30 anos de Wannabe: antes de sabermos o que era feminismo, já sabíamos cantar isto
As Spice Girls não ensinaram uma geração de raparigas a encontrar o príncipe encantado. Ensinaram-nos a encontrar-nos umas às outras - e, pelo caminho, a nós mesmas.
Este é um daqueles momentos que acontecem na vida de uma jornalista em que agarro num tema sem deixar mais ninguém aproximar-se e, imediatamente a seguir, entro em pânico. Os 30 anos de lançamento da canção que mais ouvi. A síndrome do impostor instala-se com uma eficácia impressionante. Parece que nunca escrevi uma linha na vida. Nem sequer sei bem como me chamo. Porque que raio posso eu acrescentar sobre um grupo de mulheres que mudou radicalmente não só a minha infância, mas a de milhões de pessoas? Tudo o que escrever parecerá pequeno. Repetitivo. Básico. E, no entanto, essa é precisamente a atitude que as Spice Girls passaram anos a ensinar-nos a combater.
O que significam para cada uma de nós é um assunto pessoal. Mas há uma coisa que foi universal: deram-nos um coro. Um código. Um idioma comum que atravessou escolas, países e gerações. Ensinaram-nos que era bom ter personalidade, que havia várias maneiras de ser rapariga e que nenhuma precisava de pedir desculpa por existir. Que os rapazes podiam ser giros, claro, mas primeiro vinham as amigas. Que podíamos subir para cima das mesas, mascar pastilha de boca aberta, fazer barulho e ocupar espaço.
"I'll tell you what I want, what I really, really want." Hoje parece apenas o verso de uma canção. A 8 de julho de 1996 foi uma geração inteira de raparigas a aprender que podia querer qualquer coisa. Eu tinha oito anos, alguns quilos a mais e uma autoestima ainda em construção. Mas no dia em que decidi que era a Baby Spice, deixei de ser a miúda gordinha da turma. Passei a ser a Baby Spice. Parece uma diferença ridícula. Não era.
Organizava concertos no recreio com um vestido branco cheio de limões e um microfone de brincar. Sabia as melodias todas e praticamente nenhuma letra. Não fazia ideia do que significava feminismo, patriarcado ou representação. Mas sabia exatamente quem era quando aquelas músicas começavam.
Só muito mais tarde percebi que aquilo que eu julgava ser apenas pop era também política. Porque Wannabe é uma canção extraordinariamente inteligente. Começa como se fosse uma típica música de amor. "If you wanna be my lover..." e, durante um segundo, pensamos que sabemos onde aquilo vai. "...you gotta get with my friends." De repente, o rapaz deixa de ser o centro da história. A prioridade são as amigas.
Foi por isso que, anos mais tarde, quando li o professor Joel Gray dizer que existe uma tendência para considerar as Spice Girls "um produto pop demasiado açucarado", quando na verdade "tinham uma dimensão muito mais punk", me apeteceu responder: claro que sim!!! Porque o punk nunca foi apenas uma estética. É uma atitude. E há poucas coisas mais punk do que uma girl band que, no auge dos anos 90, decide que a sua primeira grande declaração ao mundo não é sobre um homem, mas sobre uma irmandade.
É difícil explicar hoje o quão revolucionária esta ideia era para uma girl band dos anos 90 (ao mesmo tempo que parece que estamos a retroceder perigosamente a essa era...). A maior parte da música pop dirigida a raparigas ensinava-nos a esperar por alguém. Wannabe ensinava-nos a escolher quem ficava. Não era uma canção sobre conquistar um homem. Era uma canção sobre nunca perdermos as mulheres da nossa vida por causa de um. Num mundo profundamente misógino, há poucas coisas mais punk do que isto.
