Valentino Garavani morre aos 93 anos. “Espero que as pessoas digam: 'Sr. Valentino, ele fez algo pela moda, não é?’”
O icónico designer italiano reverenciado por décadas como símbolo de elegância partiu na sua residência em Roma, rodeado por familiares e entes queridos.
“Na Itália, há o Papa - e há Valentino.” Foi assim que Walter Veltroni, então presidente da Câmara de Roma, descreveu o icónico designer num perfil publicado pelo The New Yorker em 2005. A frase, repetida ao longo dos anos como um provérbio moderno, condensa a dimensão simbólica de Valentino Garavani - um homem que transcendeu a moda para se tornar parte do imaginário cultural italiano. Valentino morreu em casa, em Roma, aos 93 anos, rodeado pela família. Com ele, parte uma ideia de elegância absoluta, feita de disciplina, beleza e prazer.
Chamado muitas vezes apenas pelo primeiro nome, Valentino foi um dos últimos grandes - talvez o último - de uma geração para quem a alta-costura era menos um espetáculo de tendências e mais um exercício de rigor. Como escreveu Vanessa Friedman, diretora de moda do The Times, ele não era o criador atormentado, mas o bon vivant meticuloso; não perseguia a vanguarda nem se preocupava em definir o espírito do tempo. O seu gesto era outro: aperfeiçoar, insistir, lapidar. Fazer melhor. Fazer belo.
Nascido Valentino Clemente Ludovico Garavani, nome herdado do avô paterno, o jovem romano soube cedo que a improvisação não era para si. Aos 17 anos, tornou-se aprendiz de alta-costura com a humildade dos antigos mestres italianos. Estudou figurinos no Instituto Santa Marta, em Milão, antes de se mudar para Paris, com o apoio do pai, para aprender os fundamentos da arte. Na Chambre Syndicale de la Couture Parisienne, e depois no ateliê de Jean Dessès, aprendeu construção, tecidos, cor. Aprendeu a respeitar o ofício. E nunca mais o abandonou.
O primeiro momento de verdadeira consagração chegou cedo. Na coleção primavera–verão de 1959, Valentino apresentou um vestido vermelho em tule, sem alças, de comprimento médio, batizado La Fiesta. O impacto foi imediato e quase irreversível: aquele vermelho não era apenas uma escolha cromática, mas uma afirmação de identidade. Tornou-se rapidamente assinatura, sinónimo de um glamour seguro de si, que dispensava explicações ou contextualizações. Ao longo dos anos, essa tonalidade viria a ser conhecida simplesmente como Valentino Red, frequentemente associada ao Pantone 186, uma cor precisa, saturada, reconhecível à distância. Nesse instante fundador, Valentino encontrou a verdadeira língua materna: uma cor capaz de falar por ele, de condensar disciplina, desejo e beleza numa única superfície.
Em 31 de julho de 1960, nasce a parceria que sustentaria tudo o que se seguiria: Valentino conhece Giancarlo Giammetti, então estudante de arquitetura. Giammetti abandona os estudos para construir - literal e simbolicamente - a casa Valentino. Cuidou do negócio, da comunicação, da imagem; protegeu o criador das fricções do mundo para que este pudesse oferecer beleza. Eram diferentes e, por isso mesmo, complementares. Uma aliança rara, feita de lealdade e visão.
A fama internacional consolidou-se com mulheres que, elas próprias, eram símbolos do seu tempo. Jacqueline Kennedy Onassis foi talvez a mais íntima: conhecem-se pouco depois da morte de John F. Kennedy, tornam-se amigos, confidentes. Em 1968, Valentino assina o vestido de renda marfim que Jackie usa ao casar com Aristotle Onassis, e dedica-lhe a célebre Coleção Branca desse mesmo ano. Elizabeth Taylor escolheu Valentino para o seu oitavo, e último, casamento; Sophia Loren vestiu-o dentro e fora do ecrã; Audrey Hepburn encomendou o mesmo vestido de noiva de Jackie. Até Farah Diba, na fuga da revolução iraniana, levava um casaco Valentino. O seu trabalho acompanhou momentos privados e viragens históricas - sempre com elegância.
Apesar do brilho, o mantra do costureiro era simples: “Sempre quis tornar as mulheres bonitas.” Não mais poderosas, não mais provocadoras - bonitas. Na silhueta, na atitude, no gesto. A sua moda não gritava; permanecia.
Quando anunciou a aposentação, em setembro de 2007, fê-lo com a mesma clareza com que sempre viveu. O último desfile de alta-costura aconteceu em Paris, em janeiro de 2008. Na passerelle, o vermelho, a sua cor, impôs-se como síntese e assinatura, culminando numa sequência final inteiramente vestida de Valentino Red. Foi menos um adeus melancólico do que uma celebração consciente. Valentino dizia que saía enquanto a festa ainda estava cheia - e assim foi. Partiu nos seus próprios termos, depois de ter aberto caminho para gerações de designers italianos.
Hoje, ao lembrar Valentino Garavani, não falamos apenas de vestidos, clientes ou desfiles. Falamos de uma ideia de beleza como valor civilizacional; de uma vida dedicada ao rigor e ao prazer; de um homem que acreditava que, num mundo apressado, a elegância ainda podia ser um gesto de resistência. Em Itália, há o Papa - e haverá sempre Valentino.
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