Cumplicidades
Um amigo de infância, um colega de profissão, um familiar ou alguém que se conheceu por acaso. Afinal, quem é o seu melhor amigo? Convidámos algumas personalidades a apresentarem-nos o seu.
MANUEL ALVES com MARIANA GUEDES DE SOUSA
É quase impossível separar Manuel Alves do nome Alves/Gonçalves, a marca que começou com José Manuel Gonçalves em 1984 e sob a qual se tornaram dois dos criadores de moda mais conceituados, respeitados e premiados em Portugal. Antes de formar a dupla já Manuel Alves tinha uma vasta experiência a trabalhar com vestuário. Foi professor do curso de Moda da Faculdade de Arquitetura de Lisboa e também foi júri do programa de televisão Projeto Moda. As coleções Alves/Gonçalves subiram à passerelle da ModaLisboa em 1992 e à do Portugal Fashion em 2000, e também já viajaram de Lisboa, onde sempre tiveram as suas lojas e ateliês, para capitais do mundo e da moda como Paris, Nova Iorque ou Londres. Contudo, as suas criações também já brilharam em outros palcos como o cinema, o teatro e o bailado e até no Museu do Design e da Moda (MUDE), que lhes rendeu homenagem com uma exposição retrospetiva em 2009. Foi por motivos profissionais que Manuel Alves conheceu a amiga com quem partilha esta fotografia. Mariana Guedes de Sousa entrou no ateliê à procura de um vestido de noiva e saiu de lá com um amigo para a vida.
- Quem é a pessoa que escolheu para partilhar esta fotografia?
Mariana Guedes de Sousa
- Como se conheceram?
Em Lisboa, no meu ateliê. Ia casar-se e pretendia que lhe concebesse o seu vestido de noiva.
- O que pensou dela quando a conheceu?
Achei piada ao seu modo muito genuíno, divertido. Stressada com humor... E um sorriso lindíssimo!
- Quais considera serem as suas melhores qualidades e defeitos?
Amizade sem mentira. Frontal, humor quase negro, uma admiração pela sensibilidade estética, inteligência acutilante, generosidade.
- Tem algum episódio/aventura especial que queira partilhar connosco?
Não há episódios. Trato-a por vezes com muita rispidez. Porque não dá muitas notícias de si!
- Quais são para si os ingredientes essenciais numa relação de amizade forte e duradoura?
Frontalidade e generosidade! E humor!
- O que é que gostam e costumam fazer juntos?
Rir. Porque o resto vem por acréscimo!
- Há alguma coisa que sente que lhe devia dizer, mas ainda não teve oportunidade de dizer?
Que ultrapasse os seus constrangimentos pessoais porque o importante é o que nos vai na alma!
- Costumam discutir trabalho e ser críticos um com o outro?
Sempre!
- Já teve muitas clientes que se tornaram amigas e vice-versa?
Sim e esta é a parte mais interessante da minha atividade!
- O trabalho na moda exige muita criatividade, emoção e crítica. Qual é o papel dos seus amigos na sua vida profissional?
São importantes e estão sempre presentes. Acho que não dizem sempre a verdade! Hahahah! Sem malícia...
- Uma verdadeira amizade pode acabar e recomeçar?
Claro que sim! A amizade liga para sempre o coração das pessoas... Só se parte quando se ultrapassa os valores defendidos pela nossa consciência!
- Se pudesse escolher uma celebridade internacional para participar consigo neste artigo quem seria? Porquê?
Ninguém. Privilegio os que me são próximos. E a amizade não se estabelece por esse princípio da celebridade!
