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Capicua: “Ser mulher e estar num palco a dar opiniões sem pedir licença nem ser decorativa já é um ato político”

A rapper portuense tem novo disco. Em Madrepérola, Capicua grita por liberdade, igualdade de género, mudanças civilizacionais e, fruto de uma experiência recente, fala-nos sobre maternidade. As letras, como já nos habituou, são certeiras e deixam bem claro o seu statement.

31 de janeiro de 2020 | Rita Silva Avelar

Capicua evoca poderosas mulheres como Madonna, Amália Rodrigues ou Chimamanda. O novíssimo disco da rapper portuense, Madrepérola, acentua a essência disruptiva e autêntica de si mesma, aquela que nasce da vontade de por em palavras as suas lutas, o seu desejo de mudança, os seus desafios diários. A par da vivência da maternidade: há um ano, foi mãe de Romeu. Nas letras, evoca composições de Chico Buarque, Sophia de Mello Breyner ou Sérgio Godinho, e as canções nascem em colaboração com artistas lusófonos: Mallu Magalhães, Lena D’água, Camané, Ricardo Ribeiro e Emicida são apenas exemplos. O single com o mesmo nome do disco conta com a colaboração da rapper brasileira Karol Conka, beat do português DJ Ride e produção de D-One, e o vídeo foi realizado por Clara Não e André Tentugal.

Em entrevista à Máxima, Ana Matos Fernandes, o nome por detrás do artístico Capicua, fala sobre as composições de Madrepérola, da influência da maternidade neste disco, e sobre ser mulher num mundo de homens, não só na música, mas na nossa sociedade.

Escreveu e gravou o disco Madrepérola enquanto estava grávida do seu filho Romeu. Quão influenciado foi este projeto pela experiência da maternidade?

O disco é um retrato de um momento muito feliz da minha vida mas também é um exercício intencional de fazer música mais solar, luminosa… Porque também senti que já dominava os temas mais sérios e que precisava de experimentar abordagens mais dançáveis, mais misturadas com outras músicas, mais alegres. É bastante inspirado na experiência da gravidez no sentido em que eu estava a vivê-la, e a própria saída do disco também é marcada por essa experiência no sentido em que ele saiu um ano mais tarde porque um bebé se "intrometeu" no seu processo (risos). Foi gravado com a voz de uma grávida de oito meses… é um disco, ele próprio, condicionado pela gravidez e pelo parto e conta um pouco essa experiência dos últimos meses da minha vida.

Em Madrepérola canta com garra. "Vim dar lições a putos e a homens das cavernas". É o seu disco com composições mais feministas?

Em todos os discos eu acabo por falar em feminismo, nas questões relativas às mulheres, sobre afirmação feminina… O primeiro single do meu primeiro disco chamava-se Maria Capaz e falava sobre isso. É algo transversal ao meu trabalho desde o primeiro dia e é também uma lição feminista que eu aprendi com o rap, curiosamente. É sobre estar orgulhosa de mim, emanar autoconfiança, ser afirmativa e ter essas características que não são tão culturalmente estimuladas na educação das mulheres – como ter espírito de liderança ou ser competitiva – que eu faço questão de evocar como um statement. Mesmo que eu não falasse sobre esses assuntos, o que não é o caso, só o facto de ser mulher, estar em cima de um palco, com um microfone na mão, a dizer as suas opiniões, a fazer aquilo que gosta de uma forma descomprometida e sem pedir licença a ninguém e sem se preocupar em ser decorativa, isso já é um ato político, digamos assim. Depois, acrescentamos o conteúdo da força feminina, que tenta contagiar outras mulheres a cultivarem a sua auto-estima (algo tão difícil numa sociedade como a nossa). Mas isso é um traço do meu trabalho desde sempre: fazer discos muito femininos, e muito feministas. Com o tempo as temáticas vão evoluindo.

Quer explicar a capa, e o nome do álbum?

Madrepérola alude imediatamente à maternidade, que marcou muito o processo de construção deste disco. Mas tem a ver com uma metáfora muito eficaz e bonita que tem a ver com a ideia de que as ostras só fazem pérolas quando um grão de areia invade a concha, e elas, para contornar o incómodo, vão criando uma camada, em torno do grão, e acabam por formar uma pérola. Eu acho que essa ideia de transformarmos em pérolas aquilo que são os desconfortos, as dores da existência, aquilo que nos incomoda, é muito aquilo que nós fazemos, que eu faço, quando escrevo e faço música. Acabo por fazer pérolas dos meus grãos de areia. Essa ideia que é tão poderosa e que funciona lindamente para explicar o processo a partir do qual eu faço música, também serve para a maternidade – também é preciso uma grande superação de desconfortos, dificuldades e desafios, e claro que depois vale muito a pena. A ideia de criação serve para os filhos e para a música e a arte em geral.

