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Máxima

Moda

Mamilos, olhos tapados e moda portuguesa. Os looks que misturam arte e política na Met Gala 2026

Na escadaria do Metropolitan Museum of Art, houve corpos expostos e rostos escondidos. Entre máscaras, transparências e silhuetas que desafiam normas, os looks desta edição entraram num jogo onde ver e não ver se tornou parte da mensagem. Pelo meio, o design português encontrou também espaço para se inscrever nesta narrativa global.

Sarah Paulson
Sarah Paulson Foto: getty images
05 de maio de 2026 às 13:10 Rita Pinto da Silva / com Patrícia Domingues
Rihanna em Maison Margiela
Foto: getty images
1 de 32 / Rihanna em Maison Margiela
A$AP Rocky em Chanel
Foto: Chanel
2 de 32 / A$AP Rocky em Chanel
Gracie Abrams em Chanel numa representação do quadro The kiss de Gustav Klimt
Foto: Chanel
3 de 32 / Gracie Abrams em Chanel numa representação do quadro The kiss de Gustav Klimt
Jennie Kim em Chanel
Foto: Chanel
4 de 32 / Jennie Kim em Chanel
Lily-Rose Depp em Chanel
Foto: Chanel
5 de 32 / Lily-Rose Depp em Chanel
Nicole Kidman em Chanel
Foto: Chanel
6 de 32 / Nicole Kidman em Chanel
Sabrina Carpenter em Dior num vestido feito de rolos de filme em homenagem a Audrey Hepburn no filme "Sabrina" e jóias Chopard
Foto: getty images
7 de 32 / Sabrina Carpenter em Dior num vestido feito de rolos de filme em homenagem a Audrey Hepburn no filme "Sabrina" e jóias Chopard
Beyoncé em  Olivier Rousteing
Foto: getty images
8 de 32 / Beyoncé em Olivier Rousteing
Heidi Klum em transforação total em representação de esculturas em mármore
Foto: getty images
9 de 32 / Heidi Klum em transforação total em representação de esculturas em mármore
Teyana Taylor em Tom Ford
Foto: getty images
10 de 32 / Teyana Taylor em Tom Ford
Daisy Edgar-Jones in Alexander McQueen
Foto: getty images
11 de 32 / Daisy Edgar-Jones in Alexander McQueen
Sarah Paulson em Matières Fécales
Foto: getty images
12 de 32 / Sarah Paulson em Matières Fécales
Katy Perry em Stella McCartney e Miodrag Guberinic
Foto: getty images
13 de 32 / Katy Perry em Stella McCartney e Miodrag Guberinic
Gwendoline Christie em Giles Decaon
Foto: getty images
14 de 32 / Gwendoline Christie em Giles Decaon
Alex Consani em Gucci e Demna
Foto: getty images
15 de 32 / Alex Consani em Gucci e Demna
Doechii em Marc Jacobs
Foto: getty images
16 de 32 / Doechii em Marc Jacobs
Dwyane Wade em MICHAEL KORS
Foto: MICHAEL KORS
17 de 32 / Dwyane Wade em MICHAEL KORS
Suki Waterhouse em MICHAEL KORS
Foto: MICHAEL KORS
18 de 32 / Suki Waterhouse em MICHAEL KORS
Margot Robbie em CHANEL
Foto: CHANEL
19 de 32 / Margot Robbie em CHANEL
Anne Hathaway em MICHAEL KORS
Foto: getty images
20 de 32 / Anne Hathaway em MICHAEL KORS
Rachel Zegler em Prabal Gurung - numa referência à pintura, “The Execution of Lady Jane Grey" de Paul Delaroche
Foto: getty images
21 de 32 / Rachel Zegler em Prabal Gurung - numa referência à pintura, “The Execution of Lady Jane Grey" de Paul Delaroche
Hunter Schafer em Prada numa representação de "Mäda Primavesi" de Gustav Klimt
Foto: getty images
22 de 32 / Hunter Schafer em Prada numa representação de "Mäda Primavesi" de Gustav Klimt
Madonna em Saint Laurent numa representação da pintura "The temptation of St.Antonhy. Fragment II" de Leonora Carrington
Foto: getty images
23 de 32 / Madonna em Saint Laurent numa representação da pintura "The temptation of St.Antonhy. Fragment II" de Leonora Carrington
Troye Sivan em Prada numa homenagem a Robert Mappletorph
Foto: getty images
24 de 32 / Troye Sivan em Prada numa homenagem a Robert Mappletorph
Kim Kardashian em custom Allen Jones e Whitaker Malem
Foto: getty images
25 de 32 / Kim Kardashian em custom Allen Jones e Whitaker Malem
Emma Chamberlain em Mugler pelas mão do designer português Miguel Castro Freitas e jóias Chopard
Foto: getty images
26 de 32 / Emma Chamberlain em Mugler pelas mão do designer português Miguel Castro Freitas e jóias Chopard
Charlie XcX em Saint Laurent numa inspiração em Irises de Van Gogh
Foto: getty images
27 de 32 / Charlie XcX em Saint Laurent numa inspiração em Irises de Van Gogh
Kendall Jenner em GAP Studio inspirado na estátua "Winged Victory of Samothrace"
Foto: getty images
28 de 32 / Kendall Jenner em GAP Studio inspirado na estátua "Winged Victory of Samothrace"
Blake Lively em Versace
Foto: getty images
29 de 32 / Blake Lively em Versace
Kylie Jenner em Schiaparelli
Foto: getty images
30 de 32 / Kylie Jenner em Schiaparelli
Hailey Bieber em Saint Laurent
Foto: getty images
31 de 32 / Hailey Bieber em Saint Laurent
Bad Bunny em Bad Bunny x ZARA
Foto: getty images
32 de 32 / Bad Bunny em Bad Bunny x ZARA