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INÊS CASTEL-BRANCO com CUSTÓDIA GALLEGO
Inês Castel-Branco nasceu em 1982, é a mais nova de três irmãos e filha da jornalista e apresentadora Luísa Castel-Branco. Foi descoberta pela booker de uma agência de modelos quando estava com a mãe e, aos 17 anos, fez a primeira audição de representação. Acabou por se estrear em televisão em 2000 num episódio da séria Uma Aventura, emitida pela SIC. Dois anos depois participou na primeira telenovela, Filha do Mar, na TVI, e, no mesmo ano, participou na telenovela brasileira Sabor da Paixão. Desde então tem assumido diferentes personagens neste formato e foi durante uma telenovela que conheceu a colega de profissão Custódia Gallego e viriam a tornar-se grandes amigas. Agora podemos ver Inês Castel-Branco na nova telenovela da SIC, Mar Salgado.
- Quem é a pessoa que escolheu para partilhar esta fotografia?
Custódia Gallego.
- Como começou esta amizade?
Conhecemo-nos a gravar a novela Queridas Feras e a nossa amizade cresceu quando nos convidaram para fazer a peça de teatro Shakers, há 12 anos.
- O que é que acharam uma da outra quando se conheceram?
Achei a Custódia muito pouco preconceituosa e isso atraiu-me logo. Ela achou-me madura e gostou de conversar comigo.
- Quais é que considera serem as melhores qualidades e defeitos uma da outra que fazem com que a amizade resulte?
Para mim, não há igual à Custódia. A sua maior qualidade é a forma como é minha amiga incondicionalmente. O defeito é não me ouvir muitas vezes, quando mete o turbo a conversar. Mas costumamos dizer que o motor desta relação é o facto de ela ser infantil para a idade e eu ser madura para a idade.
- Tem algum episódio/aventura especial que queira partilhar connosco?
Nas várias tournées que fizemos juntas, partilhamos quartos. Conta a Custódia que uma noite fiz dela lençol. Até hoje não sei o que isto quer dizer.
- Haverá um segredo para a amizade?
A vontade que ela assim o seja. Depende só da disponibilidade dos envolvidos. Não conseguimos passar uma sem a outra. Ela faz parte assídua da vida do meu filho. Eu conheço a família dela há muitos anos. Enfim, não sei qual é o segredo, mas acredito que tenha a ver com vontade.
- Acha que esses ingredientes são para todas as amizades ou devem variar consoante as pessoas?
Devem variar. Há pessoas mais desligadas que outras. Ninguém ama da mesma forma e a amizade também é um tipo de amor.
- O que é que gostam e costumam fazer juntas?
Gosto muito de simplesmente estar com a Custódia. Seja a fazer o que for. Costumamos almoçar muitas vezes, às vezes vamos juntas ao ginásio, vamos passear com o meu filho, a casa uma da outra, etc.
- Há alguma coisa que sente que lhe devia dizer, mas ainda não teve oportunidade de dizer?
Na verdade, não. Digo-lhe tudo sem pudores. Mas posso aproveitar a ocasião para me declarar a ela e dizer-lhe que tenho muita sorte de ela ser minha amiga.
- Já contracenaram juntas mais do que uma vez. Quais são as vantagens e as desvantagens de se trabalhar com uma amiga?
São quase só vantagens. Há um maior entendimento. Há mais cumplicidade, mas condescendência. A única desvantagem é algum pudor em criticar. Mas, por um lado, essa é também uma vantagem.
- Como é que o facto de serem de gerações diferentes influencia a vossa amizade?
De uma forma sociologicamente muito positiva. Nunca entramos em conflito geracional. Mas adoramos comparar experiências e métodos.
- Qual a importância de ter amigos dentro da sua área profissional?
É ótimo poder contar com a Custódia para me ajudar a preparar um texto ou a criticar um trabalho sabendo do que está a falar. E também olhar para o trabalho dela e almejar um dia ser tão boa.
- Uma verdadeira amizade pode acabar e recomeçar?
Acho que sim. Já me aconteceu ficar muito magoada com uma amiga e vice-versa e anos depois ultrapassarmos o problema.
- Se pudesse escolher uma celebridade internacional para participar consigo neste artigo quem seria? Porquê?
A Daniela Ruah porque é minha amiga.