Em Passiflora fala um pouco sobre a solitude de ser rapper mulher em Portugal. É verdade? Continua a ser um universo de homens? Sei que tem organizado encontros com jovens 'rappers' mulheres que querem começar…

Acho que hoje em dia há menos estranheza em relação ao rap feito por mulheres e menos preconceito e, pelo menos, eu já provei que é possível uma mulher ter uma carreira longeva no rap em Portugal. A questão é que estas coisas não têm só a ver com o rap em particular, é uma questão mais cultural. Esses desafios que as mulheres enfrentam num meio bastante masculino são os mesmos que qualquer mulher enfrenta noutra área, do desporto de alta competição à política. Em todas as esferas da vida social em que é preciso características que não são muito cultivadas na educação das mulheres – como o espírito de liderança, o espírito competitivo (não pela atenção masculina mas pelo sucesso profissional) a priorização do trabalho, desenvolvimento de talentos pessoais…Precisamos de transformar a forma como socializamos as nossas crianças, menos condicionada pelos papéis de género e começarmos a fazer uma evolução civilizacional para uma sociedade menos patriarcal e menos esvaziada em critérios de género. Só aí haverá uma igualdade de circunstâncias nestes contextos como o do hip hop, que acaba por ser um "boy’s club". Há um duplo critério quando avaliamos o trabalho de um homem e de uma mulher: a mulher tem que justificar a sua presença, sobretudo em meios masculinos. 

O disco é um disco de colaborações, com muitos nomes oriundos do Brasil, como Karol Conka, Emicida ou Mallu Magalhães. Mas também portugueses: Catarina Salinas, (dos Best Youth), o fadista Ricardo Ribeiro, Lena D'Água. Como é que se deu tudo isto?

Queria fazer um disco solar, mais dançável, com mais canções, mais "misturado" com outros estilos de música. Para isso fui buscar outros contributos. Como não canto, faço rap, para trabalhar a canção e ter um disco mais musical precisava de mais vozes, e as músicas acabaram por "me pedir" esta ou aquela pessoa. Tive a oportunidade de fazer parcerias muito interessantes não só com músicos portugueses como também brasileiros, e ir do fado ao bossa nova, passando pelo rap, pelo reggae… Não deixou, por isso, de ser um disco muito autoral e pessoal, porque foram as músicas que eu fui construindo através de um trabalho prévio até um pouco solitário. É um disco que espelha, também, a mistura da lusofonia.

Um dos temas presentes é sobre a pressão para fazer discos novos a todo o momento. Em Portugal também é assim?

Acho que há uma necessidade de novidade permanente, em que a actualidade tritura a novidade em segundos, e os discos demoram imenso tempo e depois são consumidos em pouco tempo na voragem da novidade. Hoje em dia, com a internet e com a quantidade de música a que temos acesso, não há grande capacidade de parar para ouvir um disco, quanto mais dar-lhe atenção quando todos os dias saem discos. O tema Passiflora, que abre o disco, fala muito sobre essas questões, fala sobre o tempo da arte.

É, também uma declaração de amor ao Porto? Falo do Circunvalação…

Sim, parte da ideia de fazer um disco sobre aquilo que me incomoda. Resolvi falar sobre o facto de achar que o Porto está em forte descaracterização, digamos assim. Por causa do turismo e da especulação imobiliária… há uma grande pressão para a lavagem do Porto castiço e tosco, o Porto real fora dos cartões postal. É uma turistificação crescente que acaba por transformar o Porto numa espécie de cenário em que as pessoas já não podem viver porque já não têm capacidade para pagar as rendas, em que as lojas tradicionais fecham para abrir grandes cadeias internacionais ou restaurantes gourmet. Parece que existe uma espécie de falsificação crescente daquilo que é genuíno e autêntico. Em Circunvalação quis falar sobre o Porto real, o Porto de todos os dias, o Porto longe desses cartões postal, mas é o Porto dos portuenses e onde gostamos de viver. E de onde não queremos ser expulsos.

As redes sociais tornaram-se num negócio para os artistas?

O problema das redes sociais e da questão de promovermos o nosso trabalho na esfera das redes sociais, é que acabamos por banalizar o nosso trabalho porque estamos no meio de mil outras pessoas que estão a tentar chamar à atenção. As redes sociais são uma amálgama de coisas, algumas mais interessantes mas muitas delas super desinteressantes. Acontece que acaba por ser exigido aos artistas uma espécie de contrato em que nos temos "que vender" para que as pessoas tenham interesse na nossa arte. Nomeadamente abdicando da sua privacidade ao mostrar a vida, "os bastidores da intimidade" para que as pessoas tenham vontade de ouvir aquilo que temos para mostrar. É um bocado ingrato, por um lado estamos a banalizar o nosso trabalho e por outro estamos a vender a nossa vida privada, e isso é um bocadinho perverso. A canção Quadrado Perfeito fala sobre isso.

O que é que gostava que as pessoas retivessem deste disco?

Gostava que este disco fizesse as pessoas pensar e que lhes desse alegria para a luta, porque eu acho que o mundo está bastante sombrio e perigoso e é preciso cultivarmos a compaixão e a empatia, a humanidade, e a música positiva que nos faz pensar, mas que também nos atira para a frente e para a luta pelos valores que interessam e isso é sempre um bom contributo. É essa a minha vontade.

Foto: André Tentugal
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Foto: André Tentugal
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