O jogo de críquete que pôs fim a 142 anos de exclusividade masculina nos Tests do Lord's
Quando, no passado dia 10 de julho, as seleções femininas de Inglaterra e da Índia entraram em campo no Lord's, em Londres, não estavam apenas a disputar um jogo de críquete. Estavam a fazer história.
O dia em que se deixou de contar apenas metade da história
Foto: GettyImages15 de julho de 2026 às 12:29 Margarida do Carmo / Com Patrícia Domingues
"Custa-me acreditar que este seja o primeiro Test feminino disputado em Lord's." A frase partilhada pelo selecionador da Índia, Amol Muzumdar, na conferência de imprensa que antecedeu o jogo, resume o sentimento de surpresa geral. Incluindo o nosso.
Conhecido como a "maior casa do críquete" a nível mundial, o Lord's recebeu o seu primeiro Test - o formato mais prestigiado e tradicional da modalidade, disputado entre seleções nacionais ao longo de vários dias - em 1884. Desde então, tornou-se um palco quase mítico para gerações de jogadores. Para as mulheres, as portas já se tinham aberto (apesar de poucas vezes) para jogos mais curtos, mas nunca tinham disputado um Test. A estreia aconteceu agora, quase 150 anos depois.
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Para quem não entende nada de críquete nem acompanha a modalidade, esta pode parecer uma notícia irrelevante. Mas a verdade é que o que se presenciou neste estádio vai muito além do desporto. É mais uma celebração das “primeiras vezes” das mulheres em espaços que existem há séculos.
As mulheres não chegaram agora ao críquete: o primeiro clube feminino, o White Heather Cricket Club, foi fundado em 1887 e em 1958 nasceu o International Women's Cricket Council, dedicado ao desenvolvimento da modalidade. Já em 1973 realizou-se o primeiro Campeonato do Mundo Feminino, dois anos antes da estreia da versão masculina. Ainda assim, o palco mais emblemático do críquete demorou mais de um século a receber um Test feminino.
O desporto feminino vive um momento de crescimento como nunca antes foi visto. Os Jogos Olímpicos de Paris em 2024 foram os primeiros da História a alcançar a paridade entre atletas. Segundo dados da UN Women sobre mulheres e desporto, 50% da população tem interesse em desporto feminino - um crescimento de 5% relativo a 2022. À medida que as audiências aumentam, os patrocinadores começam a olhar para novas modalidades e o interesse do público continua a subir. Mas, ainda assim, as oportunidades continuam a ser escassas.
1º Women's Rothesay Test Match: Dia 1
Foto: GettyImages
Antes mesmo do início da partida, Clare Connor, responsável pelo críquete feminino da Federação Inglesa, antecipava o peso deste momento para o desporto feminino. "O Test é uma experiência rara e extremamente desafiante no críquete feminino. Sei o orgulho que as nossas jogadoras sentem por representar a Inglaterra neste formato. Para as 11 mulheres que terão a oportunidade de ser as primeiras a disputar um Test em Lord's, será um momento inesquecível", revelou no comunicado à ECB, England and Wales Cricket Board.
O marco acabou por ser ainda mais forte para a Índia. Além de vencer o primeiro Test feminino disputado em Lord's, a equipa deixou uma marca permanente naquele estádio. As indianas tornaram-se as primeiras mulheres a ver os seus nomes inscritos no histórico Honours Board, um reconhecimento reservado às grandes exibições individuais.
Talvez o verdadeiro sinal de progresso chegue no dia em que estas conquistas deixem de ser notícia. Quando ninguém achar extraordinário ver mulheres a disputar um Test em Lord's, a dirigir uma grande equipa ou a participar na final de uma grande competição internacional. Até lá, celebramos cada primeira vez como um lembrete de que ainda há muito caminho a percorrer até à igualdade, sempre com a esperança de que não sejam precisos mais 142 anos.