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TERESA CAEIRO com RITA CAEIRO
Embora seja jurista de profissão é como política e figura de destaque no CDS-PP que Teresa Caeiro é conhecida do público. Nasceu em 1969, viveu na Bélgica durante uma década e, quando regressou a Portugal, aos 19 anos, começou a estudar na Faculdade de Direito. É licenciada e mestre em Direito. Exerceu advocacia na PLMJ, Sociedade de Advogados, foi tradutora free-lance do Tribunal de Justiça e do Tribunal de 1.ª Instância da Comunidade Europeia e jurista no Departamento Jurídico da PGA - Portugália Airlines. Quando Paulo Portas chegou ao Parlamento convidou-a para assessora jurídica e só depois se deixou conquistar pela política, tornando-se militante do CDS-PP em meados da década de 1990. Entre os vários cargos que desempenhou desde então destacam-se o de deputada à Assembleia da República em diferentes legislaturas, o de vice-presidente do partido em 2008, foi Governadora Civil de Lisboa entre 2002 e 2003 e depois, entre 2003 e 2005, foi secretária de estado da Segurança Social e logo depois das Artes e dos Espetáculos, nos XV e XVI governos constitucionais, respetivamente. Atualmente, Teresa Caeiro é vice-presidente da Assembleia da República e também deputada, assim como vice-presidente do CDS-PP. Podemos também vê-la ocasionalmente como comentadora na SIC Notícias e, neste artigo, vemo-la como amiga e irmã mais velha de Rita Caeiro.
- Quem é a pessoa que escolheu para partilhar esta fotografia?
Escolhi a minha irmã Rita. Aliás, somos só duas irmãs... Mas devo acrescentar que não considero que os laços de sangue sejam obrigatoriamente os que mais unem as pessoas. Há uma tendência cultural para acharmos isso, mas não é verdade.
- Como começou esta amizade?
Conheci-a no dia 10 de agosto de 1976, mais precisamente no dia em que ela nasceu, a meio da tarde, quando o meu pai me levou ao Hospital da Estrela para a conhecer... Mas não posso afirmar que foi aí que começou a nossa amizade!
- Lembra-se do que pensou dela, nesse momento?
Na verdade, achei que era um ser minúsculo (ela nasceu prematura, com oito meses), mas que berrava dia e noite com a força de um bezerro e que veio perturbar todo e qualquer sossego em casa durante os primeiros meses de vida. Além disso, veio retirar-me o estatuto de filha única ao qual me tinha habituado durante seis anos! Não posso dizer que tenha sido o encontro mais pacífico.
- Quais é que considera serem as melhores qualidades e defeitos uma da outra?
Com a nossa diferença de idades, demorou até nos “encontrarmos”: quando eu era criança, ela era um bebé; quando ela era criança, eu já era adolescente; e quando ela própria se tornou adolescente, eu já me considerava adulta! Mas ao longo dos anos, fui descobrindo as qualidades que me fazem achar que ela é uma amiga extraordinária – aliás, as qualidades que mais aprecio e valorizo nas pessoas em geral: a integridade, verticalidade e frontalidade. A que acrescem a confiança, a lealdade e a disponibilidade quando verdadeiramente precisamos dela. Não há nenhum assunto que não possa partilhar com ela; não há um segredo que não guarde; e, apesar de ser uma pessoa muitíssimo ocupada, sei que posso contar incondicionalmente com ela quando verdadeiramente preciso. Isto, apesar dos seus defeitos (que fazem parte também das qualidades), mas que tantas vezes me enfurecem: é mandona, acha que tem sempre razão, é irredutível nas opiniões e implacável quando lhe falham!
- Tem algum episódio especial que queira partilhar connosco?
O episódio que mais me comove é o facto de ter sido uma ajuda e apoio incondicionais quando nasceu o meu filho. Não tinha qualquer experiência com crianças, mas nos primeiros meses de vida do meu filho Pedro, que aliás é muito parecido com ela, devo-lhe os momentos de descanso que pude ter. Tal como ela, não parou de berrar durante os primeiros meses! Coitada... Só recentemente me confessou o pânico que tinha de mudar fraldas e poder “partir” um ser de 3 quilogramas e pouco.
