Valentim Quaresma: Confiar no instinto

Escultor de joias ou criador de arte, Valentim Quaresma alcançou nome de autor nos quatro cantos do mundo. Na ideia descobre a palavra e nela a invenção das formas e cores.

Valentim Quaresma: Confiar no instinto
15 de junho de 2012 às 07:36 Máxima

Envolvente, a timidez é sedução neste rapaz de Lisboa que despronuncia as sílabas em fala discreta e direto olhar. Não ostenta vaidade, mas orgulho de ser quem é, joalheiro criador de esculturas, obras imaginosas de infinitas partículas feitas. Em plenitude de vida, aos 42 anos tem nome de autor prestigiado no mundo. Por gostar de arte, procura, inventa, viaja, voa. Por gostar de bichos, tem dois gatos. Ouvi-lo e olhar o que faz, reparar nos ingredientes e detalhes, ver a matéria-prima que constrói, é deliciosa sensação. No atelier de Valentim Quaresma, que bom momento vivido.

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Valentim é um nome raro, incomum, sugestivo…

Um tio meu, que morreu muito novo, chamava-se Valentim e por isso me deram o nome.

Podia ser um artista banal, sem história, como tantos outros. Como foi o princípio?

A minha formação começou com a joalharia. Fiz o curso na Escola António Arroio, várias pessoas da minha geração passaram por lá. Em 1989, fui ter com a Ana Salazar. A Ana era um ídolo para mim. Levei meia dúzia de peças de dois estilos diferentes que estava a fazer. Tinha usado técnicas de serrar e soldar que tinha aprendido no Ar.Co, para criar molduras com pedras e vidrilhos incrustados. Ela gostou das minhas peças logo que as viu. Eu tinha 18 anos. Depois, em 1990-91, comecei a fazer as cruzes portuguesas, dos Descobrimentos e da Ordem de Malta. Não havia o espírito de “O que é Português é Bom” que deixou de existir por estar ligado ao Antigo Regime. A Ana Salazar mudou essa atitude, demonstrou que é possível criar a partir dos símbolos portugueses, com ela notou-se a diferença. E com ela, além das cruzes, trabalhei outros símbolos, como os laços ou o Galo de Barcelos.

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Até chegar aí, muito terá acontecido na sua vida. Quer contar?

Venho de uma família humilde. Em pequeno inventava brinquedos, construía coisas, usava a criatividade. Ainda hoje junto as coisas mais diferentes, sou um viciado na Feira da Ladra, vou lá todas as semanas, é a minha maior fonte de investigação. Depois de acabar a António Arroio, como queria entrar no Ar.Co e não podia pagar as propinas, fui trabalhar para uma loja, a Linha Aérea, que tinha uma pequena oficina, onde fazia colares, pulseiras. Fiquei lá dois anos.

Onde era essa loja? Ainda existe?

Ainda. É ali na [Rua] 1.º de Dezembro.

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Para falar assim, só pode ser mesmo um rapaz de Lisboa.

Sou de Santos.

Na sua geração há outros criadores?

Sim, depois de 20 anos de formação nas escolas, há pessoas com nomes conhecidos. Como a Teresa Milheiro, que tem uma loja de joias, a Articula, em Alfama. A Marília Maria Mira. A Paula Paour.

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O que mais aprendi foi a confiar no meu instinto. Antes não confiava.

Entre a imaginação e a obra acabada, quais são as etapas?

O meu trabalho pessoal baseia-se mais na minha criatividade, começo sempre pela parte criativa, pela parte conceptual. Depois vem a escultura, sou intuitivo quando trabalho com os materiais. Por exemplo, parti do conceito de Velocidade para pensar em todas as espécies de velocidade que funcionam na nossa vida. O automóvel ou o xadrez. Outro projeto que desenvolvi foi a Alquimia, através da minha maneira de transformar os materiais. Neste último desfile da ModaLisboa, o conceito que trabalhei foi o Vírus. Todos os meus conceitos vão ao encontro do meu processo criativo.

Falou-se de si, com elogios, na ModaLisboa.

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Este foi o meu primeiro desfile sozinho, é a terceira vez que me apresento na ModaLisboa. Na primeira vez, fiz uma exposição na Câmara Municipal, a segunda foi no Mude [Museu do Design].

Como desfilaram os seus modelos?

Iam com calças pretas e o tronco nu, com a pele coberta com as minhas peças.

Quem são os seus clientes?

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Tenho pessoas de 20 anos e pessoas de 80.

Voltando ao princípio, como descobriu esta vocação? Era bom aluno na escola?

