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Máxima

Moda / Tendências

Vestimo-nos de obras de arte durante uma semana – mas ninguém no escritório percebeu

Caminhámos entre secretárias como telas vivas, mas, num espaço cheio de olhos, faltou o essencial: ver. "How would they know?"

Service Center por Mark McMahon
Service Center por Mark McMahon Foto: Getty Images
30 de abril de 2026 às 17:14 Patrícia Domingues e Safiya Ayoob

Pink Tulip

Service Center por Mark McMahon
Pink Tulip Foto: Georgia O'Keeffe Museum / DR

Flores? Para a primavera? Escuso de terminar a frase - o cliché já se escreveu sozinho. Mas aqui não se trata de uma flor qualquer. Trata-se de Georgia O’Keeffe e da sua Pink Tulip: uma visão ampliada, quase íntima, que transforma o natural em algo simultaneamente abstrato e profundamente sensorial.

Entre 1925 e 1926, O’Keeffe pintou uma série de quatro tulipas que desafiaram o olhar convencional. As suas composições botânicas, ampliadas até ao limite do reconhecimento, provocaram leituras carregadas de simbolismo, sobretudo por críticos masculinos da época, que insistiram em ver nas curvas ambíguas ecos do corpo feminino. A artista, porém, recusou firmemente essa interpretação. Em 1939, afirmou: “escreves sobre a minha flor como se eu pensasse e visse aquilo que tu pensas e vês nela - mas não é assim”. Para O’Keeffe, a flor nunca foi objeto; foi convite. Um exercício de ver - e vestir - o mundo de forma diferente.

E é precisamente aqui que a moda como forma de expressão entra. Vestir-se como uma obra de arte para o escritório não é um gesto de excentricidade, mas de intenção. A peça-chave deste look nasce dessa lógica: uma gabardina em algodão cor-de-rosa da coleção Selection da Mango, leve mas estruturada, que funciona como tela e declaração. Por baixo, camadas neutras deixam espaço para que a cor fale, tal como o fundo silencioso das telas de O’Keeffe permite que a flor pulse com intensidade. Nos pés, sapatos verde-caule, um achado vintage quase acidental, resgatado de uma sapataria à beira do desaparecimento. Há algo de poético nisso — como encontrar arte onde menos se espera, ou como dar nova vida a algo que parecia esquecido. Custaram cinco euros, mas valem como manifesto.

 Composition à cercles, carrés et rectangles

Service Center por Mark McMahon
Composition à cercles, carrés et rectangles, 1933, de Sophie Taeuber-Arp Foto: © Arp Museum Bahnhof Rolandseck, photo: Mick Vincenz

Como tornar um look aparentemente simples em algo mais? Foi este o pensamento que tive quando pensei neste look. Foi também este o pensamento de Sophie Taeuber-Arp quando criou as suas obras, entre elas Composition à cercles, carrés et rectangles, de 1933.

"O desejo de enriquecer e embelezar as coisas não pode ser interpretado de forma materialista" é uma frase que Taeuber-Arp escreveu em 1927, em Guidelines for Drawing Instruction in the Textile Professions. Em Composition à cercles, carrés et rectangles, a artista organiza círculos, quadrados e retângulos sobre um fundo escuro, como se criasse uma espécie de partitura visual. As formas dão estrutura à composição e o resultado parece, ao mesmo tempo, ordenado e móvel, quase como peças de um jogo que poderiam ser rearranjadas. A obra reflete também o contexto da artista. Nos anos 1930, Taeuber-Arp reduziu as suas composições a formas básicas - círculos, segmentos de círculo, retângulos e quadrados - utilizando cores fortes com parcimónia para guiar o olhar do espetador. A pintura é uma investigação sobre harmonia, ordem, movimento e liberdade dentro de regras simples. Mostra como elementos mínimos - o círculo, o quadrado, o retângulo e poucas cores - podem criar uma experiência visual rica, musical e dinâmica.

É com esta ideia em mente que surge a combinação destas duas peças. A saia da coleção Selection da Mango, que à primeira vista parece simples, apresenta uma tonalidade mais escura, mas tem muito mais a acontecer. A cintura baixa - um elemento que brinca com o passado e com uma tendência contemporânea - acrescenta uma nova dimensão à forma, tal como Taeuber-Arp fazia nas suas composições. A cor escura e neutra é transformada por este detalhe, mantendo a seriedade da peça, mas sem nunca perder aquele elemento de moda que queremos. A parte de cima, uma camisa também da coleção Selection da Mango também parece simples, revela igualmente uma brincadeira com as formas. Com os lados abertos e fios para apertar, permite criar uma ilusão de formas e volumes, acrescentando movimento e interesse visual ao look.

