Posso ser solteira e feliz?

Sou solteira e vivo sozinha, num apartamento que adoro...

29 de julho de 2015 às 14:51 Dra. Catarina Rivero

Sou solteira e vivo sozinha, num apartamento que adoro. Tenho tido um percurso profissional na área do design de que gosto muito, e que me permite ter uma vida simpática e sem stresses financeiros, para além de ocupar o meu tempo livre com aulas de dança, yoga, voluntariado, cultura e amigos. Enfim, tenho a vida que quero. Tenho tido alguns namorados, mas que não têm dado certo, o que para mim não é nenhum drama… gosto mesmo da vida que tenho. O que acontece é sentir-me pressionada por família e amigos, e chego a ser criticada, como se tratasse de algo profundamente errado estar solteira aos 35 anos. Contudo, são tantas pessoas a dizerem-me que me devia "resolver" que começo a duvidar… será que ser solteiro é um problema? Ou poderei ser feliz sem partilhar a minha vida? Iva, 35 anos, Porto.

Cara Iva, felicito-a pela forma como procura preencher a sua vida e ainda sentir-se bem com o modo como tem feito o seu percurso.

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Cada vez mais em Portugal, há jovens que optam por viver de forma autónoma durante um período de tempo, independentemente de quererem ou não vir a constituir uma família no sentido tradicional do termo. Vivem sós ou dividem apartamentos, mantendo a relação com a família de origem. Se bem que esta ‘fase’ ou forma de vida tem vindo gradualmente a ser aceite na cultura portuguesa, são muitos os jovens que começam a sentir alguma pressão externa, nomeadamente pela família, colegas de trabalho e amigos, com particular relevo a partir dos 30 anos. Quando falamos de filhos únicos, esta pressão da família pode mesmo ser mais forte, com a expectativa da família para que se "dê continuidade"…

De modo geral, a sociedade tende não só a exercer pressão sobre os solteiros como, caso prolonguem este estado civil no tempo, a considerar estas pessoas como imaturas emocionalmente, pouco flexíveis e muito independentes. É interessante verificar, de acordo com alguns estudos, que estas atribuições aos solteiros são ainda mais evidentes quando falamos de solteiros de 40 anos, quando comparados à avaliação de solteiros de 25. De modo geral, os solteiros mais jovens são ‘preservados’, sobretudo se estão a dedicar o seu tempo aos estudos e/ou início de carreira.

É importante assim lembrar que ser solteiro não é doença. Mesmo quando a opção de vida passa por ficar só, este pode manter elevados níveis de bem-estar , tal como pessoas que vivem conjugalmente. Se bem que muitas vezes sejam considerados mais infelizes, e muitas pessoas beneficiem de um casamento feliz em termos de bem-estar, há muitos solteiros que se sentem felizes, com uma elevada satisfação com a vida. Tendem a ter mais disponibilidade e liberdade para as opções individuais ao longo do seu ciclo de vida, bem como mais tempo para se dedicarem ao trabalho e atribuírem a esta área da sua vida um maior significado. São também os solteiros que tendem a cuidar mais das relações de amizade, sendo que muitos amigos integram a família afetiva (tal acontece também nas pessoas que vivem conjugalmente, mas em menor percentagem). Porque um dos fatores importantes para o bem-estar são as relações significativas, esta é sem dúvida o grande desafio dos solteiros: manter e cuidar das suas relações importantes, e integrar as pessoas significativas nas suas rotinas, evitando assim uma eventual tendência para o isolamento.

Se ser solteira não é opção, mas por circunstância, é ainda importante que a vida não se centre exclusivamente em encontrar "a pessoa", mas que (tal como será útil para todos, independentemente do estado civil) mantenha diferentes objetivos e atividades com sentido para a sua vida.

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No caso de sentir que para si, a situação de solteira se torna um problema, quer por querer encontrar alguém, quer por sentir dificuldade em lidar com a pressão externa, pode ser de grande ajuda consultar um psicólogo clínico que a poderá a ajudar neste processo de gestão de emoções e relações.

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