No entanto, ainda hoje existe uma tendência para tratar as Spice Girls como um produto demasiado colorido para ser levado a sério. Cinco raparigas de plataformas gigantes, vestidos de licra, estampados de leopardo e refrões impossíveis de esquecer dificilmente encaixam na imagem tradicional de um manifesto político. Terá sido também esse um golpe de génio? Enquanto toda a gente olhava para as plataformas, elas estavam a vender independência. Enquanto toda a gente discutia vestidos, elas estavam a falar de amizade feminina. Enquanto pareciam inofensivas, estavam a ensinar uma geração inteira de raparigas a ocupar espaço sem pedir licença. Os meus pais jamais podiam imaginar...
Até a estética fazia parte da revolução de independência. Sabiam que Spice Girls não tinham stylist quando gravaram o vídeo de Wannabe? Escolheram e compraram a própria roupa. Cada uma construiu a sua personagem quase como uma criança monta um disfarce: fitas no cabelo, crop tops, fatos de treino, animal print, ténis, plataformas, vestidos com a Union Jack. Era exagerado, caótico e profundamente divertido. E era uma forma de dizer que não existia uma maneira certa de ser mulher. Havia cinco - Melanie Brown, Melanie Chisholm, Emma Bunton, Geri Halliwell e Victoria Beckham - e nenhuma era melhor do que outra. Hoje isto parece óbvio. Em 1996 não era.
É claro que a história nunca é assim tão simples. As Spice Girls também eram um produto. Foram idealizadas por homens. Venderam bonecas, mochilas, perfumes e lancheiras. Transformaram o Girl Power numa máquina de marketing que gerou milhões. Ignorar isto seria ingénuo, mas reduzir o fenómeno Spice Girls a uma operação comercial é igualmente simplista. O marketing explica vendas, não memórias. Não explica porque é que Billie Eilish, Dua Lipa, Taylor Swift ou Adele cresceram a falar delas como referência. Há uma história contada pela Mel C: quando conheceu Adele num concerto dos Coldplay, a cantora desatou a chorar. "Porque é que a Adele está a chorar?", perguntaram-lhe. "Porque acabou de me conhecer."
Além de nos fazerem chorar (odeio-te Geri!!), as Spice Girls fizeram uma coisa extraordinária: pegaram numa ideia que vivia sobretudo em círculos feministas e transformaram-na numa linguagem pop acessível a milhões de raparigas que nunca teriam lido um manifesto. Talvez seja o motivo para algumas académicas lhes chamarem um dos primeiros exemplos de feminismo comercial. Não estou a dizer que não têm razão.
Mas também é verdade que nem todo o feminismo chega através dos livros. Às vezes chega através de um refrão, de uma coreografia mal aprendida no recreio, de cinco raparigas que nos disseram, antes de qualquer professora, jornalista ou ensaísta, que podíamos ser exatamente quem quiséssemos. Não eram perfeitas. Nem precisavam de ser. Também nunca nos pediram perfeição. Pediram-nos apenas que fizessemos tudo tão bem como - ou até melhor do que - os rapazes.
Hoje, enquanto fazia pesquisa para este artigo, deparei-me com um título do El País: "Wannabe: hino feminista ou êxito pop sobrevalorizado?". Soltei um berro. Daqueles que só uma rapariga consegue compreender. O meu primeiro impulso foi indignar-me; o segundo foi escrever este artigo; o terceiro foi perceber que a pergunta fazia todo o sentido. Trinta anos depois, ainda estamos a discutir se as Spice Girls eram apenas pop descartável ou se estavam, afinal, a fazer política. Isso, por si só, já diz muito sobre o impacto que tiveram - e o mundo em que ainda vivemos.
A minha resposta a essa pergunta é, no final, muito simples. Ponham a música a tocar. Num casamento. Num escritório. Numa festa. Na cozinha lá de casa. Observem o momento em que duas mulheres - mesmo que nunca se tenham visto antes - sorriem uma para a outra e começam a cantar. Durante três minutos deixam de ser estranhas. São cúmplices. São amigas. Têm oito anos outra vez. Trinta anos depois, continua a acontecer. E se isto não é um hino feminista, sinceramente, não sei o que poderá ser.
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