Eles têm dois amores
A moda é a sua primeira paixão. Mas longe do frenesim da criação artística, dedicam-se a outras paixões. Descubra o que tanto empolga Ralph Lauren, Roberto Cavalli, Vera Wang ou Christian Louboutin.
Somando um total de cerca de 152 mil visitantes, entre os quais alguns curiosos e também verdadeiros apreciadores, a coleção de Ralph Lauren foi um sucesso. O criador americano trouxe para este lado do Atlântico algumas das suas relíquias mais estimadas para partilhar com o público numa exposição, no mínimo especial, no Museu de Artes Decorativas, em Paris. Entre as paredes claras e frias do museu, a luz parisiense, única, fazia brilhar ainda mais as cores, as linhas, a conservação impecável que parece atrasar a passagem dos anos e o aspeto escultural de verdadeiras feras adormecidas. Mas atenção: quem por ali passou durante o verão de 2011 não encontrou vestidos, blazers ou polos, mas sim 17 dos mais de 60 carros que compõem a honorável coleção deste criador, numa mostra intitulada The art of the automobile: masterpieces of the Ralph Lauren collection. Até para quem não é entendido no mundo automóvel nomes como Bugatti, Jaguar, Mercedes, Porsche e Ferrari, entre outros, são sinónimo de sofisticação, rigor e luxo, mas para quem acompanha o universo dos carros clássicos esta paixão de Ralph Lauren não é, de todo, uma surpresa.
O gosto por carros clássicos acompanha Ralph Lauren desde muito jovem e hoje é dono de uma das melhores coleções do mundo. Para muitos é mesmo a melhor. No estado de Nova Iorque, mais precisamente em Wetchester County, fica a casa de todos os seus carros, na D. A. D. Garage. Segundo apurou o jornalista Paul Goldberger, para o revelador artigo A vroom of his own, na Vanity Fair, a sigla resulta simplesmente dos primeiros nomes dos seus filhos: David, Andrew e Dylan. A coleção tem o seu próprio curador e na oficina é feita a manutenção dos carros e pequenos reparos, já que o restauro mais exaustivo é feito em oficinas especializadas. Ralph Lauren já conquistou dois prémios em Pebble Beach, um prestigiado evento onde as estrelas são os automóveis clássicos. E porque para este criador americano conduzir faz parte do prazer de os ter, os carros estão sempre prontos para serem usados por qualquer membro da família. O seu interesse incide especialmente nos modelos de corrida. É por isso que dentro da sua grande coleção, existe outra mais pequena composta por 14 Ferraris, todos de corrida, dos quais apenas cinco estiveram expostos em Paris.
De facto há qualquer coisa muito irresistível na marca do cavalinho. Roberto Cavalli também é um aficionado e tem, pelo menos, três na sua garagem. Este criador florentino é um apaixonado pela vida e uma verdadeira caixinha de surpresas, famoso pela sua moda arrojada e pelos seus padrões únicos, inspirados em fotografias tiradas por si, uma das atividades que lhe dá mais prazer, tal como aproveitar o melhor da sua villa nos arredores de Florença, ao sabor do seu próprio vinho. É verdade: vinho Cavalli! Este projeto começou em 2000 na propriedade Tenuta degli Dei (a herdade dos deuses), que pertence à família Cavalli desde a década de 1970 e é agora gerida pelo filho do criador, Tommaso Cavalli. É nas caves, originais do século IX, que foram aproveitadas e modernizadas, que ocorre grande parte do longo processo de produção do vinho Cavalli Tenuti Degli Dei que, depois de engarrafado, é deixado a refinar durante 14 a 16 meses. E porque não pode faltar o toque de criatividade, todos os anos o rótulo das garrafas ganha vida com um padrão da casa Cavalli. O sucesso da primeira aposta levou à criação da segunda e, em 2008, foi criada uma nova marca, Le Redini, para verdadeiros apreciadores de merlot. E para os colecionadores há ainda um vinho exclusivo, o Cavalli Collection. É produzido em quantidades limitadas e a garrafa fala por si, preta e dourada com o monograma metálico que já dispensa apresentações. Mas esta propriedade na Toscana é toda uma homenagem à natureza, porque além do terreno ser perfeito para a produção de vinho é também ideal para a criação de cavalos, outra das paixões de Roberto Cavalli. Tal como ele, os seus cavalos são vencedores, animais treinados para competição com resultados alcançados em importantes concursos nacionais. Galopar ao vento é um prazer que Tom Ford também partilha. Ele e o companheiro Richard Buckley possuem um rancho em Santa Fé, obra do arquiteto Tadao Ando, perfeitamente enquadrado na paisagem e com uma espécie de arena gigante onde se perdem rastos de pegadas a galope.
