O nosso website armazena cookies no seu equipamento que são utilizados para assegurar funcionalidades que lhe permitem uma melhor experiência de navegação e utilização. Ao prosseguir com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a Politica de Cookies Medialivre

Máxima

Moda

Regresso ao futuro

As histórias da moda e da beleza foram contadas durante muito tempo através de desenhos, pinceladas e traços lendários. A ilustração perdeu protagonismo mas agora está de volta em força e com grande estilo.

Regresso ao futuro
Regresso ao futuro
13 de maio de 2013 às 06:00 Máxima

Vendido! O martelo da Christie’s bateu três vezes aos 218 500 dólares e a obra Riverie, de René Gruau, um dos maiores ilustradores de moda do século XX, foi vendida num leilão em 2010. No ano seguinte, a leiloeira voltou a vender cerca de 20 obras deste autor, encomendadas, na década de 1950, por Fleur Cowles, escritora e editora americana, para as revistas Look e Flair e que depois passaram pelas paredes da sua casa e agora são cobiçadas obras de arte.

ESTILO CARICATURAL OU SATÍRICO

Alguns ilustradores dão ao seu trabalho um toque de diversão, aproveitando-se, por vezes, dos interesses e das características que distinguem a elite da moda do restante público, com as suas personagens e temas fraturantes. O trabalho de Achraf Amiri apresenta um traço e uma abordagem muito particulares, mas a sua coleção de desenhos de sapatos If the shoe fit, you are... é um bom exemplo de caricatura dos ícones da moda que pode ser visto no seu blogue. Alexsandro Palombo, por seu lado, dedicou-se especialmente a temas como, por exemplo, a anorexia e a polémica político-social causada por John Galliano que levou ao seu afastamento dos palcos da moda. O site com o seu nome e o blogue Humor Chic são boas montras do seu trabalho.

Sou eu que tenho estado especialmente atenta a este tema ou nos últimos meses as notícias sucederam-se? A verdade é que o volume de pesquisa para este artigo não parou de aumentar até ao momento em que dei o texto por terminado. Ora vejamos: num claro sinal da globalização em que vivemos hoje e à qual a moda não escapa, a Gucci mergulhou numa parceria única que juntou a diretora criativa Frida Giannini ao artista japonês Hirohilo Araki.

O resultado foi uma série de ilustrações inspiradas na coleção Cruise da marca para uma instalação que, no início do ano, esteve presente em 70 lojas de todo o mundo. Continuando sob o tema da mistura de estilos, a próxima edição de A Magazine Curated by... vai ficar a cargo de Stephen Jones. Para o n.º 12 da revista belga o chapeleiro inglês decidiu usar apenas ilustrações e deu carta-branca aos ilustradores que contactou. Segundo o próprio, “esta é a forma como os designers comunicam: através do desenho”.

E foi através das ilustrações que ficámos a conhecer o guarda-roupa de Rita Ora para a Radioactive Tour, desenhado por Peter Dundas para a casa Emilio Pucci. Se pensarmos agora naquela que é, provavelmente, uma das casas de ilustração mais famosas do mundo, vamos encontrar uma fonte de inspiração inesgotável. Na Disney, as ilustrações são uma ferramenta de trabalho essencial e ganham vida como personagens icónicas. Foi no mundo encantado do desenho animado que a Chopard se inspirou para criar a Disney Princess Collection e não ficamos por aqui. No Natal, os protagonistas da campanha dos armazéns Barneys, de Nova Iorque, foram personagens Disney num filme que também contou com a participação, em versão desenho animado, de figuras de relevo do panorama da moda atual. E para rematar (por agora), não esquecer ainda o lançamento, neste mês de fevereiro, do livro New Icons of Fashion Illustration, da editora Laurence King, que reúne os talentos de diferentes gerações e estilos do romantismo de David Downton ao grafismo de Jordi Labanda.

MAIS>


Uma arte antiga

Durante décadas, a ilustração foi a forma de comunicação da moda por excelência e até determinada altura era mesmo a única forma de registo. Os criadores enviavam os seus croquis para as clientes, por vezes até com as amostras de tecidos, e os ilustradores, residentes ou contratados, das maiores publicações de moda relatavam desfiles, coleções e apresentações através do desenho.

