Dei por mim à beira da estrada, com uma mochila de campismo às costas, cheia, a rebentar pelas costuras, um saco de pano em cada ombro, ambos a transbordar de pequenos objetos e peças de roupa, e a minha cadela, a Edite, pela trela.
Pequenita, de pêlo irregular, às vezes encaracolado, outras vezes apenas espetado sem direção identificável, de cores difusas e sem correspondência numa pantone convencional, Edite era o fruto do acaso e dos ímpetos da natureza entre cães vadios. A pureza das raças, se algum dia existira na sua linhagem, perdera-se, por certo, no tempo há pelo menos oito ou nove gerações. Edite era também a minha companheira mais fiel e de maior duração: apanhei-a num caixote do lixo sete anos antes, era ela uma cachorrinha bebé.
A lealdade de Edite foi, para mim, naquele momento, a coisa mais preciosa da minha vida. Quando discuti com Cláudia pela última vez e lhe disse que ou ela mudava ou eu me ia embora, e depois quando Cláudia me respondeu “então vai” e eu comecei a enfiar roupas e objetos, critério, dentro da mochila de campismo e dos sacos de pano de levar ao ombro, Edite não saiu de ao pé de mim por um momento. Estóica, permaneceu ao meu lado, a tocar-me ao de leve, ora sentada, ora de pé, como quem diz “estou contigo para o que der e vier, vou contigo para onde fores”. Nunca, por um só momento, hesitou.
Vivemos todos juntos, eu, Edite e Cláudia, durante mais de três anos. Afeiçoaram-se uma à outra e sei que Edite gostava de Cláudia quase tanto quanto eu gostei. Porém, no momento da verdade, mostrou que há coisas na vida que não têm discussão nem disputa - são o que são. E ela era a minha cadela.
Nesse dia, o sol estava quente, ainda sem ser abrasador. Caminhei desde o apartamento de Cláudia até à residência estudantil, cerca de quatro quilómetros mais adiante, em direção ao mar. Arrastei-me, em esforço e a derreter-me em suor, mas não tive outro remédio senão caminhar com a trouxa às costas e a cadela pela trela. Não tinha carro e nenhum táxi, nenhum autocarro aceitaria transportar um cão. Deixar Edite para trás estava obviamente fora de questão.
Cláudia foi das pessoas mais singulares que alguma vez conheci. Não foi preciso muito para me apaixonar por ela. Foram precisos minutos, apenas. Talvez segundos. Vi-a e achei-a gira. Senti-me correspondido, acredito que me achou também interessante. Quando nos aproximámos, mais ou menos acidentalmente, disse-lhe que achava fascinante que ainda existissem pessoas que usassem calças à boca de sino. Ela olhou em redor. “Mas ninguém está a usar isso”, disse, e eu respondi “sim, mas no geral”. A minha recordação é vívida: a sua gargalhada no limite da deselegância, espontânea, brusca, quase animal. E, ao mesmo tempo, encantadora, verdadeira.
Tinha muitas verdades, Cláudia. Mas também tinha muitos segredos e recantos obscuros, inacessíveis. Não detestava que os tivesse. Foi, aliás, em alguns deles que habitei, espiritualmente e não só, durante boa parte do tempo em que as nossas vidas confluíram. Contudo, à medida que esses pontos negros e íntimos começaram a ascender à superfície e a revelar os contornos, houve algumas constatações que se tornaram assustadoras. Nem tudo era o que parecia. Ou, compondo melhor a frase, mesmo que tudo fosse o que parecia, os motivos para que assim fosse não eram claros. Pelo contrário: cheguei ao fim com a sensação de que tudo fora uma encenação concebida para camuflar as suas debilidades.
Nesse tempo, a monogamia era um tédio. Tanto para mim como para Cláudia, uma relação exclusivamente dedicada a uma determinada pessoa parecia ser um desperdício de tempo, de energia e de vida. Nunca tivemos esta conversa de modo aberto e explícito, nunca definimos limites nem fronteiras, mas fomo-nos apercebendo rapidamente de que seríamos mais felizes se não construíssemos uma relação convencional.
Certa noite, estávamos num bar em Olhão e eu vi uma rapariga muito gira. Devo ter olhado para ela com mais desejo do que seria de esperar e Cláudia apercebeu-se. “Gostas daquela chinesinha, Vasco?” Fiquei um bocadinho envergonhado, fui apanhado desprevenido. Ri-me. “Deixa que eu trato disso.” Saiu de ao pé de mim, aproximou-se da rapariga e, nem dez minutos mais tarde, estava de volta, de mãos dadas com a miúda. “Vasco, esta é a Maya, é brasileira, e hoje vai dormir em nossa casa.” Eu não sabia o que dizer. Ri-me, cumprimentei, bebemos, brindámos. Maya, a “chinesinha”, era linda. Descendente de japoneses, tinha um ar exótico e sofisticado. Era encantadora.
