O bege será a nova cor da moda? Os materiais e as formas inspiradas na natureza estarão em destaque? A comida será a grande estrela dos próximos tempos? Li Edelkoort, a grande especialista das tendências e uma das mulheres mais influentes do momento, é a melhor pessoa para o dizer.
Li Edelkoort - A senhora das tendências
20 de abril de 2012 às 10:09 Máxima
Tudo parece claro e simples. A holandesa Li Edelkoort absorve e traduz o mundo ao seu redor de maneira objetiva e natural. Circula pelos quatro cantos do planeta e quanto mais vê mais simples parecer tornar-se.
Foi considerada um das 25 pessoas mais influentes do mundo da moda pela revista Times e o seu gabinete de tendências tem como clientes algumas das principais marcas internacionais de setores tão variados como o automotor e a cosmética.
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Recentemente esteve em Lisboa para participar num congresso organizado pela Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED). Numa varanda ensolarada de Lisboa, partilhou connosco a sua experiência e a sua visão do mundo e do consumo.
O que a levou a seguir este caminho?
Ainda estava na Escola de Arte e vimos que eu tinha um talento especial para perceber o que seria o próximo tema em destaque, fosse uma moda, uma apresentação, um design. Estava sempre muito adiante dos demais. Certa vez, apresentaram-nos a ideia de empresas de styling, percebi que era para mim e comecei a ser educada neste sentido. Nessa altura, comecei a trabalhar numa loja de departamento onde realmente aprendi não apenas a sentir mas a ser capaz de transmitir, comunicar essas ideias, e a dar-lhes vida.
Trata-se de uma intuição, uma sensibilidade especial? Como é o processo de identificação de tendências?
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É basicamente um talento com o qual nasci. Na realidade, toda a gente tem intuição. Nascemos com ela, só que simplesmente não é desenvolvida. Na realidade, tirámo-la das crianças na escola. Mas podemos treiná-la para funcionar cada vez melhor.
A intuição é muito interessante, mas não é tudo. Precisa de uma mente muito pragmática, que a torne capaz de compreender o que se está a passar; para onde isso nos conduz; como divulgar essa ideia; como a pôr em palavras; como a visualizar; como dar-lhe uma ideia de tempo; e qual será o resultado desta mudança na sociedade.
O começo é muito irracional, emocional, intuitivo mas a segunda parte é realmente o outro lado do cérebro a trazer isso para um outro patamar.
No início, não se dava tanta importância às tendências…
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Ainda hoje é um trabalho estranho. Se tivesse vivido na Idade Média certamente teria sido queimada [risos]. Aos poucos, a sociedade começou a compreender que era extraordinário poder moldar a produção, repensar estratégias, estar preparado para o futuro recorrendo a pessoas como eu. No início, quando fazia as minhas apresentações, havia sempre algum homem com risinhos ao fundo da sala. Hoje, isso já não existe.
O mundo parece evoluir cada vez mais rápido. Sente esta pressão?
Na realidade, não. As tendências são muito lentas, duram cerca de 10, 15, 20 anos para amadurecer. Não há novas tendências a cada estação, o que fazemos é cristalizar as ideias e olharmos para elas através de novos ângulos para lhes darmos novo cunho. Apenas às vezes dá-se uma mudança radical, resultado de situações de crise, catástrofes naturais, ataques terroristas, desastres económicos. Todas estas coisas têm impacto na sociedade.
Leva uma vida stressante, a correr pelo mundo. O que a levou a estabelecer-se na Europa, América e Ásia?
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É horrível! [Risos] Este é um trabalho internacional. É global. Podemos simplesmente decidir não viajar mais, mas aí vamos perder imensa informação. A informação depende do tempo. Não se pode chegar a um país e dizer: “Vou encontrar a minha informação.” Não é bem assim. Você vai encontrá-la exatamente onde não espera. Pode ir a uma loja de eletrónica em busca de uma determinada informação e pode acabar por encontrá-la numa mercearia. Nunca se sabe. E isso é o bizarro das tendências: elas podem surgir onde quer que você esteja!
Toma notas à medida que vê coisas interessantes?
Não. Nunca tiro fotos ou tomo notas. Acho que se fizer isso vou escrever tudo e, assim, acabo por não fazer a distinção do que é importante daquilo que não é. O que não é importante, simplesmente esqueço. O que me fica na mente é o que importa. E eu confio nela. Só tomo notas se tiver encontrado uma ideia. Aí, sim, envio um breve SMS ou e-mail para mim própria.