PARA FOLHEAR E INSPIRAR

Muitos livros sobre ilustração de moda têm a chancela das mais diversas editoras. Uns reúnem obras de autores essenciais do passado e da atualidade e outros optam por ensinar as bases dessa mesma arte.

. New icons of fashion illustration, Laurence King

. Masters fashion illustration, Laurence King

. Manolo Blahnik, Thames & Hudson

. Fashion Illustration School, Thames & Hudson

. Big book of fashion illustration, Batsford Ltd.

. Great big book of fashion illustration, Batsford Ltd.

Alguns ilustradores tornaram-se lendários e ainda hoje é impossível não associar René Gruau à maison Christian Dior e Joe Eula à famosa cronista Eugenia Sheppard, cuja revolucionária crónica Inside Fashion, no International Herald Tribune, entre 1940 e 1959, ele ilustrava. O domínio da ilustração foi revolucionado pela fotografia. A moda não ficou indiferente à evolução da tecnologia e se contarmos quantas fotografias um fotógrafo consegue tirar enquanto um ilustrador faz um desenho, acrescentarmos toda a manipulação de imagem que a informática permite e ainda a facilidade de reprodução e arquivo, conseguimos perceber porque é que a ilustração perdeu terreno.

Esta forma de arte deixou de ser tão comum e tornou-se altamente valorizada. Por outro lado, talvez tenha sido esta ausência, associada a um carisma acrescido, que tornou a ilustração uma tendência nos últimos tempos. Como nos explicou William Ling, fundador da Fashion Illustration Gallery, em Londres, “a ilustração de moda levou uma ‘tareia’ da fotografia há um tempo atrás, mas recusa-se a morrer e nunca morrerá. As marcas que estão em posição de encomendar ilustrações precisam de diferenciar a forma de comunicar e a ilustração de moda ajuda a alcançar isso, em parte por não ser fotografia”.

4 PERGUNTAS A...

Luís Buchinho que, por altura do 20.º aniversário de carreira, em 2010, expôs ilustrações suas na galeria A Dama Aflita, no Porto. O criador provou assim ser um apaixonado por esta arte.

Qual é a importância das ilustrações no seu trabalho?

São fundamentais. Na verdade, representam toda a busca criativa que ilustra o conceito escolhido para a coleção. As minhas procuram ter uma leitura simples, objetiva e percetível.

Que materiais gosta de usar?

Caneta Futura preta!

Prefere desenhar à mão ou é adepto das novas tecnologias?

100% manual.

Acha que a ilustração de moda é uma arte em extinção?

De todo. Acho que é uma área criativa de grande relevo e projeção nos dias de hoje. Adorava ter mais tempo para trabalhar nessa área!

MAIS>


E na cosmética também!

A moda e a beleza partilham inspirações e tendências e a ilustração não é exceção. Do anúncio do batom Ne m’oubliez pas, de 1928, passando pela parceria com Lysse Darcy, foram muitos os nomes da ilustração que trabalharam com a Guerlain ao longo da sua história. A heroína do mais recente perfume da marca, La Petite Robe Noir, é da autoria da dupla Kuntzel+Deygas e conta a história de uma charmosa parisiense, desenhada em traços amplos mas de grande delicadeza, que seduz com o seu perfume e o seu impecável vestido preto. Mas este ano promete uma surpresa lá mais para o outono.

Palavra de artista!

Danny Roberts é um nome incontornável quando falamos deste tema na atualidade. Este americano estudou ilustração de moda na Academy of Art University, em São Francisco. Desde 2006, quando começou, até agora já viu o seu trabalho publicado variadas vezes na imprensa de referência. O trabalho pode ser apreciado no seu site ou no blogue Igor+Andre.

O que faz da moda um tema apetecível para desenhar? Estudei design de moda e foi assim que acabei a fazer ilustração de moda. Para mim, é como uma porta para um mundo de sonho onde gosto de entrar. Ver uma coleção de moda é como escolher o guarda-roupa para uma história que está constantemente a ser escrita na minha cabeça.

