Trabalho há 15 anos como assistente social num serviço ligado à intervenção com crianças e jovens. Sempre gostei muito do meu trabalho e nos primeiros anos parecia que andava apaixonada, de tão feliz com o que fazia: o trabalho era desafiante o ambiente na equipa excelente. Desde a entrada da última diretora (há três anos), as coisas mudaram muito. O clima passou a ficar tenso, e sentimo-nos perseguidos, sem qualquer autonomia nem para pensar, para além de jamais sermos valorizados pelo que fazemos. Aumentaram os processos por técnico e não temos supervisão ou apoio. Muitos colegas saíram, mas eu não posso ir para o desemprego. Deixei de ter gozo naquilo que faço. Durmo mal e perdi o apetite. Sinto que já nem acredito no sentido do nosso trabalho. Perdi o entusiasmo e a motivação. Estarei em burnout? O que fazer?
Cara Carla, muitas vezes o nosso bem-estar pode ser comprometido pelo clima da organização em que trabalhamos, em conjunto com fatores individuais. O burnout é frequentemente uma realidade, nomeadamente no caso de profissionais de ajuda. Irei deixar algumas notas sobre o burnout, questões organizacionais e individuais.
São muitos os profissionais que, depois de um tempo prolongado em exposição a situações de muito stress profissional, entram numa situação de exaustão. Maslach e Leiter, investigadores de referência na área, definem burnout como "(…) o índice da diferença entre aquilo que as pessoas são e aquilo que têm para fazer. Representa uma erosão de valores, dignidade, espírito e vontade – uma erosão da alma". Identificamos então o burnout pela sensação de exaustão física e emocional, pela diminuição abrupta de motivação para novos projetos ou pela despersonalização, desligamento e cinismo nas relações com colegas e pessoas com quem se trabalha. Sente-se muitas vezes que não vale a pena investir, e perde-se a confiança nas suas capacidades profissionais, bem como nos outros. É assim uma síndrome multidimensional, que tem impacto não só a nível físico e emocional, como relacional.
O burnout tende a acontecer em profissionais muito motivados e empenhados, com um envolvimento forte e expectativas elevadas. Se tal pode ser positivo durante um tempo, e muito valorizado pelos demais, o risco de burnout aumenta. Robert Vallerand, um investigador que estuda a paixão pelas atividades, considera que existem duas formas de paixão, referindo que o burnout é também influenciado pela qualidade da paixão que sentimos pelo que fazemos. Se uma paixão harmoniosa nos permite viver com satisfação a nossa vida profissional e gerir frustrações que podem ocorrer (quer na intervenção, quer nas relações com colegas e chefias), investindo em outras áreas da vida, na paixão obsessiva há uma dedicação quase exclusiva ao trabalho, seja presencial ou mental, sendo que a identidade das pessoas deixa de ser dissociada daquilo que fazem, e é como se perdessem controlo da atividade (a atividade profissional passa a controlar a pessoa). De acordo com a sua investigação, os profissionais com paixão obsessiva estão em risco maior de sofrer burnout, estando muito envolvidos em atividades relacionadas com o trabalho (habitualmente (e não como excepção) levam trabalho para casa, estão constantemente em cursos e atualizações, participam em todas as atividades da organização, independentemente de tal retirar tempo à família, amigos, ou outros interesses, etc.) e menos em outras atividades (hobbies, desporto, amigos e família).
Não obstante se identificarem estes fatores de risco individuais para o burnout, a investigação refere que entre os principais fatores estão o excesso de trabalho, falta de controlo do trabalho que chega, recompensas insuficientes (também as financeiras, mas sobretudo a valorização do trabalho desenvolvido), falta de espírito de comunidade na organização, falta de sentimento de justiça no tocante à forma como os colaboradores são considerados e tratados ( e as diferenças entre eles, como será exemplo de atribuição de férias, dias ou outras facilidades), e conflitos de valores (entre os valores do profissional e aqueles que a organização pratica). Será assim fundamental a criação de culturas organizacionais que promovam o envolvimento (engagement) dos colaboradores, numa gestão participada e humanizada, que aposte na cooperação e evolução das capacidades individuais e coletivas, respeitando e valorizando a vida pessoal e social dos colaboradores.
Para os profissionais, a solução poderá passar por minimizar o impacto de uma cultura organizacional menos positiva ou mesmo tóxica. Por um lado, há o procurar cultivar relações positivas entre pares, nomeadamente colegas de equipa, que pode funcionar como almofada e ser mesmo uma dimensão motivadora para o trabalho a desenvolver. Por outro lado, será sempre fundamental, mesmo a título de prevenção, cuidar do seu bem-estar individual de modo a evitar que o ceticismo e eventual desesperança contaminem outras áreas da vida. Que hobbies pode praticar? Que atividades físicas? Mantém um contacto regular com amigos, incluindo amigos de outras áreas profissionais? Mantém encontros positivos com familiares? O que a move? Que causas segue no seu dia-a-dia? Como poderá fazê-lo? Por vezes sabemos que não basta acrescentar atividades positivas na agenda da semana. Pode ser útil recorrer a ajuda de um psicoterapeuta que a poderá ajudar a gerir as suas emoções e relações, bem como o projeto profissional, de modo a encontrar um equilíbrio ótimo com mais bem-estar.