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Mas no que toca a desporto ninguém bate Giorgio Armani e a sua equipa de basquetebol. As cores do Olímpia Milano são branco e vermelho, mas quem sabe se um dia não mudam para um dos famosos tons de bege de Armani? De facto, o criador tem poder para isso. Em 2005, era patrocinador da equipa com a marca Armani Jeans e em 2008 acabou mesmo por comprá-la, tornando-se o único dono. O clube nasceu em 1936 e passou por altos e baixos e os momentos de instabilidade acabaram com a chegada do criador. Hoje, o clube chama-se Olímpia EA7 – Emporio Armani Milan e o equipamento dos jogadores conta com o logo Armani ao peito. O criador é um grande apreciador de desporto e já desenvolveu vários projetos nesta área, como por exemplo os equipamentos da comitiva italiana aos Jogos Olímpicos de Londres 2012.
A vida de um criador de moda exige uma grande capacidade de concentração, abstração, organização e, claro, criatividade. Podem estar a trabalhar simultaneamente em três coleções para diferentes estações. Têm de defender a sua marca, agradar ao consumidor e convencer os críticos. É extenuante! Por isso, alguns procuram refúgios onde o burburinho da moda não se ouve e pode ser a família, os amigos, um desporto, a fotografia, uma casa num paraíso na Terra ou, como já vimos, uma coleção de carros ou uma marca de vinho.
Christian Louboutin está por esta altura a celebrar os 20 anos da sua marca, cujos sapatos recheiam armários por todo o mundo ou ganham vida nos sonhos de quem ainda não conseguiu comprar o primeiro par. Mas foi precisamente o rápido crescimento da sua marca que afastou Louboutin do trapézio, uma atividade que o apaixonou e que praticou durante seis anos e só recentemente conseguiu retomar.
Também Vera Wang foi uma desportista de topo durante a adolescência como patinadora artística no gelo. Embora nunca tenha conseguido chegar aos Jogos Olímpicos, a criadora praticou esta modalidade durante anos e com grande esforço e dedicação. Nos tempos mais recentes manteve a sua ligação à patinagem artística, desenhando fatos para algumas patinadoras de renome e, por isso, em 2009, foi incluída no US Figure Skating Hall of Fame.
De facto, acessórios, fardas e parcerias com outras marcas são projetos a que os criadores de moda já nos habituaram. E mais: as grandes casas de moda são, cada vez mais, marcas de lifestyle, pelo que ver o nome de um criador associado a produtos de beleza ou para o lar também não é estranho. Curioso é saber que, quando fecham a porta do atelier, alguns criadores se entregam com a mesma paixão a uma atividade completamente diferente da sua profissão e depressa um passatempo por puro gozo se torna uma referência num universo totalmente distinto. A verdade é que esquecemos a sua típica imagem a acenar no final do desfile e passamos a vê-los com outros olhos, quase como os super-heróis que têm uma segunda identidade. Descontração ou inspiração? Sem dúvida ambos, porque até os artistas que bebem influência de tudo o que os rodeia precisam dos seus escapes. Mas, afinal, quem não precisa?