Mães que não foram filhas
Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida conta a história das meninas que todos os dias são abandonadas, na China, apenas porque nascem meninas.
Quando lhe perguntam o que gostava de ter sido na vida, diz: “Filha.” Resposta, no mínimo, desconcertante, ainda mais saída de rompante, sem filtros nem hesitações, da boca de uma mulher de 53 anos, jornalista, radialista e escritora best-seller publicada em mais de 50 países. O sucesso não actua como bálsamo nem calmante para esta chinesa que, todos os dias, se deita a pensar na mãe e acorda a sonhar com o dia em que vai finalmente poder abraçá-la. Foi para essa mãe, mas também para todas as mães e filhas separadas pela história cultural e política da China, que Xinran escreveu este livro. Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida – Histórias de Amor e de Perda (Bertrand Editora) é uma daquelas obras que devia vir com bolinha vermelha, em forma de aviso para as pessoas mais sensíveis. Em dez capítulos, conta dez histórias que funcionam como amostra representativa das centenas (senão milhares) de casos dramáticos que a autora foi encontrando ao longo da vida. Histórias de mães obrigadas a matar ou a abandonar as filhas, passados-fantasma que perseguem meninas-mulheres uma vida inteira.
“Porque é que a minha mãe não me quis?” Foi a pergunta que Xinran mais vezes ouviu nos últimos tempos. Durante anos, tentou evitar o assunto, empurrá-lo para lá da memória, escondê-lo na gaveta onde ela própria tenta esquecer episódios que lhe marcaram a vida (como o de Pequeno Floco de Neve, a filha adoptiva que também ela foi obrigada a deixar partir). Mas, nas muitas viagens que fez para promover o seu livro anterior Mulheres da China (Quetzal), acabava sempre por ser abordada por jovens chinesas, atormentadas com a questão da identidade. “Ainda não há muito tempo fui procurada por duas amigas. Tinham sido adoptadas por famílias nos Estados Unidos. E a questão que me colocavam era apenas uma: ‘Que história poderemos contar aos nossos filhos se nós próprias não conhecemos a nossa história?’ Havia quem lhes tivesse dito que as mães eram criminosas. Eu não podia permitir que carregassem essa mensagem no futuro. Foi por isso que decidi escrever este livro”, contou--nos na sua passagem por Lisboa.
VOZ AMIGA
Separada dos pais biológicos logo na primeira infância, também Xinran cresceu a pensar que era uma entre os milhares de meninas adoptadas que foi conhecendo (em 2007 eram 120 mil as crianças chinesas nestas condições). Cedo se apercebeu o que implicava nascer menina num país como a China, onde, nas regiões do interior, mais pobres e rurais, as raparigas não têm muitas vezes acesso ao mais básico vestuário, quanto mais o direito de ir à escola. Às tradições culturais que valorizam apenas o sexo masculino, juntou-se a Política do Filho Único, aprovada em 1979, com o objectivo de controlar o crescimento demográfico, desenhando-se um retrato social que, ao contrário do que muitos poderão pensar, não faz parte do passado. A excepção são as pequenas aldeias, onde o poder governamental não chega, e as grandes cidades, onde as mulheres já vão tendo acesso à educação. Foi o caso de Xinran.
