Céline de Azevedo é a única designer de cor em Portugal ao serviço de uma marca de tintas. Vive rodeada de paletas e pantones e reafirma a cor como ferramenta terapêutica na decoração.
O design das cores
29 de junho de 2012 às 08:42 Máxima
Formou-se em França, em Artes Aplicadas e Artes Plásticas e cedo descobriu a sua vocação para a cor, levando-a a realizar o mestrado “As cores do centro histórico do Porto”. Céline de Azevedo concluiu o seu percurso académico na Universidade de Toulouse, com um diploma especializado - e único na Europa - em Design de Cor. Trabalhou com o mestre internacional e pioneiro na prática da cor, Jean Philippe Lenclos, em Paris, e desde 2004 é responsável pelo Design de Cor do Grupo Cin, o único em Portugal com este departamento integrado e especializado.
A galeria que ilustra esta entrevista foi exclusivamente selecionada por Céline para a Máxima.pt, com base nas suas escolhas pessoais, nas tendências de cor para este verão, nas conjugações de cores e design de objetos que a fascinam. Uma inspiração!
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O que faz uma designer de cor?
Um designer de cor trabalha numa dimensão prospetiva, está sempre atenta à evolução da sociedade, aos estilos de vida para prever o que serão os ambientes e as cores de amanhã. É um inspirador que abre novos caminhos em termos de escolha de cor. Concretamente, o meu trabalho consiste em criar novas cores, novas formas e propostas de conjugação de cores, construir coleções, conceber novas ferramentas de seleção de cor. O trabalho de designer de cor conjuga uma vertente muito criativa, na fase de projeto, a uma vertente técnica ligada à exequibilidade da cor, à representação e à produção das mesma no setor onde trabalho, o das tintas. Saliento sempre que a Cin é a única empresa do mercado que possui uma área de design de cor integrada na empresa há mais de 15 anos. É muito importante realçar este aspeto, pois isso demonstra a aposta contínua da marca na inovação e na criação.
Como é a sua rotina diária de trabalho?
Nenhum dia é igual ao outro mas, de uma forma geral, trabalho nos diferentes projetos de coleção e catálogos em curso: desde a conceção das cores ao lançamento do projeto final no mercado. Um dia posso estar numa fase de trabalho de atelier onde lido com mil amostras de cores para criar novas paletas, e no seguinte posso estar a tentar encontrar novas nuances que poderão ser as cores do próximo ano. Tratar da produção dos catálogos com os fornecedores, estar no departamento de R&D da Cin a examinar as cores, ou ainda visitar uma feira de design, são algumas das atividades que fazem parte da minha rotina.
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Descodifique o processo de definição do catálogo de Tendências anual e com que antecedência trabalha nisso.
É um trabalho muito importante para a Cin que começou a desenvolver nos anos 2000 uma “vontade de olhar mais além”. Nessa altura ninguém falava de tendências de cor, contrariamente ao que acontece hoje em que a palavra é utilizada de forma redundante para tudo. Poucas são as empresas como a CIN que investem na criação e no lançamento de novas cores todos os anos. Podemos afirmar que fomos pioneiros nesta área em Portugal.
Quando falamos dum catálogo como o das Tendências, estamos perante um projeto extenso que demora um ano a criar. É um trabalho diário, a respirar l’air du temps. A visita a feiras internacionais, a participação em workshops com líderes de opinião em tendências de cor, a análise da imprensa e das edições especializadas nesta área e a análise da evolução dos estilos de vida, ajudam-nos a definir quais serão as necessidades dos consumidores e, consequentemente, quais serão as cores do futuro para a casa. São fases essenciais no trabalho de criação e perceção da evolução das tendências de cor. Depois, reunimos toda a informação cromática e inspiracional acumulada durante o ano, e segue-se um trabalho de atelier onde construímos e criamos as coleções para o próximo ano. Existe a posteriori um trabalho rigoroso de desenvolvimento nos laboratórios da Cin onde as cores são estudadas na nossa gama de produtos, para além da conceção do design do catálogo e da produção dos materiais de cor para os pontos de venda.
A propósito do catálogo Home Stories, da Cin, podemos falar na cor como ferramenta terapêutica, que estimula o espírito positivo. Como? Quais os tons mais positivos?
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Sim, seguramente. A cor tem este poder fantástico de agir sobre o nosso estado de espírito e isso está relacionado com os efeitos fisiológicos e psicológicos das cores sobre nós. Todos os tons podem ser positivos, depende da forma e do contexto em que são aplicados. Reportando às tendências Cin deste ano, posso falar da nossa cor do ano, o Azul Bali! A cor turquesa é uma cor que transmite valores positivos. É refrescante, relaxante e maravilhosamente serena, melhorando qualquer espaço. É uma cor que irradia bem-estar e que produz uma vibração constante, que não subjuga ou perturba de forma alguma. É uma cor que nos anima a começar de novo com forças renovadas e ideias novas. A cor turquesa ajuda-nos a sermos mais comunicativos, sensíveis e criativos e, por isso, destacou-se este ano.
Quais os elementos determinantes na escolha de uma cor?
É muito simples: o contexto! Onde vai ser aplicada a cor? Com que luz? Com que decoração? Qual a função do espaço? O ideal é escolher sempre a cor no local onde será aplicada e à hora do dia em que se utiliza mais a divisão.
Como é que a orientação de cada divisão da casa influencia a escolha da paleta?
