Matilde Reymão: "Ouvir comentários de que não era magra ou alta o suficiente criou-me inseguranças"
Até num rosto como o de Matilde, o ideal imposto pela sociedade encontraria alguma mancha a retocar, uma ruga para preencher, algum traço a manipular. Nestas imagens, levamos esse caminho ao extremo – até porque a atriz de 26 anos tem planos opostos para a sua autoestima.
Cresceu rodeada de mulheres fortes, que a ensinaram a olhar para o que importa, a formar ligações fortes com as amigas, a dar valor às coisas certas. A pressão para uma beleza mais estanque só apareceu mais tarde, quando começou a trabalhar, ainda adolescente, e com a pureza própria da idade. Irmã mais velha e filha de pais separados, ganhou maturidade mais cedo do que as outras meninas e isso reflete-se na atriz que é hoje. Aos 26 anos, segura de si e das suas escolhas, não esconde que tem (sempre terá?) as suas inseguranças, mas sabe que o mais importante é saber desconstruí-las. “Quero que me seja permitido ganhar rugas, mudar as formas, e que isso seja visto como riqueza, e não como limitação,” explica. É também esse o nosso mote para o futuro.
Começaste a trabalhar em moda numa idade em que o corpo ainda está, de certa forma, a mudar. Como é que isso te afetou?
Tinha 15 ou 16 anos, por isso ainda havia muita inocência em mim. Fazia aquilo porque gostava genuinamente. Adorava fotografar, explorar esse lado e trabalhar como modelo. Nessa fase, tudo era muito leve, porque estava focada no que me fazia feliz e não pensava muito no olhar dos outros. Com o tempo, e com o crescimento, fui ficando mais consciente do meio e das suas exigências. E acho que, como em qualquer área, existem sempre opiniões, comparações e expectativas – e claro que isso pode trazer algumas inseguranças, especialmente na adolescência. Ouvir comentários de que não era magra o suficiente ou alta o suficiente, mexeu comigo e criou-me inseguranças que antes não existiam. Fez-me crescer muito. Aprendi a filtrar melhor o que realmente importa, a confiar mais em mim e a não deixar que opiniões externas definam o meu valor. Hoje, olho para trás com tranquilidade, porque percebo que tudo fez parte do meu caminho. E quando decidi dar um passo maior e fui trabalhar para Londres como manequim, coisa que pensava não ser possível, correu muito bem. Senti-me muito bem recebida, e valorizada exatamente como sou. E de repente, no meio de tantos padrões e expectativas, percebi que o meu “tipo” de beleza, o meu lado mais natural e aquilo que me caracteriza, era a minha maior força e o que se destacava. Fez-me perceber que, muitas vezes, não se trata de não sermos suficientes, mas sim de estarmos no sítio errado. E que há sempre um lugar onde quem somos é reconhecido e valorizado.
Como olhas para esta nova fase da beleza em que tudo pode ser alterado e manipulado, logo a começar pelas ferramentas online?
Acho que é um tema muito atual e inevitável. Hoje, temos acesso a ferramentas muito boas para certas coisas, e faz parte deste novo universo da imagem. No entanto há o reverso, em que esta possibilidade de tudo ser tão alterado e manipulado acaba por criar uma realidade que não existe. Isto, especialmente nas gerações mais jovens, pode gerar muitas inseguranças, expectativas e comparações desnecessárias. Acabamos por ver imagens de mulheres que são quase irreais, e há uma tendência para querer chegar a um ideal que, na verdade, não existe. Essa ideia de “perfeição”, construída por imagens muito editadas, cria padrões inatingíveis. No fundo, leva as pessoas a sentirem que têm de ser algo que não são. É importante termos noção de que nem tudo o que vemos é real.
No caso das cirurgias plásticas, já deste por ti a pensar que mudarias isto ou aquilo?
Acho que é um tema muito pessoal. As cirurgias plásticas podem fazer sentido para algumas pessoas e devem ser sempre uma escolha individual, desde que venha de um lugar consciente e não de pressão externa. No fundo, acho que cada pessoa deve fazer o que precisa para se sentir bem consigo própria, e se isso passar por mudar alguma coisa, acho ótimo. No meu caso, claro que já me olhei ao espelho e pensei que poderia mudar uma coisa ou outra, mas nunca foi algo que sentisse como uma necessidade ou que quisesse, pelo menos por agora.
Tento focar-me em aceitar e valorizar aquilo que me caracteriza, a minha naturalidade e a minha identidade. E, claro, cuidar de mim também é importante. Tenho cuidados com a pele, por exemplo, para prevenir o envelhecimento e manter-me bem. No fundo, é sempre uma questão de equilíbrio, como tudo na vida.
Neste universo da beleza, que outras pressões já sentiste – internas ou externas – e como lidaste com elas?
