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"Ainda há homens vulneráveis." Por que Heated Rivalry é a nova série preferida de mulheres e gays

"E aqui entre nós aquele cast foi todo esculpido por anjos." Estreia hoje na HBO Max e não há outro programa possível para o fim-de-semana (a chuva é praticamente um 'paid actor').

Nova série da HBO Max acompanha o amor entre dois homens
Nova série da HBO Max acompanha o amor entre dois homens Foto: IMDB
23 de janeiro de 2026 às 17:07 Patrícia Domingues

"Heated Rivalry é assim tãooooo boa? Só vi raparigas hetero obcecadas pela série." É com este tom provocatório de quem já sabe ao que vai que começa o tópico de discussão publicado há 20 dias no Reddit. A resposta? Mais de 300 comentários acalorados. Mas, sinceramente, não precisaríamos ir às profundezas da web (é o que sinto cada vez que uma pergunta que faço no Google acaba num fórum) para perceber que sim: só pode ser assim tãooooo boa se o mundo inteiro não se cala com ela.

Só que, o que acontece quando algo se torna viral? Eu perco o interesse. A terapia poderá explicar, ou o meu mapa astral também, mas simplesmente a vontade de ver, fazer, ficar na fila desvanece-se. No entanto, quando digo “mundo inteiro”, estou a falar das pessoas mais fixes do meu Instagram. Então, lancei o repto e pedi para me convencerem a passar o fim de semana colada à televisão.

O que eu sabia até agora, sem ter visto nada? Dois jogadores de hóquei gays, dois novos crushes de Hollywood - Hudson Williams e Connor Storrie -, bons corpos… okay, ótimos corpos, um romance com pouco ou nada a esconder, uma produtora pequena que decidiu arriscar, e cenas de sexo capazes de fazer todas as mulheres hetero que conheço quererem dormir com estas personagens (e assim eliminei as pistas que me levavam a compará-la à toxicidade masculina de As 50 Sombras de Grey).

O que pesquisei para escrever esta introdução e que me chamou atenção? A série acompanha Shane Hollander (Hudson), capitão do Montreal Voyageurs, e Ilya Rozanov (Connor), estrela russa do Boston Bears. No gelo, são rivais declarados; fora das arenas, porém, essa animosidade esconde um romance secreto e duradouro. A série teve a sua pré-estreia no Image+Nation LGBTQ+ Film Festival, em Montreal, em novembro de 2025, onde foi recebida com bastante entusiasmo. A crítica destacou a segurança da direção, a sensibilidade do roteiro e, sobretudo, as performances do casal protagonista.

Depois, há uma série de factos que parecem ficção, mas não são - e que aumentam o interesse. Por exemplo, o facto da autora Rachel Reid (nome verdadeiro Rachelle Goguen) ter escrito no seu blog meses antes de tudo acontecer: "Escrevo romances queer sexualmente explícitos sobre jogadores de hóquei. Vocês provavelmente sabem disso, mas digo porque não me sinto confortável para contar isso para todos." Agora, a adaptação do seu livro "obsceno", como ela própria descreve, é uma das séries mais comentadas da TV. Apesar da sua representação sincera de relacionamentos LGBTQIA+ e do mundo do desporto, houve quem menosprezasse a história e a rotulasse como "a série do hóquei gay". Mas Reid não se preocupa: "Se gostas dela, provavelmente estás do lado certo em muitas questões." E eu gosto de ser do contra mas gosto ainda mais de estar do lado certo.

Foto: IMDB

'Viciados' em Heated Rivary sobre os motivos por que temos mesmo de ver esta série 

Daniel Gorjão: "Se Heated Rivalry importa, é porque suspende o estado de exceção que durante séculos regulou certos afetos. Uma história sobre desejo que não pede licença, sobre masculinidades em fricção e intimidade que cresce no silêncio dos bastidores. Entre ringues, rivalidade e encontros secretos, a série desmonta a ideia de amor fácil e propõe algo mais raro: intimidade construída. Não é sobre vencer, mas sobre permanecer. E permanecer, às vezes, é o ato mais radical." 

Mónica Bozinoski : "Uma boa história de amor tem o poder de nos seduzir, fascinar e agarrar, e Heated Rivalry não foge a este “chokehold” que o romance enquanto género tem. Sim, é uma série romântica, altamente sexy e arrisco-me a dizer viciante, mas não se reduz apenas a isso. É uma história queer que se desprende de cliches, e que entra pelo nosso ecrã como uma necessária lufada de ar fresco. É a prova que os espectadores anseiam por mais - mais representatividade e celebração, em particular de uma comunidade que tantas vezes se vê retratada por uma lente de estereótipos, ou não retratada de todo; e mais histórias onde intimidade, tensão e sexo são apresentados de forma real e vulnerável, com inteligência, “humor” e humanidade, e sem violência ou masculinidade tóxica. Além disso, é impossível ignorar a química dos dois atores principais, e a forma como se entregam aos papéis de Ilya e Shane. Independentemente de identidade ou orientação, acho que todos conseguimos sentir empatia e conexão com estas personagens. Afinal de contas, quem não deseja ser visto, compreendido, amado e livre para amar?" 

