Não sei dizer o que me passou pela cabeça. Estava no parque de estacionamento do hipermercado, fazia um calorão demoníaco. Isto foi em julho. Eu tinha acabado de carregar a bagageira com tudo o que é essencial, além do que é supérfluo e dois filhos adolescentes consideram fundamental. Tinha sido um dia de trabalho daqueles que se colam à pele, com o calor e o suor e o ar abafado, quase tropical. Sentia-me cansada, desidratada, suada, suja. E recebi uma mensagem do meu marido a dizer “não te esqueças da Tamyia”. É uma cola. O passatempo dele é o modelismo. Precisa daquela cola específica para colar peças minúsculas porque não sei quê.
A mensagem só dizia aquilo. Nem “por favor”, nem “olá, meu amor”, não agradecia, não sugeria, sequer, não perguntava se já tinha feito as compras, se já estavam pagas, se já as tinha carregado. O texto mandava simplesmente em mim, com uma instrução desleixada de quem não se preocupa com outra coisa que não a porcaria da cola para montar o diabo dos aviõezinhos de coleção. Senti-me desolada. Aquele pequeno gesto, uma desconsideração tão ligeira, como era possível fazer-me sentir assim, desimportante, irrelevante, humilhada?
O vento quente que soprava com força enchia-me os olhos de poeira. Diziam nas notícias que eram poeiras do deserto, que vinham do Norte de África. Sujavam tudo. E eu ali, de pé, no meio de um parque de estacionamento gigantesco e quase vazio, a ler e reler a mensagem do meu marido para tentar descobrir o que pensar dela. O sol, mesmo na sua fase descendente, queimava-me a pele e os lábios, estavam quase 40 graus às seis e meia da tarde. E foi então que começou a chover.
A minha reação foi a de alguém que não está bem. Em vez de me abrigar, de entrar no carro, sei lá, de reagir fazendo qualquer coisa, deixei-me estar no mesmo sítio, de pé. Com o telefone na mão e a bagageira aberta. E comecei a chorar. A chorar de pé, como se fosse um ser vivo com dignidade. Mas não era. E só pensava naquela frase cliché, “as árvores morrem de pé”, e ao mesmo tempo que chorava de desespero, ria-me da tolice de pensar nessa frase - “as árvores morrem de pé” -, ria-me e desejva morrer ali mesmo, proque afinal que raio de vida era aquela, o que é que eu estava ali a fazer. O que é que foi a minha vida nos últimos 16 anos? Era nisto que eu pensava, sem parar.
E não soube responder. Não me lembro da última vez que tomei uma decisão consciente no que respeita ao rumo a dar à minha vida. Fui, simplesmente, deixando que tudo me acontecesse. Fui confiando no meu marido, fui tendo filhos, fui criando essas duas criaturas ingratas e malcriadas. Fui aturando tudo. Fui enchendo o peito, engolindo respostas que não dei e devia ter dado, fui aceitando tudo como se fosse normal, como se fosse, de facto, aceitável. Fui enchendo o balão do meu próprio desespero, e agora faltava-me o oxigénio.
“Preciso de sentir alguma coisa.” O pensamento foi instintivo. Foi animal, foi mais forte, foi inexorável. Precisava de algum corpo no meu corpo. Precisava de alguém dentro de mim. Senti uma urgência enorme de ser penetrada. Nunca me tinha acontecida uma coisa assim. Já me tinha sentido estupidamente atraída por alguns homens, mas nunca antes desejara ser possuída por qualquer coisa fálica e viva, desde que conseguisse entrar-me no corpo.
Avistei um homem. Devia ter os seus cinquenta e tal anos. Olhei em volta, não havia mais ninguém. “Paciência”, pensei. Fui ter com ele. “Desculpe, posso pedir-lhe um favor?” Incrédulo, não conseguiu responder logo ao meu pedido. “Ouça, eu dou-lhe dinheiro. Tome, tem aqui 50 euros. Mas, por favor, eu preciso de fazer isto.” Perguntou-me se eu era louca. Disse-me que nunca tinha sido infiel à mulher em mais de sete anos de viuvez. “E eu é que sou louca?” Ripostei. Houve uma pausa. Ele contemplou, eu arfava. Eu ardia. “Vamos.”
No meu carro, no banco do pendura, foi ali mesmo. Em pleno parque de estacionamento do Continente, em julho, debaixo de um calor abrasador e enquanto caía chuva suja, cheia de poeiras do Saara. E eu dentro do carro, tudo a abanar, o homem muito aflito, “mais devagar, mais devagar, assim não aguento”, mas eu queria lá saber - eu estava possuída, eu era um animal, eu era uma besta.
Enquanto estava nisto, montada em cima do homem, veio-me a lembrança dos meus filhos à cabeça - então, agarrei nele pelos cabelos - fracos, escassos, ralos - e comecei a balançar ainda com mais força, mais fundo, mais rápido. Na minha cabeça, só queria um pensamento: que se lixem. Que se lixem todos. Hoje sou eu, hoje o dia é meu.
O pobre coitado não aguentou dois minutos, talvez nem um minuto, se calhar. Pediu-me desculpa. Pedi-lhe um cigarro. “Não fumo. Nunca fumei.” Agradeci-lhe na mesma. “Também nunca fumei, mas aposto que agora me ia saber bem.” Fiquei a olhar para o sol a descer, lá ao fundo, entre as nuvens de chuva e poeira, e eu a pensar como seria se estivesse a fumar um cigarro, enquanto sentia os fluidos a descer por dentro do meu corpo. Senti-me ainda mais suja, mas estranhamente leve - a minha alma estava lavada.
Peguei na carteira, voltei ao supermercado e comprei a cola para o meu marido. Comprei também uma caixa de gelados para os miúdos. Entrei em casa a sorrir. “Preciso de um duche, estou toda suja” - fechei-me na casa de banho e pus a água a correr. Foi o melhor banho que jamais tomei.