Saiba como ganhar anos de vida a comer feijões

Baratos, acessíveis e versáteis, os feijões são consumidos, diariamente, pelas populações mais longevas do mundo. Mas há um pungente e pegajoso alimento japonês, feito à base de feijões de soja, que protege a saúde como nenhum outro.

Feijões de soja, alimento japonês, protegem a saúde e ajudam a ganhar anos de vida Foto: Getty Images
27 de março de 2026 às 13:48 Madalena Haderer

O feijão é, provavelmente, a leguminosa com mais má fama. Feijão com arroz é comida de pobre, sopa de feijão é coisa de pastores e montanheiros. E a feijoada? Haverá coisa menos visualmente apelativa do que essa amálgama granulosa e acastanhada? E depois, claro, há os temidos efeitos intestinais decorrentes do seu consumo. Convenhamos, o feijão não é uma comida sofisticada e não devia ter lugar na alimentação de pessoas que usam elevadores, transportes públicos, ou que trabalham em grande proximidade de outras pessoas. E, no entanto, dois médicos especializados em nutrição como arma para combater e evitar doenças garantem que o humilde feijão é uma verdadeira arma secreta no que toca a viver muitos anos com saúde.

William W. Li, médico, cientista e autor norte-americano, é mais conhecido pela sua investigação pioneira sobre "alimentos como medicina" e um dos principais defensores do uso da dieta para ativar os sistemas naturais de defesa do organismo no combate a doenças como o cancro, a diabetes e a obesidade. E é com base nos seus muitos anos de pesquisa que Li garante que os feijões são o alimento de longevidade mais consistente em todas as partes do mundo. Num post recente que fez no Instagram, Li refere que “nas Zonas Azuis [regiões geográficas específicas no mundo onde os habitantes tendem a viver vidas mais longas, saudáveis e com alta taxa de centenários] as pessoas que vivem mais tempo comem feijões quase todos os dias”. 

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E porquê? Ora, de acordo com Li, “os feijões são ricos em fibra, que alimenta o microbioma intestinal, estabilizam os níveis de açúcar no sangue, promovem a saúde cardíaca, contêm proteína vegetal e polifenóis, e contribuem para a saúde metabólica”. Quanto à quantidade diária, o médico diz que o ideal é consumir uma chávena por dia, o que equivale a cerca de 180 gramas de feijão cozido que, no entender deste especialista, pode ser qualquer tipo de feijão, abrindo o leque para incluir algumas leguminosas como: “lentilhas, grão e favas”. Li conclui dizendo que este é “um alimento simples, acessível e poderoso”.

E porque feijões há muitos, deste lado do Atlântico, Tim Spector, um médico britânico, professor de epidemiologia genética e especialista em nutrição e microbioma intestinal, tem uma recomendação ainda mais específica, sugerindo o consumo de natto, um alimento tradicional japonês feito com feijões de soja fermentados. Num post do seu Instagram, Spector explica que a relevância do natto está ligada ao facto de ser “um dos alimentos mais ricos em espermidina”. E embora esta palavra o possa fazer erguer o sobrolho, não tem nada a ver com o que está a pensar. A espermidina é uma poliamina natural que promove a autofagia, atuando como um poderoso composto anti-envelhecimento, antioxidante e anti-inflamatório. Comum em alimentos como gérmen de trigo, soja e queijos curados, os seus níveis diminuem com a idade, sendo o seu consumo importante para a saúde cardiovascular, cognitiva e a longevidade.

A promoção da autofagia é, de resto, o elemento central do contributo da espermidina para a saúde. O médico britânico explica porquê: “A autofagia é o sistema de limpeza interna do corpo que elimina os componentes celulares danificados para manter as nossas células a funcionar bem. Com o envelhecimento, a autofagia diminui, e este declínio está associado a um aumento da inflamação, doenças cardíacas, redução da saúde cognitiva e maior incidência de demência.”

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Spector sublinha que, embora ainda seja necessário estudar melhor as potencialidades desta poliamina, “alguns estudos observacionais e ensaios clínicos sugerem que uma maior ingestão de espermidina na dieta está associada a uma melhor saúde cardíaca e a um risco cerca de 25% menor de morte prematura”.

Especificamente sobre o natto, este médico garante que é também “uma fonte rica em vitamina K2, que desempenha um papel importante na saúde óssea e cardiovascular, algo que a maioria das dietas ocidentais não oferece em quantidade suficiente”. Ao mesmo tempo, deixa um alerta: “É pegajoso, elástico, tem um sabor forte e, para muitos, é um gosto adquirido”. O lado bom é que, mesmo que o ache revoltante, “os estudos mostram que precisa de pouco mais de um miligrama de espermidina por dia para obter algum benefício, e uma porção média de natto, surpreendentemente, contém quatro miligramas”, explica. 

Este especialista conclui dizendo que tendo em conta que “promove a saúde intestinal, a saúde cardiovascular e a renovação celular simultaneamente, o natto vale definitivamente a pena ser explorado”.

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