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Lise Klaveness: a mulher que fez tremer os homens do futebol (e ainda desafiou a FIFA)

Não marcou golos, não levantou a voz por vaidade e não chegou ao futebol para pedir licença. A presidente da Federação Norueguesa de Futebol é a mulher que está no centro do momento mais luminoso da Noruega em quase três décadas.

Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol, está no centro do momento da Noruega
Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol, está no centro do momento da Noruega Foto: Getty Images
10 de julho de 2026 às 11:02 Safiya Ayoob Adicione como fonte preferencial no Google

O que acontece quando, finalmente, deixam uma mulher mandar? A pergunta pode soar provocatória, quase feita para levantar sobrancelhas num camarote cheio de fatos escuros. Mas é difícil não a fazer quando se descobre quem é Lise Klaveness: a presidente da Federação Norueguesa de Futebol, a primeira mulher em 120 anos a ocupar o cargo, a ex-jogadora que trocou as chuteiras pelo direito, os tribunais pela televisão e a televisão pela política do futebol internacional.

Sim, a mesma . A mesma Noruega de Martin Ødegaard. A Noruega que, depois de 28 anos fora do Mundial masculino, regressou finalmente ao maior palco do futebol. E não regressou timidamente. Em 2026, entrou no torneio como quem volta a uma festa onde já não era convidada há demasiado tempo e, pelo caminho, derrotou o Brasil nos oitavos de final, garantindo um lugar nos quartos, contra a Inglaterra.

Claro que Lise Klaveness não marcou os golos. Não cabe a ela pressionar defesas, escolher extremos ou inventar assistências para Haaland. Mas há vitórias que começam muito antes do relvado. Começam nas federações, nos planos de formação, nas academias, nos clubes pequenos, nas reuniões longas e pouco glamorosas onde se decide se uma geração terá ou não condições para florescer. Klaveness não é a autora de cada golo norueguês. É, antes, uma das arquitectas do ambiente que tornou possível este regresso.

Nascida na região de Bergen, no oeste da Noruega, Lise apaixonou-se pelo futebol como tantas crianças: com uma bola que parecia maior do que o mundo. No discurso feito no Congresso da FIFA 2022, contou que levava uma bola laranja para todo o lado - até para a cama -, sonhando em dominá-la, em pertencer, em encontrar no jogo uma linguagem onde coubesse inteira. Começou a jogar por volta dos 11 anos e, quando percebeu que certas oportunidades estavam reservadas aos rapazes, não se limitou a aceitar. Ainda adolescente, talvez já intuísse aquilo que mais tarde viria a defender em público: que o talento das raparigas nunca foi o problema; o problema foi sempre o espaço que lhes recusaram.

Dentro de campo, construiu uma carreira respeitável: 73 internacionalizações pela Noruega, presença em grandes competições e uma final do Europeu feminino em 2005. Enquanto jogava, estudou Direito. Depois trabalhou como advogada, juíza-assistente no tribunal de Oslo e assessora jurídica no banco central norueguês. Há qualquer coisa deliciosamente cinematográfica nesta sequência: a futebolista que, em vez de desaparecer depois da reforma, entra nos lugares onde as regras são escritas, interpretadas e aplicadas. Klaveness não saiu do futebol por falta de futuro. Saiu do relvado para tentar decidir que futuro o futebol poderia ter.

Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol, está no centro do momento da Noruega
Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol, lidera a Noruega no seu momento mais luminoso Foto: Getty Images

Mais tarde, tornou-se comentadora televisiva e aí conheceu uma forma particularmente familiar de violência: aquela reservada às mulheres que aparecem em espaços onde muitos homens ainda acham que elas estão de visita. Comentavam-lhe a aparência. Chamavam-lhe feia, contou ao Financial Times em 2023. Julgavam-lhe a cara antes da competência. Ela disse, anos depois, que encontrou nisso uma espécie de motivação: a capacidade de dizer “não quero saber”, mesmo quando, na verdade, queria. 

Em 2018, tornou-se diretora técnica da Federação Norueguesa de Futebol, assumindo responsabilidade sobre estruturas ligadas ao futebol masculino e feminino. Depois, em 2022, foi eleita presidente da federação. Primeira mulher. Primeira em 120 anos. A frase merece ser repetida porque contém, em si, a dimensão do atraso. Não porque Lise Klaveness fosse uma exceção milagrosa, mas porque durante mais de um século o futebol demorou demasiado tempo a imaginar uma mulher no topo. E quando chegou lá, ela não se comportou como quem agradece discretamente o convite. Em Março de 2022, no Congresso da FIFA em Doha, poucos meses depois de tomar posse, Klaveness fez aquilo que muitos dirigentes raramente fazem: disse o que tinha de ser dito numa sala onde quase ninguém queria ouvir. Falou de direitos humanos, de trabalhadores migrantes, de transparência, de igualdade, de corrupção, de pessoas LGBTQ+ e da responsabilidade moral do futebol. Disse que a FIFA tinha de ser um exemplo. Disse que não havia lugar para anfitriões que não conseguissem garantir segurança e respeito a todos os que chegam a um Mundial. E, talvez mais importante, recusou a ideia de que estava a trabalhar “num mundo de homens”. “Não trabalho num mundo de homens”, disse. “O futebol pertence a todas as raparigas e rapazes do mundo.”

Desde então, Klaveness tornou-se uma figura incómoda - no melhor sentido da palavra. Incómoda para quem prefere consensos mornos. Incómoda para quem acha que federações pequenas devem falar baixo. Incómoda para um futebol que gosta de vender diversidade em campanhas bonitas, mas nem sempre sabe o que fazer quando uma mulher aparece com poder real, mandato democrático e uma opinião juridicamente estruturada.

Em 2025, foi eleita para o Comité Executivo da UEFA. Em 2026, foi reeleita presidente da federação norueguesa por mais dois anos. Pelo meio, a Noruega viveu uma espécie de primavera futebolística: a seleção feminina chegou aos quartos de final do Europeu de 2025; a seleção masculina qualificou-se para o Mundial pela primeira vez desde 1998; Oslo recebeu a final da Liga dos Campeões feminina; e a federação lançou uma estratégia dedicada ao futebol feminino e às raparigas.

A história da Noruega em 2026 podia ser contada apenas com nomes masculinos: Haaland, Ødegaard, Solbakken. Seria uma boa história. Mas seria incompleta. Porque, no centro desta nova Noruega, há também uma mulher que conhece o jogo por dentro, que sabe o que é ser avaliada pelo corpo antes da cabeça, que passou pelos tribunais antes das tribunas, que não confunde popularidade com coragem e que percebe que o futebol, como a moda, como a política, como a cultura, é sempre uma disputa sobre quem pode ocupar espaço.

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