algo inevitável, que assusta, liberta, ou os dois ao mesmo tempo, nunca com certezas. Tal como na moda, também na vida há coisas que desaparecem, só para depois regressarem quando menos se espera. Ex-namorados, tendências, peças que se jurou nunca voltar a usar. “Acho que vão voltar”, diz Constança, a propósito dos skinny jeans - e soa-nos quase profético, dito com a mesma convicção com que tantas vezes afirmamos “nunca mais uso isto”. Até usarmos, claro.
Rita Bretão e Constança Entrudo num debate sobre o futuro da moda
Foto: Francisco Hartley