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A orientação influencia a escolha da paleta sobretudo por questões de luz. Espaços voltados a Norte, por serem mais sombrios e com uma luz mais fria, pedem cores quentes que iluminam e aquecem a nossa perceção do espaço. Por outro lado, espaços virados a Sul, e portanto mais beneficiados com a luz do sol, podem ser compensados com tons mais frescos porque, de facto, o uso da cor vai equilibrar a perceção e a própria iluminação do espaço.
Explique como é que a cor pode ser amiga do ambiente.
Se quiser poupar energia, aconselha-se a utilizar sempre cores claras ou nuances de brancos com acabamento ligeiramente mais acetinado. Pois as cores claras refletem a luz e assim os espaços necessitam menos de luz artificial.
Há cores mais difíceis de vender/aplicar do que outras. Quais e porquê?
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Diria que não, é tudo uma questão de gosto. Na Cin temos milhares de cores disponíveis para todos os gostos. Naturalmente cores escuras têm menos procura que nuances claras. É o medo de arriscar que está subjacente!
O branco ainda é a cor segura por excelência, que sugere limpeza e luminosidade? Ou os tempos são outros? Qual o novo branco?
Acho que o branco continua a ser a cor de excelência. É inegável que o branco é certamente a cor mais intemporal na área da decoração. Nunca é travado pela moda e pelas tendências. Ele está na decoração para ficar. Para mim, uma das grandes mudanças nestes últimos anos, é que passamos a pintar as paredes de cinzento e em todas as suas nuances. Há 10 anos era quase impensável. Hoje em dia é uma cor neutra e completamente integrada na decoração. Por isso, para falar de um novo branco, sugeria antes um novo cinzento!
É frequente dizermos que basta pintar uma parede de uma cor para mudar um ambiente. Mas as pessoas ainda resistem à mudança, têm medo de arriscar, ou já são mais ousadas?
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Acho que as pessoas são cada vez mais ousadas, essencialmente porque têm acesso a mais informação e mais inspiração. Hoje em dia o consumidor tem a chave para decorar sem medo. O universo da decoração evoluiu mesmo muito nos últimos anos e as tecnologias também. Hoje podemos encontrar muitas ideias na internet e partilhá-las com o mundo, simular as cores no próprio espaço, os fóruns de decoração também ajudam muito... Na Cin, temos um blog de decoração “CinDecor” com ideias e propostas para decorar a casa, e ainda o Simulador de Cor, no nosso site, que permite testar as cores com uma fotografia do espaço a pintar.
Renovar móveis com uma pincelada de cor é uma solução de reaproveitamento e decoração de ambientes. Dê pistas para se fazer a escolha da cor adequada.
É importante considerar a decoração do espaço onde vai inserir-se o móvel, a função que vamos dar ao móvel também será determinante e, por fim, o seu estilo é importantíssimo. Se é um móvel muito trabalhado, pode-se optar por uma cor única e neutra para realçar as molduras e a obra de carpintaria. Para um móvel com menos linhas pode-se brincar com as cores e jogar com o exterior e o interior do móvel.
Imagino que viva rodeada de cor no trabalho. Como é a sua casa? Quais são as suas cores de eleição na decoração?
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Há uns anos um amigo ao entrar na minha casa disse: “A tua casa é parecida com um filme do Almodóvar”. Ri-me muito nessa altura. As casas evoluem com as pessoas, e, nestes últimos tempos, os meus gostos para o interior da casa mudaram completamente para cores naturais e neutras combinadas com elementos coloridos, e claro, apontamentos de verde, uma cor que me acompanha desde sempre.
Tem alguma peça que a fascine só pela cor, independentemente da forma e função?
Tantas! Mas, essencialmente, diria duas áreas que me fascinam, me absorvem e me inspiram continuamente: a Arte e a Natureza, em todas as suas formas.
Há alguma cor ou tom que lhe dê sorte? Outro que influencie a sua produtividade, criatividade?
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O Verde, o verde, o verde…
Ainda é possível falar de cores femininas e masculinas ou a cor não tem sexo?
Não. Sinceramente, hoje em dia demos um passo na moda muito grande tanto no vestuário como na decoração, e não há tantos clichés. Já não é chocante ver um homem com uma camisola cor-de-rosa ou lilás, a parede de uma sala rosa pop … Existem, sim, combinações de cores que podem ser femininas e outras masculinas. Mas hoje em dia creio que a cor vista de forma individual não está tão sexuada como já foi em tempos.
Como se explica a força e o poder que uma cor pode ganhar numa estação? Lembro-me do sucesso do tangerine tango ou coral. Mencione outras.
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É o poder da globalização! Tudo começa no fio, quando a indústria têxtil e as grandes agências internacionais de previsão de tendências no vestuário decidem que a cor do ano será, por exemplo, o coral. O mundo assume uma posição de “seguidor”, e é assim que vemos aparecer nesta estação, em todas as lojas de vestuário, a famosa nuance de coral.
É interessante que nós na Cin tenhamos feito o oposto! Escolhemos como cor do ano a cor complementar ao coral: o turquesa, o nosso positivo azul Bali! Que, se repararmos, também está muito presente na moda deste verão. O sucesso destas duas nuances deve-se sobretudo ao facto de serem cores de verão, nuances de pedras preciosas e, sobretudo, de transmitirem valores muito positivos. Cores vivificantes e alegres. É o que precisamos todos para este verão!
Pode antecipar tendências para 2013?
Estamos a prepará-las e estão ainda em segredo… Mas serão sem dúvida cheias de surpresas sempre muito coloridas!