A minha filha saiu de casa há um ano e preocupa-me não a ver feliz. Conseguiu arranjar trabalho na área que estudou, vive sozinha num apartamento que escolheu e tem alguns amigos, embora tenhamos a ideia que não está muito com os amigos. Quando nos visita mostra sempre alguma apatia a falar da sua vida. Apesar de nunca ter sido muito extrovertida, esperava vê-la mais animada com a vida aos vinte e oito anos. Como podemos ajudar a nossa filha a ser feliz?
Cara Natália, desde já a felicito pela sua mensagem e atenção para com a vossa filha. Parabéns por ela, uma vez que refere estar a trabalhar na área que escolheu, o que é certamente motivo de alegria familiar. Relativamente à felicidade da filha, é importante acima de tudo ver com ela se efetivamente se sente feliz, ou melhor, se sente satisfação com a vida que tem e a pessoa que é, e mesmo perguntar em que medida vocês, enquanto pais, a podem ajudar ou contribuir para mais bem-estar. Sobre a Felicidade é importante referir que nem sempre sorrisos ou extroversão significam mais bem-estar ou felicidade. Nos estudos da felicidade percebemos que as pessoas mais felizes, de modo geral, conseguem tendencialmente um equilíbrio ótimo entre a experiência de emoções positivas (como a alegria, contentamento, humor positivo ou amor) e um propósito de vida (ter um sentimento de pertença a algo maior, uma causa, algo em que acredita, seja o humanismo, uma religião, uma ideologia política e/ou outra). Este é um equilíbrio dinâmico (ninguém está sempre no topo do seu bem-estar), pelo que podemos passar por fases em que não estamos a viver tantas emoções positivas assim - há momentos na vida em que sentimos mesmo alguma tristeza, e é importante encará-la e resolvê-la, mais do que “atirar para trás das costas”, pois só assim podemos voltar a encontrar esse espaço de bem-estar que todos procuramos. Por outro lado, podemos passar por momentos de dúvidas em relação ao que acreditamos ou perseguimos (muitas vezes falamos em crises existenciais), e isso pode também ser muito positivo a médio longo prazo, no nosso desenvolvimento pessoal ao longo de toda a vida. O desafio será encontrar o melhor equilíbrio nesta dinâmica em contante balancear. Alguns estudos referem cinco dimensões a ter em atenção quando falamos de felicidade e bem-estar: experienciar emoções positivas, fluir (termos atividades no dia-a-dia em que nos envolvemos de tal forma que, não só nos fazem esquecer do tempo a passar, como ainda nos reforçam na forma como nos percebemos), realização (cumprir pequenos objetivos no dia-a-dia ajuda-nos a ter um sentido de gratificação), relações positivas (trata-se da nossa capacidade de criar e manter algumas relações significativas, entre amigos e/ou familiares, mas também relações gratificantes no trabalho e comunidade), para além de cultivar um sentido de vida, como já foi referido. Naturalmente que estes dados não podem ser considerados como uma receita, mas sim como um convite à reflexão partilhada em família. O importante será começar por partilhar com a filha o vosso sentir, clarificar se assim é, e ver soluções que partirão essencialmente da filha, e que só ela poderá perceber a ajuda que eventualmente sente necessidade: seja na família, entre amigos ou mesmo recorrendo a um profissional de psicologia. Será certamente importante perceber o vosso apoio e disponibilidade, dando espaço para as suas decisões e fases, mais ou menos oscilantes, inerentes à vida.