- Haverá um segredo para a amizade?
É muito difícil fazer uma receita com os ingredientes que nos fazem ser amigos de alguém. Tenho amigas e amigos que não partilham quaisquer características com a Rita. Podemos ser amigos de pessoas que nos unem pela sua inteligência ou pelo seu sentido de humor. Ou pela sua sensibilidade ou generosidade. Mas talvez aquilo que, para mim, faça a diferença de uma amizade forte e duradoura é vermos nessa pessoa uma rocha que está lá, ao longo do tempo, ainda que com interrupções. Uma rocha à qual sabemos que poderemos sempre agarrar-nos, quando tudo o resto vai ao fundo. E uma pessoa que nos diz o que acha que é o melhor para nós... Mesmo que não seja o que queremos ouvir!
- Acha que esses ingredientes são para todas as amizades ou devem variar consoante as pessoas?
Se calhar já respondi a essa pergunta na anterior: tenho amigos e amigas que adoro genuinamente e que não partilham as exatas qualidades (e defeitos!) da minha irmã. Foi muito difícil para mim fazer esta escolha porque tenho amigas e amigos que são insubstituíveis... Mas ela é, de facto, a amizade mais longa. E certamente a mais turbulenta! Temos brigas enormes! Mas a pergunta faz todo o sentido: as amizades podem ter características diferentes e serem igualmente profundas.
- O que é que gostam e costumam fazer juntas?
A minha vida mudou bastante. Hoje em dia tenho um filho, ainda criança, para criar. Sou casada. Tenho menos disponibilidade – e a minha irmã também – para “programas juntas”. Discutimos o mundo, mas nunca política partidária. Somos as duas cinéfilas. Fazíamos verdadeiras maratonas de cinema... Ainda hoje, se me perguntam por um programa de sonho, será, certamente, uma noitada infindável a ver filmes ou séries em casa dela e a petiscar estupidezes de adolescentes!
- Há alguma coisa que sente que lhe devia dizer, mas ainda não teve oportunidade de dizer?
A minha ideia de inferno é o “eterno remorso”. Não termos feito tudo o que deveríamos e não termos dito tudo o que quereríamos às pessoas de quem gostamos. Seja a irmã, a família ou os amigos. Assim, a única coisa que espero é não deixar de dizer às pessoas o quanto gosto delas; o quanto agradeço o quanto fizeram por mim. E retribuir a amizade que tenho por elas. Infelizmente, a voracidade do dia a dia nem sempre nos permite ter essa dívida devidamente atualizada. Isso angustia-me bastante.
- Ao longo dos anos fez boas amizades no meio político?
Fiz muito boas amizades. Não por serem da política, mas por serem as pessoas que são, com as qualidades que têm. Felizmente, encontrei pessoas extraordinárias na política... E em todos os quadrantes ideológicos.
- A maioria das pessoas tem, por vezes, a tendência de discutir ou comentar acontecimentos de atualidade política em momentos de convívio. Gosta de discutir atualidade política com os amigos ou prefere que o trabalho fique fora dos momentos de descontração?
Gosto de discutir política, pelo simples facto de a política – muitas pessoas não se apercebem disso – decidir muitíssimos aspetos da nossa vida, do nosso dia a dia, do nosso futuro e do futuro dos nossos filhos. Discutir política é discutir o mundo, literalmente. Irrita-me quando chego a qualquer sítio e alguém pergunta genericamente “Então, como vai isso na política?”, como se eu tivesse acabado de chegar de Marte. Mas tem dias... Às vezes apetece-me francamente só falar de filmes que estrearam ou de livros que foram editados. E, sobretudo, odeio a conversa da trica política partidária, tipo: “É verdade que o x está chateado com o y?”
- Fora da política, quais são as suas áreas de interesse onde tenha mais amigos ou que simplesmente goste de partilhar com eles?