Era médio, bom em matemática, melhor nas aulas de ginástica. Queria ser atleta, mas o desejo acabou quando parti um braço, hoje faço ginásio normal. Para o que faço há uma motivação que eu não sei. Pensei que não podia ficar cá e experimentei outras iniciativas. Em 2008, mandei o meu trabalho para um concurso do ITS (International Talent Support) em Trieste, Itália. Soube do concurso pela Janela Urbana, um site de divulgação de moda, arte, cinema… Mandei o meu portefólio e fui selecionado, entre mil e tal candidatos, e ganhei o prémio Best Collection of the Year. Este é um dos concursos internacionais mais cobiçados para designers e criadores. Telefonaram-me a dizer que eu era finalista e fui a Trieste, onde houve uma exposição de todos os finalistas. Há um júri que tem dez pessoas da moda, John Galliano, Isabella Blow, Viktor & Rolf… Um dia de desfile para o concurso de moda de fotografia e um dia de desfile em que se seleciona a melhor coleção de acessórios e joalharia.

Este prémio foi “o pulo do gato”, com ele subiu um degrau importante na sua carreira.

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Foi uma escada rolante… O meu nome já tinha sido reconhecido, mas o prémio foi um reconhecimento maior. Eu estava fragilizado, tinha acabado de ter um acidente de moto, estava com uma perna partida. Pensei: “Ou tenho força ou vou ter de parar.” Não parei. Às vezes as provações servem para nos dar mais força. Quando voltei, houve um bom feedback. Saíram artigos na imprensa, nos Estados Unidos, no Japão, em França, Itália, etc. Nunca se tinha escrito tanto sobre um finalista. E eu tranquilamente em Lisboa.


O que é mesmo original em si?

Os materiais que uso. Por exemplo, alfinetes. Tenho um colar todo feito com alfinetes. Desmonto relógios, máquinas, objetos, começo por olhar para as coisas de um modo diferente e trabalho com elementos também muito diferentes uns dos outros.

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Que podem ser minúsculos, como as peças de um relógio?

Sim. Este trabalho ajuda-me nos projetos futuros, já apresentei peças que não são usáveis.

O seu nome começa a ser conhecido em outros países.

Já acontecia antes. Eu estava num showroom organizado depois da ModaLisboa, numa época em que se faziam showrooms em Cascais e na Escola Politécnica. Apareceu um agente da Austrália, gostou do meu trabalho e quis algumas peças, que exportei para lá. E antes disso, em 2002, um joalheiro veio aqui e convidou-me para ir a Paris fazer o Salon Première Classe, um salão de acessórios. Eu tinha 32 anos.

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Como faz as suas vendas?

Online e em pontos de venda, em Londres e Barcelona. Na Alemanha, Áustria, Holanda, Nova Zelândia e Austrália. E tenho um ponto de venda em Albi, em França, que abri porque há lá uma loja conceptual engraçada, que vende roupa de autor, de marca.

Como define a roupa de autor?

Primeiro, há todo um conceito por trás da peça. Segundo, a peça não é feita em série, a edição é limitada.

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Já foi à Austrália?

Nunca lá fui.

Mas viaja muito?

Em 2011, passei três meses em Londres, fui a França e à Letónia, para um Festival de Arte, perto de Riga. A Letónia é um país fantástico. Fiz uma exposição com a Daniela Ribeiro, no Museu de História Natural, em Luanda.

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Para trabalhar tanto, tem uma rotina?

Acordo todos os dias às 15 para as oito. A minha luta diária é ser organizado ou metódico. Tinha ateliers enormes em armazéns, o caos reinava, fazia parte do meu processo criativo. Ainda tenho um outro atelier no Beato, para as peças grandes. Mas a luta tem a ver com este espaço, mais organizado, de vários criadores, onde há uma imensa sinergia. Porque tudo tem de funcionar como uma empresa, é preciso pagar contas, receber clientes, preparar projetos. Na escola aprendemos a soldar, a serrar, a desenhar, a mexer, a experimentar, e precisamos de saber ainda mais coisas.

Gosta de ler, de ouvir música, de ir ao cinema? Que criadores admira em arte?

Cinema, vejo muito em casa. Às vezes, tiro dias inteiros para ver filmes. Tenho fases de leitura, leio muitas coisas técnicas. Gosto de Andy Warhol. Estou sempre à procura de música alternativa; oiço música quando trabalho. Gosto da Companhia Nacional de Bailado. Sou fascinado pela Olga Roriz. A Marina Abramovic é o meu ponto de referência. É um talento tão grande.

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E agora, o que vem seu, a seguir?

Vou apresentar um projeto à Galeria António Prates.

Que ideia, frase ou pensamento nos quer deixar, em resumo e conclusão desta conversa?

… O que eu mais aprendi foi a confiar no meu instinto. Antes não confiava. Quando ganhei o concurso, deu-me um clique, aconteceu.

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1 de 4 / Confiar no instinto
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2 de 4 / Kinga com alguns dos acess?rios de Valentim Quaresma
3 de 4 / Capacete e colar em metal
4 de 4 / Valentim Quaresma usa T-shirt em algod?o e jeans Dolce&Gabbana, na Fashion Clinic. Kinga usa diadema e gargantilha em metal e tutu em tule da Reppeto
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