Afirmou certa vez que a globalização já não é o que era nem será a mesma…
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Sim, porque localização e globalização andarão de braços dados. Cultura, folclore, gastronomia local, tudo o que é regional ganhará mais e mais importância. Pensar num estilo global não é correto. Na realidade, o estilo global é feito por milhares de ideias locais. E quanto mais local formos, mais locais e enraizadas estas ideias ficam, tornando-se super-regionais. Este é um desenvolvimento lógico, mas também tem uma faceta um pouco assustadora pois anuncia igualmente o reforço das ideias demasiado nacionalistas. Preocupam-me algumas tendências fascistas… L’histoire se repete! Neste caso, pode ser uma verdade.
Qual o papel da moda e do design no mundo em que vivemos?
Estão a ganhar cada vez mais impacto. Quando vemos as marcas que estão a dar cartas hoje – Volkswagen, Smart, Apple, só para referir três – vemos que são todas orientadas pelo design. Design, serviço e inovação. E é isso que vai conduzir o mundo. Não há maneira de ignorar este facto. Assim como não há mais espaço para quem apenas imita os outros. Isso já não funciona.
E o cenário atual, de crise, de que forma altera as tendências?
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Estamos em crise desde o início dos anos 90. Portanto, há mais de 20 anos. Houve aqui e ali bolhas de otimismo mas desde 2001 estamos sempre a descer.
Esta deve ser a crise número oito ou nove da minha vida. Com isso, posso ver o quão resilientes somos, assim como o quão imunes somos, pois cometemos sempre os mesmos erros. Somos estúpidos e parece que não somos capazes de aprender. O ser humano é desenhado para esquecer.
Acredito que os mercados não irão melhorar significativamente tão cedo. Penso que haverá um ligeiro alívio do sistema nos próximos dois anos mas não será uma alteração extraordinária porque temos um buraco demasiado grande por tapar.
Aposto na ideia de que nos habituemos à situação e digamos: “É isso e já está!” E não será já o suficiente? E se dividirmos esta riqueza e vivermos felizes para sempre? Será que precisamos de muito mais? Será que a Economia precisa realmente de estar constantemente a crescer? Ou basta apenas que seja sustentável? Estas são questões importantes.
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Se quisermos começar de novo, deveríamos rever todo o sistema… Só que isso não acontecerá agora. Precisamos de situações ainda mais pesadas.
Devemos, sobretudo a nível empresarial, dar-nos por felizes, aprender com o que se está a passar, ver as nossas oportunidades, crescer o que conseguirmos, não esperando crescer mais do que o suficiente, e aprender a viver com menos. É preciso também mudarmos a forma como recrutamos pessoal e como criamos as equipas. Isso trará uma enorme economia de pessoal. Há imenso que fazer.
Devíamos pensar que esta é uma situação para os próximos 10, 15 anos e, desta forma, poderíamos começar a organizar-nos sem alimentar falsas esperanças de regressar à fartura dos anos 80. Isso nunca acontecerá, tudo à nossa volta já é diferente. Já não há recursos suficientes no mundo. Precisamos de pensar que temos imensa beleza e luxo na nossa vida quotidiana. Cada bolacha é o resultado de um design, cada vela é um objeto, cada toalha é mais macia do que dantes, cada gabardina protege melhor da chuva, cada árvore é melhor cultivada, cada carro tem tudo o que é necessário, cada cabelo pode ser bem lavado e tratado… E então? Este é o meu estado de espírito atual.
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Perante este cenário, quais os conceitos em destaque agora?
São para o Verão de 2013 e eu chamo-lhes ‘bem-aventuranças’ porque acredito que todos deveríamos viver uma vida simples e espiritual, e estarmos mais atentos às coisas boas que nos rodeiam. Fazer pão, estar com os amigos, sair da cidade, caminhar na areia. E, neste campo, Portugal tem imenso a oferecer: clima fantástico, boas infraestruturas turísticas, excelente sentimento de família, ou seja, uma forte coesão social.
E quais serão as tendências mais importantes?
O mais importante é que vamos viver numa nova sociedade. Será o fim da sociedade individualista. E isso é algo que ninguém ainda previu. Tenho trabalhado nisso há algum tempo e agora posso dizer que está terminado. O individualismo dará lugar a uma sociedade em que as pessoas querem naturalmente fazer coisas juntas, anseiam por isso. As pessoas criarão grupos onde todos se complementam e, a partir daí, realizarão coisas em conjunto, o que trará certamente de volta os negócios familiares. E isso é uma coisa muito portuguesa, verdade? É claro que será com uma abordagem mais moderna e contemporânea.