The Policeman’s Daughter

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The Policeman’s Daughter Foto: Paula Rego Studio

Paula Rego cria The Policeman’s Daughter em 1987 como quem abre uma janela para um interior que nunca é apenas doméstico. Uma jovem inclina-se sobre uma bota militar alta, polindo-a com uma dedicação que não é exatamente submissão, mas um gesto suspenso entre o cuidado e a fricção. A bota, demasiado grande para o corpo que a segura, ocupa o espaço como uma presença de autoridade silenciosa: paterna, estatal, inevitável.

A composição nasce de um tempo atravessado pela memória da ditadura portuguesa e pelas suas pequenas pedagogias invisíveis de poder. Aqui, a autoridade não entra pela porta - já está dentro de casa, na escala, na rigidez do couro. Ao lado, um gato observa. É vigilância, é cúmplice, é dúvida. O corpo da jovem, tenso e quase coreografado, vem de uma referência inesperada - uma pose inspirada numa fotografia de Robert Mapplethorpe, carregada de ambiguidade.

O estilo figurativo, frequentemente descrito como “belo grotesco”, funciona aqui como um guarda-roupa emocional: nada é totalmente decorativo, nada é apenas narrativo. Tudo veste algo que não se vê imediatamente. E é nesse espírito que este look se constrói.

A camisa em algodão da Mango Selection assume-se como estrutura - quase arquitetónica - sem se deixar partir. Há rigidez, mas não rigidez absoluta: dois atilhos permitem moldar, ajustar, negociar a silhueta como quem negocia autoridade. As calças balloon, com base acetinada e pormenor de pinças, introduzem o desvio contemporâneo: volume onde se espera contenção, leve brilho onde se espera sobriedade. São uma resposta moderna a uma história antiga de disciplina, como se o corpo dissesse que já não obedece de forma linear.

No fundo, este conjunto não ilustra a obra. Habita-a. Tal como na pintura de Rego - ou numa secretária de escritório bem vivida - há sempre uma tentativa de ordem que nunca se completa por inteiro.

Jeune Femme au miroir

Service Center por Mark McMahon
Jeune Femme au miroir, 1876 Foto: Artsy

Ao olhar para Jeune Femme au miroir, de Berthe Morisot, o que mais me interessa não é apenas a imagem de uma mulher diante do espelho, mas a forma como a artista transforma um momento íntimo - e tão comum - numa cena cheia de presença. A figura parece estar num instante de preparação, entre o gesto quotidiano e a construção da própria imagem. Há delicadeza, como também consciência. 

Foi essa tensão que quis trazer para este look. A base é aparentemente simples: uma t-shirt clara, umas calças pretas e uma gabardine, tudo da Mango Selection. No entanto, cada peça acrescenta uma camada diferente à composição. A t-shirt, por ser uma sobreposição de duas partes de cima, deixa de funcionar como uma peça básica. Cria profundidade, textura e a ideia de algo que está a ser construído aos poucos, tal como a imagem da jovem na pintura, que surge entre tecidos claros, reflexo e gesto.

O trench-coat é o elemento que transforma o look. Pelo tamanho, corte e presença, torna-se quase uma moldura à volta do corpo. Em Morisot, o vestido claro da figura ocupa grande parte da composição e cria uma sensação de movimento leve, quase inacabado, graças às pinceladas soltas da artista. Neste coordenado, a gabardine cumpre um papel semelhante: amplia a silhueta, dá dramatismo e faz com que o look ganhe impacto sem precisar de excesso. As calças pretas trazem o contraste necessário. Funcionam como uma base mais sóbria e contemporânea, equilibrando a luminosidade da parte superior e da gabardine. Esse contraste aproxima o look da pintura, onde os tons claros dominam, mas são interrompidos por zonas mais escuras que dão profundidade à cena.

Mais do que reproduzir literalmente a obra, este outfit parte da atmosfera criada por Berthe Morisot: um momento de elegância íntima, em que a roupa parece fazer parte de um gesto de autoconstrução. A pintura fala sobre olhar-se, preparar-se e existir num espaço próprio. O look traduz essa ideia para uma linguagem atual, onde peças simples ganham força através da escala, das camadas e da atitude.

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