Tenho a enorme felicidade de ter amigos e amigas de áreas muito diferentes e com ideologias até opostas às minhas. Aliás, nem diria que passo a maior parte do tempo com pessoas da política, onde, como já disse, tenho grandes amigos dentro e fora do CDS. E não se pense que todas as pessoas que estão na política só falam de política! Seria o mesmo que achar que um jornalista só fala sobre a sua publicação! Gosto de ter amigos multifacetados, com interesses que vão das viagens à arquitetura (uma grande paixão minha), da gastronomia à astronomia e da ciência à cultura ou à economia. Na verdade, gosto de estar com pessoas que me ensinem coisas, que me abram novas visões e deem início ao debate: político ou não.
- Uma verdadeira amizade pode acabar e recomeçar?
Uma verdadeira amizade pode ter percalços, zangas, dissabores. Quero acreditar que uma verdadeira amizade se recupera sempre.
- Se pudesse escolher uma celebridade internacional para participar consigo neste artigo quem seria? Porquê?
Escolheria um casal: Melinda e Bill Gates. Pelo seu mérito, talento e criatividade (nada foi herdado), ele deu um progresso extraordinário ao mundo da tecnologia. Mas, além disso, são o maior exemplo de filantropia e de empenho na investigação científica em benefício da Humanidade. Ainda há dias, a Fundação Melinda e Bill Gates doou 50 milhões de dólares para a investigação no tratamento do ébola. E mais: criaram um movimento para que todos os milionários e multimilionários deixem a maior parte das suas fortunas a esses fins. Um exemplo a seguir.
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AFONSO CRUZ com MIGUEL LIMA
Até lhe podíamos chamar artista multifacetado porque, afinal, a obra de Afonso Cruz inclui literatura, ilustração, música e cinema. O autor nasceu em 1971 na Figueira da Foz e estudou na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Começou a trabalhar pela área da animação e, enquanto realizador, trabalhou em filmes, séries, publicidade. Na literatura, estreou-se em 2008 com o romance A Carne de Deus e desde então já publicou 14 livros e recebeu várias distinções com destaque para o Prémio Autores 2011 da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)/RTP, Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa 2014 também pela SPA, em 2012 ganhou o Prémio União Europeia para a Literatura e também o Prémio Time Out para Melhor Livro do Ano. No seu portefólio de ilustração conta já com dezenas de livros. Com a banda The Soaked Lamb (começada em 2006) já lançou três discos e também já fez várias experiências: compôs, escreveu letras, cantou e tocou vários instrumentos, só não se sentou à bateria, o instrumento reservado a Tiago Lima, o amigo de longa data que Afonso Cruz escolheu para estar consigo neste artigo.
- Quem é a pessoa que escolheu para partilhar esta fotografia?
Miguel. Um amigo de longa data que é também meu cunhado e baterista da banda a que ambos pertencemos, os The Soaked Lamb.
- Onde e quando se conheceram?
Não me lembro do lugar nem do momento. Andei na escola, no secundário, com um primo dele que se tornou um dos meus melhores amigos. Conheci uma boa parte da família através desse amigo, que também toca nos The Soaked Lamb. Ao longo dos tempos fui ficando cada vez mais próximo do Miguel.
- O que é que acharam um do outro quando se conheceram?
Tínhamos alguma diferença de idades, por isso, muito provavelmente, achei que ele era um puto. O tempo ameniza essas diferenças.
- Quais é que considera serem as melhores qualidades e defeitos um do outro que fazem com que a amizade resulte?
A minha melhor qualidade é a sorte de ter um amigo como o Miguel. A melhor qualidade do Miguel é aturar-me. Tenho muitos defeitos que seriam fastidiosos de enumerar. Os defeitos do Miguel têm a vantagem de ser aqui vistos por um amigo, e, quando isso acontece, tornam-se qualidades. A teimosia passa a ser persistência, o azedume torna-se sentido crítico, a obsessão passa a ser amor por aquilo que se deseja.