Que materiais mais gosta de usar? Comecei apenas com uma caneta e tinta e continuo muito confortável com esses materiais. Também uso muitos lápis de cor e aguarela.

Quais os projetos mais relevantes da sua carreira?Trabalhei recentemente para a Tiffany & Co e para a IMG Models. Eu diria que esses são, definitivamente, dois dos projetos mais relevantes da minha carreira. Provavelmente, o ponto mais alto para mim foi quando a minha pintura de Lee Alexander McQueen foi usada como capa da Sunday Times Magazine, em Londres.

Qual o projeto de ilustração que mais gostava de realizar?Estou ansioso por ilustrar os livros que eu e o meu irmão estamos a escrever.

A MAC Cosmetics está a preparar uma coleção inspirada no ilustrador António Lopez. Apesar de uma morte precoce aos 44 anos, o ilustrador, natural de Porto Rico e criado no Bronx, acabou por ser uma celebridade da sociedade nova-iorquina nas décadas de 1960, 70 e 80 por ter trabalhado com os nomes mais proeminentes da época. O seu traço expressivo, com jogos de luz e sombra e uma paleta cromática infinita e contagiante, faz da obra do ilustrador uma referência ainda hoje muito presente.

A ilustração de moda está realmente a regressar a um período áureo. Contudo, William Ling assegura que ao longo dos 17 anos em que tem trabalhado na área tem sido questionado sobre esta tendência e conclui: “Acho que poderíamos dizer que a ilustração de moda está num contínuo estado de renascimento.” Talvez seja por isso que não nos cansamos dela.

A CASA DAS ILUSTRAÇÕES

William Ling estudou escultura na St. Martins School of Arts, onde conheceu a mulher, Tanya Ling. Enquanto dava aulas de arte numa escola secundária, organizava exposições com artistas que admirava e acabou por fundar a Fashion Illustration Gallery (FIG), em Londres.

O que o levou a fundar a FIG?

No final de 1996, organizei uma exposição de desenhos da minha mulher e, embora nós nunca tivéssemos pensado neles como sendo ilustrações de moda, assim arrancou uma carreira que não tinha planeado. Por isso, acho que perdeu oportunidades de participar em exposições. Foi então que abri a galeria para mostrar o trabalho dela e de outros ilustradores de moda que, quanto a mim, passaram pelo mesmo.

Qual é o papel da FIG?

As ilustrações de moda originais encomendadas para serem reproduzidas são muito bonitas e desejáveis como obras de arte de pleno direito. No entanto, uma vez reproduzidos, estes trabalhos são muitas vezes postos de parte ou deixados no fundo de um atelier de desenho e esquecidos. Temos o desejo de partilhar o nosso entusiasmo por estes trabalhos e ajudar os artistas no processo, vendendo o trabalho deles.

A ilustração é importante na comunicação de moda ou é simplesmente uma forma de arte que deixou de ser tão apreciada?

A ilustração de moda é genuinamente popular e a sua popularidade é global e os desenhos e as pinturas feitos pelos melhores profissionais são extremamente colecionáveis. Na era da reprodução digital fácil, o único torna-se cada vez mais desejável e, por isto, penso que com o passar do tempo vamos ver ilustrações de moda tornarem-se mais colecionáveis do que a fotografia de moda.

Quais são os próximos projetos da FIG?

Em março, vamos ter três semanas de extravagância de ilustração de moda. Estamos a trabalhar num livro que apresentará desenhos de Tanya Ling, entre muitos outros projetos que podem ser vistos no nosso site.

www.fashionillustrationgallery.com

Regresso ao futuro
1 de 6 / Regresso ao futuro
Cortesia da Fashion Illustration Gallery
2 de 6 / Cortesia da Fashion Illustration Gallery
Cortesia da Fashion Illustration Gallery
3 de 6 / Cortesia da Fashion Illustration Gallery
Batsford Lda
4 de 6 / Batsford Lda
Batsford Lda
5 de 6 / Batsford Lda
Laurence King
6 de 6 / Laurence King
As Mais Lidas