Diogo Ortega: "É uma série feel-good, com coração e humor, que faz bem ver porque acredita na ternura, na química e na possibilidade de um final feliz, sem cinismo. Ao acompanhar uma rivalidade intensa que se transforma numa história de amor, abre espaço para alargar horizontes e mentalidades, desmontando preconceitos sobre masculinidade, desejo e intimidade num meio ultra competitivo. E há ainda um detalhe importante: este fenómeno nasceu fora do circuito típico de Hollywood e, ainda assim, conquistou público e conversa um pouco por todo o lado, provando que quando a narrativa é honesta e bem feita, o mundo inteiro responde." 

Mafalda Beirão: "No epítome daquilo a que chamam a epidemia do homem solteiro, Heated Rivalry vem mostrar-nos que ainda há homens vulneráveis - mesmo que isto seja uma série de ficção. Vem mostrar-nos a história de um amor real, sem filtros, onde o género de ambos não define a relação, onde há uma sensação de igualdade e de muita vulnerabilidade. Vivido num ambiente (que se espera ser) mais heteronormativo, é uma história de amor que quebra as nossas expectativas sociais e que nos dá um quentinho no coração até nos momentos mais sexuais." 

Davide Sá: "Heated Rivalry prova que um orçamento limitado nunca impediu a ambição artística. Com poucos meios, a série constrói uma história rara e genuína sobre amor gay, onde o romance é o centro de tudo. Há desejo, conflito, medo, vulnerabilidade e ternura, tratados com verdade e sem filtros. A representatividade surge de forma natural e honesta, e é isso que torna a série tão especial. Heated Rivalry fez-me rir, entristeceu-me e emocionou-me, lembrando que as boas histórias não precisam de pedir licença para tocar em quem vê." 

Cláudia Barros: "É reconfortante ver uma série romântica e sexualmente explícita em que nenhum dos sujeitos é mulher. Acho que, inconscientemente, isso permitiu-me desligar estereótipos que, de outra forma, poderia tentar projetar nas personagens. Ver homens que exteriormente representam tudo o que a sociedade define como másculo e poderoso, em momentos de vulnerabilidade e intimidade, parece-me, na verdade, um ideal profundamente feminino. Algo que a maioria de nós, mulheres, procura." 

Vitor Machado: "Heated Rivalry consegue não cair naquela vala comum das séries mainstream repletas de plot twists e acções dramáticas. Em vez disso, consegue contar-nos uma história que fala sobre desejo e sobre amor na sua forma mais pura e mais genuína: sem jogos, sem reservas e onde a vulnerabilidade (especialmente a vulnerabilidade masculina) não é propriamente uma questão. Se tudo isto é um pouco fantasioso? Sim. Não porque esta forma de nos relacionarmos seja impossível, mas porque em tempos de "amor líquido" é difícil de encontrar (ainda que seja a que mais desejamos). Ainda assim, é esta forma de a representar que faz com que a série seja tão apaixonante, envolvente e reconfortante - isso e uma série de cenas quentes marcadas por abdominais, peitorais e rabos bem esculpidos." 

: "É ousado mas acho que era impossível terem feito melhor, principalmente se tivermos em conta os detalhes desta produção canadiana low-budget. Jacob Tierney provou dominar o campo da realização. Para qualquer “cromo” de cinema (eu incluída), é encantador olhar para a dimensão técnica desta produção. A fotografia, a beleza e o jogo de luzes com que as cenas de sexo são feitas, a banda sonora e, claro, a perfomance dos actores, é inquestionável. Principalmente se mantivermos presente a ideia de que contaram com um orçamento significativamente inferior ao que é comum a qualquer produção americana. Afinal, quantas de nós acreditámos até ao fim que o Connor Storrie (Ilya) era um actor russo? É difícil não ficar seduzida com o facto de este jovem de 25 anos fazer um monólogo em russo e ser praticamente inegável o domínio da língua, que aprendeu de propósito para este papel. Não falo sequer de como essa cena me destroçou emocionalmente. Estou só a falar de como é tecnicamente perfeita. Acredito, também, que esta série consegue algo raríssimo actualmente, que é trazer mais complexidade a uma narrativa do que aquela que está presente nos livros que a inspiraram, mas sobre isto não me posso alongar porque ainda não li os livros da Rachel Reid." 

Matilde Azevedo Neves: "Sempre fui fã de comédias românticas. No entanto, nos últimos anos, substituí When Harry Met Sally ou Pretty Woman por comédias românticas queer, como Bros, Fire Island e Heartstopper. Sendo uma mulher heterossexual, revejo-me no tipo de relação que procuro no universo televisivo queer, onde o desejo, a sexualidade e o amor não estão colados a papéis de género. E onde modelos de masculinidade tóxica são vistos negativamente. Ao contrário das romcoms clássicas, onde o homem detém o poder, financeiro ou emocional, sobre a mulher, ou do arquétipo recorrente do homem perdido que precisa de uma mulher que o salve, estas narrativas propõem algo diferente. Esses modelos não espelham a sociedade em que queremos viver, nem representam o desejo feminino do século XXI. Nestes romances, um cuida do outro, um cresce com o outro, e surgem diferentes modelos relacionais que não passam necessariamente pelo casamento ou pela procriação. Devemos ver Heated Rivalry (Rivalidade Ardente) porque é uma história sobre amor, esperança, beleza e relações humanas baseadas na compreensão e no perdão, num mundo cada vez mais polarizado, triste e pesado. Precisamos de ver representações de masculinidades saudáveis. Precisamos de ver amor, relações de equidade e não de poder. Precisamos de nos lembrar de que, sem preconceitos, o mundo seria muito mais bonito."

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