- Quais são para si os ingredientes essenciais numa relação de amizade forte e duradoura?
Acho que isso depende do equilíbrio que conseguimos entre qualidades e defeitos. No nosso caso é simples: eu tenho os defeitos e ele as qualidades.
- Haverá um segredo para a amizade?
Compreender os outros é essencial, calçar os seus sapatos, perceber que somos diferentes e que essa diferença é um complemento e não uma coisa a erradicar. Isto, acredito, serve para a amizade, mas também para tudo o resto: sociedade, política, religião.
- Acha que esses ingredientes são para todas as amizades ou devem variar consoante as pessoas?
Acho que os ingredientes são universais, mas a maneira como os vestimos deve, evidentemente, corresponder ao contexto.
- O que é que gostam e costumam fazer juntos?
Passamos muitos fins de semana juntos, com os nossos filhos, cozinhamos para a família toda. Fazemos cerveja, destilamos aguardente, vemos o Sporting perder, damos uns concertos, vemos os nossos filhos brincarem e crescerem juntos. Fazemos churrascos e colhemos algumas das coisas que semeamos: frutos, vegetais, amizade.
- Há alguma coisa que sente que lhe devia dizer, mas ainda não teve oportunidade de dizer?
Esta entrevista é uma boa oportunidade de o fazer: de sublinhar uma amizade. Somos amigos, mas não falamos sobre isso. É uma coisa que acontece. Aqui, fica escrita.
- Quais são os prós e os contras de se trabalhar com um amigo?
Não sinto nenhuma fronteira entre a maneira com que nos relacionamos nos momentos de lazer daqueles que estão ligados ao trabalho. O facto de nos conhecermos bem só pode ajudar.
- Tem uma carreira que se divide em variadas áreas criativas. Chegou a alguma destas áreas através de amigos?
Não, exceto talvez na música, já que comecei a tocar com um grupo de amigos. Queríamos ter uma banda, comprámos instrumentos e começámos a aprender a tocá-los. Foi uma decisão conjunta. Às outras áreas fui parar de um modo mais ou menos fortuito.
- Já se inspirou em amigos para criar personagens que nos possa revelar e dar exemplos?
Todas as pessoas que conheço servem para compor personagens, mas nenhuma das minhas personagens é alguém que tenha conhecido. Quando pintamos um quadro usamos as cores com que todos os outros quadros foram pintados, mas o resultado será certamente diferente, com infinitas possibilidades. Com as personagens passa-se o mesmo: com as características humanas misturadas em proporções diferentes, teremos sempre resultados diferentes.
- Uma verdadeira amizade pode acabar e recomeçar?
Uma verdadeira amizade pode tudo. Até acabar, até recomeçar. Aliás, só as amizades que não são verdadeiras é que não podem recomeçar.
- Se pudesse escolher uma celebridade internacional para participar consigo neste artigo quem seria? Porquê?
Escolheria o Tom Waits, por exemplo, cuja música poderia ser a banda sonora deste artigo.
CRÉDITOS:
- Inês Castel-Branco e Custódia Gallego
Inês: Casaco em lã, by Malene Birger. Top em lã, COS. Calças em fazenda de lã, Stefanel.
Custódia: Camisa em musselina, Mango. Calças em ganga encerada, Guess.
Fotografia: Élio Nogueira
Maquilhagem: Carina Quintiliano
- Manuel Alves e Mariana Guedes de Sousa
Fotografia: Branislav Šimoncík
Maquilhagem: Elodie Fiuza
- Afonso Cruz e Miguel Lima
Afonso Cruz: Casaco em algodão e pelo, COS.
Miguel Lima: Trench-coat em algodão, Antony Morato.
Fotografia: Branislav Šimoncík
Maquilhagem: Elodie Fiuza
- Teresa Caeiro e Rita Caeiro
Fotografia: Pedro Bettencourt
Maquilhagem: Carina Quintiliano