Preto no Branco
Onde é que acaba a verdade e começa a mentira? Seis mulheres oferecem-nos diferentes perspetivas e desafiam-nos a reformular a forma como habitualmente abordamos o tema.
A resposta não é imediata quando a pergunta é feita a quem ganha a vida a perseguir a verdade ou justamente o contrário, a criar realidades alternativas.
Da verdade todos gostamos e até nos gabamos. A mentira, é outra história. Ninguém gosta da palavra e só a muito custo nos arrancam que, às vezes, optamos por meias-verdades (ou meias-mentiras). A verdade é que, longe de ser um daqueles assuntos preto no branco, implica uma série de tons pelo meio. E de abordagens também. Assim sendo, o que é que uma atriz, a proprietária da maior casa de alterne do país e uma palhaça têm em comum? Ganham a vida a iludir, “a substituir a realidade”, como nos conta a atriz Anabela Teixeira. Porque, justifica Kikas, “o homem precisa de sonhar”. Às vezes, porque “a realidade é muito dura e alguns não aguentam”, acrescenta a palhaça Teté.
Mas nenhuma das três gosta da mentira e todas rejeitam a palavra. Já a verdade é uma coisa boa, ninguém discute. Mas pode significar coisas diferentes para quem trabalha com ela todos os dias. Probabilidade em vez de verdade, diz Maria José Morgado: “Há várias verdades. A complexidade da vida deve ensinar-nos a ser inteligentes para perceber o que é mais provável.” A cientista Maria Manuel Mota acrescenta: “E a verdade pode mudar a cada momento.” Já para uma jornalistas, o tema é delicado e pouco aberto a discussão: “O jornalismo é um exercício incessante de procura da verdade. Não tem outro propósito nem outra finalidade”, diz sem vacilar Sandra Felgueiras. A verdade e a mentira em discurso direto por seis mulheres que trabalham em lados opostos da barricada.
SANDRA FELGUEIRAS - JORNALISTA
Aqui não há margem para enganos nem áreas cinzentas. “O jornalismo é um exercício incessante de procura da verdade. Não tem outro propósito nem outra finalidade.” Os jornalistas são uma espécie de corporação da verdade. Sandra Felgueiras chama-lhes “a classe” que deve merecer a confiança de ser o “quarto poder legítimo numa sociedade democrática”. E a verdade é o quê? A religião da classe? “A minha melhor amiga. Sem ela, a minha vida não faz sentido. Não me imagino a viver mentiras nem na vida pessoal nem na profissional. Costumo dizer que a minha única arma de trabalho é a minha credibilidade. Prefiro perder uma ‘cacha’, a avançar uma informação que não tenha 100% a certeza de ser verdadeira.” Quando é que a mentira é aceitável? Rejeita a palavra. Prefere o silêncio. “Existem silêncios compreensíveis. Imagino que uma mãe ou um pai não consigam incriminar um filho. Não lho podemos exigir. A própria lei prevê esta incapacidade humana e protege estas pessoas. Mentir, não. A mentira é imperdoável em qualquer circunstância.” E aqui não há meios-termos, meias-verdades ou meias-mentiras. “São igualmente condenáveis porque produzem a mesma consequência. Enganam.”
MARIA MANUEL MOTA - CIENTISTA, PRÉMIO PESSOA 2013
Na investigação, não há outro fim senão a verdade. Mas também há mentira porque quem investiga são pessoas e as pessoas mentem. “São conhecidos casos em que os investigadores mentem... São seres humanos e por vezes cedem. O objetivo máximo é nunca se mentir independentemente da verdade que se descubra.” A mentira na ciência dá lugar à hipótese que se revela errada. Mas nem sempre é tudo preto ou branco, nem na investigação. “Por vezes, uma hipótese parece ser verdadeira à luz dos conhecimentos que temos naquele momento e da forma como conseguimos pensar e, mais tarde, vemos que a verdade é diferente daquela que achamos ser a verdade antes.” E de erro em erro, de hipótese não verdadeira em hipótese não verdadeira, caminha-se para a verdade. “O objetivo do método científico deve ser desenhar as experiências de modo a matar a hipótese, ou seja, a pô-la em causa. Por isso, um cientista mostrar que uma ideia que teve é falsa não deve ser visto como algo negativo, apenas como um passo necessário à conquista da verdade final.” Não será também assim na vida? “Não há meias-verdades nem meias-mentiras. A cada momento só há verdades ou mentiras, o que não quer dizer que não mudem com o tempo.”
MARIA JOSÉ MORGADO - MAGISTRADA DO MINISTÉRIO PÚBLICO
Trabalha entre a verdade e a mentira, a desvendar as segundas para repor as primeiras. Que relação tem hoje com a verdade? “Talvez uma relação de amor. Parece mal dizê-lo? Amor e luta.” Trinta e cinco anos à procura de verdade no Ministério Público. Terá ficado à prova de mentira? “Provavelmente não. Embora a experiência da vida nos ajude a farejar a mentira. Claro que também me engano, tenho de partir dessa possibilidade para reduzir todas as margens de erro possíveis. A verdade resulta de um contraditório e não de afirmações vazias.” E quando estamos algures no meio, entre a meia-verdade e a meia-mentira? A resposta surpreende, vinda de quem vem: “Por vezes há várias verdades. A complexidade da vida deve ensinar-nos a ser inteligentes para perceber o que é mais provável. As verdadeiras verdades raramente são taxativas, têm nuances.” Mas, no fim, a opção não é entre mentira e verdade, é entre fazer o Bem ou o Mal. “É sempre melhor dizer a verdade, mesmo quando ela nos prejudica. Dizer a verdade enobrece e isso é sempre uma vantagem moral, acho eu.”