Alguns copos mais tarde, saímos para em direção ao nosso apartamento. Beijámo-nos pelo caminho, os três, à vez, em simultâneo, de várias maneiras possíveis. E em casa continuámos. Abrimos vodka e tequila, abrimos cervejas, entornámos algumas, outras bebemos ou vertemos por cima dos corpos nus ou semi-nus. Foi uma experiência. Foi inesquecível. E não foi irrepetível: no futuro, aconteceriam mais episódios semelhantes.
A expressão “wing-man” é usada para descrever aquele amigo que é o parceiro perfeito para nos ajudar na difícil tarefa da sedução de mulheres. Cláudia encaixava surpreendentemente nessa categoria, embora tivesse características distintas: não só era mulher, como era também a minha namorada. “Heterossexual com nuances”, era assim que se descrevia sempre que conhecíamos alguma rapariga interessante o suficiente para nos levar a novas experiências. Depois de Maya aconteceram outras, em tudo semelhantes à primeira. Saíamos, eu dava por mim distraído a contemplar alguém e a Cláudia saía para a caça. “Volto já”, dizia, ou então “espera, eu vou buscar”. Normalmente, voltava com a presa. Se não vinha entre os dentes, vinha pelos lábios.
Foi uma época meio louca e, em muitos momentos, um tempo quase feliz. Sentia-me vivo. Sentia-me estimulado. E sentia-me amado pela pessoa que estava comigo e que tudo fazia para que eu realizasse fantasias - e que me era essencial para que eu as conseguisse realizar, já que, sozinho, é certo que nunca seria capaz de seduzir muitas das mulheres com quem estive (com quem estivemos).
Só que estes ambientes e estes excessos transformados em rotinas trazem consigo danos colaterais. A desorientação, a atração que se torna mais intensa do que devia numa relação passageira, supostamente de uma só noite, os consumos tóxicos dessas noites loucas, as ressacas, algum ciúme, alguma dúvida. Aos poucos, fui percebendo que Cláudia usava aquelas práticas e aquele apetite voraz por sexo comigo e com outras mulheres em simultâneo para mascarar algumas carências e inseguranças. Estas relações fugazes e insignificantes eram uma forma de Cláudia se manter ativamente próxima de mim e de garantir que eu lhe dava atenção e amor. Ou, pelo menos, era assim que ela entendia a situação.
Compreender a sua postura e decifrá-la foi-me deixando menos entusiasmado com as nossas conquistas. Comecei a olhar para elas como um instrumento de controlo, uma ferramenta para me domesticar e manter por perto. Além disso, enquanto eu me afastei dos consumos mais nocivos, Cláudia parecia não abdicar deles para nada. Ao ponto de, mesmo no dia a dia, num quotidiano de normalidade e rotinas singelas, continuar a consumir como se fosse necessário. E, entretanto, para ela, era mesmo. Estava dependente.
Discutimos várias vezes - por causa dos vícios, claro, mas também porque, chegado a um ponto, eu já não queria ter mais relações aventureiras daquele tipo. Queria estar só com Cláudia, ou então deixar de estar com ela, totalmente e em definitivo. Não queria continuar a usar outras pessoas como camuflagem para uma série de problemas que tínhamos e para os quais não havia solução, ou, se havia, nós não a procurávamos.
Na última discussão que tivemos, enquanto gritávamos de uma divisão para a outra - ela sentada no sofá da sala, com várias risquinhas por aspirar sobre a mesa de vidro; eu no quarto, a enfiar coisas aleatórias na mochila de campismo -, chamei a Edite para ao pé de mim. Prendi-lhe a trela na coleira e depois assomei à porta da sala de mochila às costas e sacos de pano, um em cada ombro. “Cláudia, assim não consigo continuar”, disse-lhe. “Ou deitas essa porcaria toda fora ou eu saio por aquela porta e nunca mais volto.” Ela, esparramada no sofá, olhou para mim com olhos de vidro por trás de olheiras fundas e riu-se. Sentou-se, chegou-se à frente, fez um pequeno tubo com uma nota de 5 euros, olhou novamente para mim, inclinou-se para a frente e aspirou uma linha.
Enquanto percorria a estrada, sem alento, cansado, desiludido com a vida, em vez de pensar no que tinha acabado de acontecer, no fim de uma relação completamente tempestuosa para o bem e para o mal, lembro-me de ter sentido um conforto que me salvou da tristeza: a presença de Edite, minha fiel companheira, ao meu lado, sem questões nem exigências. Estar ali, era tudo o que importava para ela. Sorte a minha.