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Também novidade é termos um novo homem em desenvolvimento. Este homem é pai e assume o cuidado dos seus filhos. É a primeira vez na História da humanidade que o homem é a força motora para ter filhos, cuidá-los, acompanhá-los. Onde quer que vá vejo imensos homens com os seus bebés. Já não são as mulheres a carregar as crianças. E nos últimos dois anos isso acontece com mais e mais frequência. Começou no Japão, depois na América e Europa, e agora vê-se por todo o planeta. Estes homens, pela experiência de cuidar dos filhos, serão muito diferentes dos das gerações anteriores. Mais suaves e ternos. As crianças darão também origem a uma geração diferente porque são cuidadas e acompanhadas por mãe e pai. Penso que esta é a era da emancipação masculina.
Outra coisa que vejo como muito positiva é que em breve uma nova geração chegará ao mercado de trabalho e aos lugares de decisão. Uma geração de jovens nascidos na “miséria” – por volta do ano 2000 – e que não cresceram com falsas esperanças como a geração agora ativa. Eles não viram dias melhores para ansiar pelo passado. A geração que agora está no poder é muito zangada e tenta agarrar-se às coisas porque tem medo de as perder. Esta geração que cresceu sem esperança e com menos coisas estará muito mais capacitada para viver estes tempos que correm. É mais flexível, com mais iniciativa e capaz de descobrir mais facilmente novas oportunidades, trazendo soluções e novas ideias.
E sobre produtos de consumo, quais as tendências?
Há inúmeras. Uma, é claro, tem a ver com o luxo. São bens caros mas que podemos usar por mais tempo. Haverá uma espécie de compreensão de que é bom comprar coisas sólidas, bonitas, bem feitas. Provavelmente, coisas feitas na Europa, com materiais naturais. Isso será muito importante. E o mercado do luxo irá estender-se a setores como os serviços, a hotelaria, a beleza.
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Outra tendência é a de que vamos continuar a consumir para as nossas casas. Ainda estamos a construir o nosso ninho. Agora mais do que nunca. E, em casa, tudo ligado à cozinha e aos alimentos ganhará grande importância. A jardinagem também. Não é uma nova tendência mas está a crescer muito. Agora passámos a plantar o que comemos. No jardim, nas varandas, nas penthouses, em todo o lado. Alimentação e jardinagem estão a juntar-se.
Penso também que os homens consumirão mais. Eles estão a ficar mais elegantes e a mudar. Creio que haverá um grande investimento em roupa masculina. No Japão, por exemplo, foram inauguradas recentemente duas lojas de departamentos só para homens. Isso é importante e muito novo.
Acredito também que haverá ainda o desenvolvimento do turismo nómada, em que se usa o carro em lugar do avião. Tudo o que tem a ver com campismo tornar-se-á mais popular. E, com isso, o interior dos países europeus irá tornar-se tão desenvolvido quanto a zona costeira. Restaurantes regionais, pequenos hotéis locais, boas estruturas pouco caras conquistarão o seu espaço.
Vejo ainda que homens e mulheres gastarão muito com os bebés e as crianças.
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Menos bebés e mais investimento?
Não estou tão certa acerca de menos bebés. Acredito que as famílias estão a crescer. Em França, por exemplo, estão a passar de dois para três filhos.
E como é Li Edelkoort enquanto consumidora?
Não sou muito interessante. Tento ser mais abstrata porque preciso de estar aberta às novas ideias. Não posso ceder à tentação das tendências. Sigo-as mais a nível dos têxteis, da cor e em casa. Não sou uma consumista, mas compro tudo o que gosto. Se vir alguma coisa que ache fantástica durante a viagem é claro que levo para casa. O que acontece é que já não me encanto facilmente porque vejo demasiadas coisas. E isso começa a acontecer um pouco com toda a gente: uma vez que se tem tudo ou pelo menos que se pode ter de tudo, uma pessoa farta-se. Podemos ver isso, por exemplo, a nível dos restaurantes. As pessoas já não gostam das ementas longas com demasiadas opções. Preferem um menu reduzido e simples. Isso já é um sinal de que chegámos ao topo e que agora vamos reduzir e simplificar a nossa maneira de viver. Não por causa da crise, mas porque não precisamos mais.
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Há imensos jovens hoje que procuram marcar a sua posição ao decidir não comprar coisas novas por um ano, por exemplo, ou por decidir comprar apenas cinco coisas novas por ano. Há pessoas que trocam coisas entre elas ou que compram em conjunto, por exemplo, como duas raparigas que querem comprar uma peça cara e fazem-no juntas pois é a única maneira que têm para o fazer. Esta partilha é interessante e importante. Na Internet há imensos sinais destes. Há imensas tendências destas mas que estão a ser completamente abafadas pela crise e pelo debate em torno do euro.