MARIA DA CONCEIÇÃO - PROPRIETÁRIA DA CASA DE ALTERNE LA SIESTA
Chega a ter 70 mulheres, com idades compreendidas entre os 20 e os 50 anos, a trabalhar consigo. Algumas chamam-lhe mãe Kikas porque cuida delas, seja a fazer-lhes o jantar ou a pepará-las para a próxima atuação em palco no La Siesta – a maior casa de alterne de Portugal, localizada no Vale de Santarém. Todas elas ganham a vida a criar, junto de um determinado público, a ilusão de que a vida, durante umas horas, é melhor, mais divertida. A Casa da Kikas é o lugar para onde os homens vão, durante umas horas, viver uma realidade paralela. Mentira? Não, entretenimento. “Um homem precisa de sonhar.” É um limbo onde, diz Kikas, “não existe o engano, nem o fingimento, nem a verdade, nem a mentira. Apenas e tão-só o sonho e a ilusão induzida de forma consciente”. Recusa mesmo a ideia de mentir. A palavra é pouco amiga. “Nunca me conformei com a mentira. Abomino a mentira.” Prefere a ideia de ilusão. Aquela que é “induzida e consciente, numa perspetiva de entretenimento, considero-a sempre terapêutica e condição necessária à vivência humana”. Por isso fala em representação. “Represento. Sem dúvida. Quantas e quantas vezes estou destroçada por dentro, por motivos pessoais ou de saúde e, no entanto, o meu rosto, visando o entretenimento e felicidade de terceiros, está sempre com um sorriso. É esse o meu prazer, a minha satisfação: a felicidade e entretenimento de terceiros.”
ANABELA TEIXEIRA - ATRIZ
Será a arte de representar uma mentira das boas? Anabela Teixeira responde: “Não vejo a representação como uma mentira, mas como uma verdade que acabou de nascer, que no mundo ideal seria surpreendente, original e com muita qualidade artística.” A palavra mentira não agrada a ninguém. Em vez desse termo, outro: substituir. “É um trabalho de observação e de substituições: oferecer ao trabalho coisas minhas que sejam verdadeiras e que sirvam as circunstâncias da personagem. Tornar-me noutro ser é um desafio”, diz Anabela Teixeira. Pomos sempre um bocadinho de nós em tudo o que fazemos, ou seja, até na ilusão, na representação, há verdade. A atriz recorre à etimologia da palavra: “Ilusão vem do latim ludo, que significa brincar. Acho que esse prazer no jogo é o primeiro passo para o público também acreditar e desfrutar.” E ser iludida não é o mesmo que ser enganada? “Não. É saber as regras e estar de acordo com o jogo. Quando se entra numa sala de teatro ou num cinema, ou se vê ficção na televisão, preparamo-nos para uma viagem de emoçoes, de imaginação, e que nos pode levar a tempos e a espaços muito profundos, interiores e inconscientes.”
Sobre a mentira pura e dura responde a Anabela e não a atriz: “Não suporto a mentira, é uma grande violência.” E as meias-verdades são o mesmo que meias-mentiras? Contam como mentiras? “Acho que sim. Mas não precisamos de expor tudo o que nos vai na alma. Trata-se do direito que temos à intimidade. E isso não é mentir.”
TERESA RICOU - PALHAÇA TETÉ
Mais uma vez a palavra de ordem não é mentir, é iludir. “As pessoas talvez prefiram viver na ilusão porque a realidade, às vezes, é muito dura, nem todos aguentam”, diz Teresa Ricou. “Pode não se querer saber a verdade, mas não é justo, não é saudável mentir.” Mas não ela. “Não gosto de ser iludida. A verdade sempre na linha da frente!” É uma questão de dose certa e, para a palhaça Teté, é tudo ou nada. “Tudo o que é a meio gás não tem o sabor nem o prazer de uma verdade inteira ou de verdadeira mentira.” E será fácil enganar a palhaça Tété, que ganha a vida, ela própria, a iludir? “Muitas vezes! Sou um pouco ingénua, acredito e, às vezes, no final, engano-me!” Não é demasiado severa com a mentira e até acha que se trata de uma questão de liberdade: “Cada um vive a verdade ou a mentira que quer, é uma questão de livre-arbítrio.”
Mas na arte do faz de conta que é a vida de um palhaço, a mentira está bem definida e não faz mal a ninguém. “Mentir é enganar a verdade, fazer de conta até pode ser um jogo engraçado.” E quando era pequena? Já gostava de iludir? “A minha rebeldia levava-me constantemente a desviar-me da verdade, sobretudo com os professores. Cresci, assumi a minha independência e a liberdade conquistada não necessita de mentira, o que não quer dizer que muitas vezes não ande enganada. O mundo troca-nos as voltas.”
FOTOS: Pedro Bettencourt