Externamente, há expectativas, padrões e opiniões, seja do meio, das redes sociais ou até de comentários mais diretos. E internamente, acho que também somos nós que, em certas fases, nos questionamos mais e podemos ser mais exigentes connosco. Quando era mais nova, houve momentos em que me afetou muito, sobretudo nos comentários, na comparação e em certas opiniões que ouvi, como comentários depreciativos sobre o meu corpo. Lembro-me que uma vez me disseram que o meu cachet era inferior porque a outra pessoa estava “em forma” e eu não, mas a marca queria principalmente o meu perfil e estava a escolher-me porque gostava das minhas características. Só que ao mesmo tempo tinha alguém a dizer-me que não, porque não era tão magra, e a querer ditar o meu valor por isso, o que não me fazia sentido nenhum. Com o tempo fui aprendendo a lidar. Hoje tento focar-me no que é meu, na minha identidade e na forma como me sinto, sem me deixar levar tanto por essas pressões externas ou por comparações. Mas seria irreal dizer que essas inseguranças estão completamente resolvidas e arrumadas, porque não estão. Às vezes ainda tenho “o bichinho” a vir falar me à cabeça.
Sentes que na área em que trabalhas esse “bichinho” é especialmente cruel? Porque é que perguntamos às mulheres sobre o envelhecimento e aos homens nem por isso?
Acho que, durante muito tempo, houve formas diferentes de olhar para o envelhecimento em homens e mulheres e, na prática, ainda sentimos uma pressão maior do lado feminino. E é importante referi-lo, porque, muitas vezes, há um condicionamento que leva as próprias atrizes a achar que as suas carreiras terminaram. Só porque envelheceram. Mas quero acreditar que isso vai mudar.
O mais importante é olhar para o tempo como um aliado. Cada fase traz mais profundidade, mais histórias, mais verdade. Enquanto atriz, é isso que me interessa: poder crescer, transformar-me e continuar a encontrar novos espaços para me expressar.
Não quero estar presa a uma ideia fixa do que devo ser. Quero ter a liberdade de ser, só. De evoluir, com tudo o que isso traz. Não quero estar sempre a caber nos moldes do que querem ver. Quero que me seja permitido ganhar rugas, mudar as formas, e que isso seja visto como riqueza, e não como limitação. Eu sou uma mulher de mulheres, e acredito muito no valor das mulheres em todas as fases da vida. Há uma força, uma sensibilidade e uma capacidade de reinvenção que só cresce com o tempo. E isso merece ser celebrado.
São esses valores tentas que passar à tua irmã mais nova?
A minha irmã, apesar de ter 19 anos, é muito adulta, é uma supermulher cheia de valores e, muitas vezes, é mais ela a dar-me lições a mim. Mas o que tento passar-lhe é isso: confiança, autenticidade, leveza, amor. E também a importância de cuidar de si. O nosso corpo é o nosso templo. É importante que ela se sinta livre para ser quem é, sem pressões desnecessárias, mas com a consciência de que é preciso cuidar de si e da sua saúde. Tento que ela entenda que o mais importante é sentir-se bem consigo própria.
Quem foram e são as tuas referências de beleza (interior ou exterior)?
A minha mãe, a minha avó Helena e a minha tia charlinhas. Porque são mulheres gigantes. Cada uma com a sua importância. Mulheres que carregam um amor enorme e uma força imensurável dentro delas. Uma tríade que se completa e me fez ser quem sou hoje. A nível de beleza exterior também são uma referência. Mas o que está dentro é o que vejo. Sempre valorizei muito as mulheres e as referências femininas na minha vida e acho muito importante rodearmo-nos de mulheres que nos inspiram, que querem caminhar juntas e que nos fazem sentir seguras, em vez de em competição. E a verdade é que fui criada com uma enorme atenção ao que está por dentro, aos valores, à mulher que quero ser. E a beleza exterior nunca foi um tema central em casa, nunca houve essa conversa ou essa pressão. Falaram-nos sim do que levamos connosco e do tipo de pessoas que somos e queremos ser. Por isso, essa “pressão para a beleza” acabou por surgir mais tarde, já no contexto do trabalho.
O que gostavas que mudasse nos padrões de beleza atuais? E o que sentes que mudou para melhor (e para pior)?
Haver mais espaço para diferentes tipos de beleza, para imperfeições, para idades diferentes e para uma imagem mais verdadeira e menos construída. Gostava de ver mais naturalidade. O que sinto que mudou para melhor é precisamente essa maior abertura para a diversidade e para se falar mais sobre autenticidade e bem-estar, em vez de só aparência. Já se começa a valorizar mais isso. Por outro lado, há a comparação constante, estamos sempre expostos a imagens muito editadas e muito filtradas, o que pode criar expectativas pouco reais. Isso acaba por afetar especialmente as gerações mais novas.
Em que momento da tua carreira te sentiste mais plena e mais bonita?
Neste momento.
Equipa:
Fotografia: Frederico Martins
Styling: Sérgio Onze
Maquilhagem: Sara Fonseca
Cabelos: Alex Origuella
Retouching: Lalaland Studio
Assistentes de fotografia: Pedro Sá e Mateus Cunha
Assistente de maquilhagem: Ana Catarina Neves
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