Na escadaria do Metropolitan Museum of Art, a Met Gala 2026 voltou a confirmar o seu estatuto como o evento onde a moda se encontra com a arte, mas também com o poder e a controvérsia. Sob o tema Fashion is Art, a noite transformou-se menos num desfile de glamour previsível e mais num campo de tensões visuais: entre exposição e ocultação, entre celebração e protesto.

Este ano, essa tensão começou antes mesmo dos flashes. como patrocinadores e figuras centrais da gala gerou protestos em Nova Iorque, com manifestações contra desigualdades económicas e críticas ao impacto das grandes tecnológicas. Alguns grupos ativistas organizaram até uma “resistance red carpet” nas imediações do evento, questionando o simbolismo de uma noite dedicada à arte financiada por uma das figuras mais poderosas do capitalismo contemporâneo.

Dentro do museu, no entanto, a linguagem era outra, embora não totalmente desligada desse contexto. Um dos elementos mais recorrentes da noite foi precisamente a tensão entre ver e não ver. Máscaras, véus e estruturas que cobriam olhos e rostos - como notas - tornaram-se um dos gestos estéticos mais marcantes da edição. Em alguns casos, o rosto desaparecia quase por completo, transformando a identidade numa presença fragmentada; noutros, eram apenas os olhos que ficavam ocultos, como se o olhar direto ao público fosse deliberadamente recusado.

Esta ambiguidade ganha ainda mais peso quando lida à luz da cultura digital contemporânea. Num ecossistema dominado por plataformas como Instagram e TikTok, onde a imagem é constantemente consumida, recortada e amplificada, esconder o rosto num evento hiperfotografado torna-se um gesto carregado de significado. Segundo leituras da imprensa internacional, esta edição da Met Gala destacou precisamente essa tendência: a proliferação de máscaras e eye covers como um dos acessórios mais marcantes da noite, elevando o rosto coberto a símbolo dominante da passadeira vermelha. Entre a teatralidade e a recusa do olhar, instala-se uma nova gramática visual onde a identidade deixa de ser totalmente legível.

Em paralelo, o corpo afirmava-se de forma quase oposta. A família Kardashian usou construções que expunham os detalhes do corpo feminino — incluindo mamilos pronunciados— reforçando a dimensão física da presença. Ou estaremos só a falar de um novo produto da marca de Kim, Skims? O resultado não era apenas provocação visual, mas um diálogo constante entre exposição e proteção, entre o que se mostra e o que se retira do olhar público.

E não foram só elas. O naked dressing voltou a dominar as escolhas dos stylists, com várias celebridades a explorar a fronteira entre nudez, ilusão e construção escultórica do corpo. Hailey Bieber trouxe uma leitura mais minimalista desta mesma tendência, com um vestido que combinava transparência subtil e estrutura elegante e Doechii destacou-se por uma abordagem mais performativa e conceptual, com um look que transformava o corpo em elemento narrativo, jogando com volumes, recortes e uma ideia de presença quase teatral na passadeira vermelha.

No meio desta paisagem global, o design português encontrou também o seu espaço. Emma Chamberlain marcou uma das presenças mais comentadas da Met Gala 2026 com um vestido custom Mugler assinado por Miguel Castro Freitas, talento português que reinterpretou a ideia de moda como arte através de uma peça que transforma o corpo numa tela viva. O look, com efeito de nude illusion e pinceladas pictóricas que evocam referências como Van Gogh, combina construção escultórica com uma leitura quase emocional da pintura, reforçando a ligação entre moda e artes visuais. A peça foi desenvolvida em colaboração com o designer português responsável pela direção criativa da Mugler, destacando-se como um dos momentos em que o design nacional ganha visibilidade numa das passadeiras vermelhas mais mediáticas do mundo, onde o corpo deixa de ser apenas suporte e passa a ser narrativa artística.

E também política: Alex Consani marcou um dos momentos mais simbólicos da Met Gala 2026 ao tornar-se a primeira mulher trans a integrar o host committee do evento, um marco de representação dentro de uma das noites mais exclusivas da moda global. A modelo destacou o significado pessoal e coletivo da sua presença, sublinhando a importância de ocupar espaço numa indústria historicamente marcada pela exclusão. Para muitos observadores, a sua nomeação ao comité - que reúne figuras centrais da moda, música e cultura - representa um sinal claro de mudança. Mais do que uma participação simbólica, o momento pode ser lido como parte de uma transformação mais ampla na visibilidade trans, num evento que continua a funcionar como espelho das tensões culturais do seu tempo.

O resultado final desta Met Gala não é uma narrativa única, mas um conjunto de fragmentos. Protestos no exterior, corpos expostos no interior, rostos apagados por máscaras e um evento financiado por algumas das figuras mais poderosas do mundo tecnológico e económico. Entre tudo isto, a moda volta a cumprir o seu papel mais interessante: não apenas vestir corpos, mas expor contradições.

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