Estudou comunicação social, trabalhou na Universidade e foi uma das poucas mulheres contratadas em 1988, numa altura em que o Governo central apostou nos media e precisou de pessoas com formação superior. É então que surge Words on the Night Breeze, um programa de rádio pensado para mulheres. “Um mês depois de estar no ar, comecei a receber cartas de mulheres que me contavam as suas histórias, de violência, de abuso, de sofrimento. Senti que lhes devia uma resposta e comecei a falar para elas no programa.” Consciente do seu papel, as autoridades começaram a contactá-la, no sentido de ajudar a difundir políticas de saúde feminina. A mensagem passava de uma forma eficaz e Xinran deixava de ser “só” uma voz na rádio para passar a ser uma mulher que viajava pelo país e contactava com as populações mais isoladas. Foi numa dessas deslocações que conheceu um dos casos mais dramáticos relatados no livro. “Acho que só nessa altura me apercebi da verdadeira dimensão do problema”, recorda, referindo a visita que fez a uma região muito pobre na margem norte do Rio Amarelo. Foi então, em 1989, que lhe atiraram a pergunta mais cruel: “Já alguma vez tratou de uma menina?” Ela hesitou, pensando que, por tratar, queriam dizer cuidar. “Se não sabe, então o que faz se a sua bebé for uma menina? Arranja alguém que trate dela ou quê?” E Xinran continuava sem entender. Até que uma polícia que assistia à conversa explicou: “Tratar de uma bebé é livrar-se dela à nascença.” E não fosse ela precisar de uma ilustração, a vida encarregou-se de lhe mostrar que aquela ideia monstruosa era, afinal, prática comum, sobretudo em províncias como Henan, Shandong, Anhui, Jiangxi, Hunan, Shaanxi, Shanxi e Jiangsu do Norte. Em reportagem na montanha de Yimeng, visitou a casa do chefe da aldeia onde a esperavam para um jantar mais ou menos oficial. Na mesma hora, a nora do dono da casa entrava em trabalho de parto. E Xinran assistia, impotente e estupefacta, à consumação do ritual macabro que anulava uma existência feminina logo à nascença, apenas por isso mesmo. Por ser feminina.
Ela tenta, procura na memória as palavras, gastas de tanto as utilizar, tira da carteira as fotografias já meio dobradas, para ilustrar os utensílios utilizados, mas nem o hábito lhe segura as lágrimas. “Isto ainda acontece hoje. As mulheres vivem a gravidez de uma forma ansiosa porque receiam dar à luz uma menina. Se se tratar de um rapaz, as famílias terão direito a mais uma terra mas, se tiverem uma menina, passarão fome porque lhes são retirados direitos e benefícios. A sorte de uma menina na China, hoje, depende do local onde nasce. Se nascer numa cidade grande tem possibilidades. Aí, as coisas mudaram muito. Mas se nascer em pequenas cidades, onde 70 por cento da população é constituída por agricultores, as coisas não são muito diferentes do passado.”
PONTES SONHADAS
Em 1997, Xinran trocou a China por Londres, para onde foi viver com o seu filho (hoje com 23 anos). Foi na capital inglesa que fundou a Mother’s Bridge of Love, uma instituição que tem como objectivo fornecer recursos a todas as crianças chinesas espalhadas pelo mundo, ajudando-as a consolidar uma dupla identidade cultural. “Se as encorajarmos a ler a mensagem positiva da sua história, acho que podem ser realmente felizes. Afinal, é disso que trata o meu livro, de amor. Não podemos mudar o passado, mas a forma como o agarramos e avançamos determina o nosso futuro. Um dia, estas meninas serão mães e terão respostas a dar às suas filhas. Se essa mensagem estiver cheia de ódio, isso terá os seus efeitos. Se, pelo contrário, essas mães souberem ensinar os filhos a continuar a viver apesar do passado, as coisas podem ser diferentes. Acredito que a minha escrita, esta paixão pessoal, pode fazer a diferença.”
“É fácil mudar os edifícios, as ruas e cidades, mas não as crenças. É preciso respeitar o passado e aprender a pensar. Como serão os próximos 30 anos? Como crescerá e pensará a nova geração?” É para resgatar esse passado que, também ela, regressa regularmente à China. Um dia irá para ficar, mesmo sabendo que a viagem de regresso só terá chegado ao fim se acabar nos braços da mãe que a entregou ao cuidado dos avós e que sempre se recusou a ter uma relação com ela. “Durante toda a minha vida senti saudades dela.” Confessada a dor mais inconfessável, cruza as mãos sobre o colo, como se estivesse conformada. Só nessa altura reparo que tem uma das unhas, perfeitamente ovais, pintada de vermelho. “Algum costume? Tradição ou superstição?”, questiono. “Uma estratégia para que reparem em mim.”
E, naquele momento, tanto podia ser a jornalista experiente a falar como uma menina a precisar de colo.