Como o pilates me ajudou a reconstruir a relação com o meu corpo depois de um distúrbio alimentar
Depois de anos a associar exercício a punição e a viver obcecada com o espelho, encontrei no The Reformer Lab um lugar para me tornar mais forte, física e mentalmente. O 'boom' da modalidade pode explicar-se pelas redes sociais; o meu não.
Pode começar a revirar os olhos. Sim, este vai ser mais um daqueles textos sobre uma mulher que experimentou Pilates e agora acha que descobriu o segredo da felicidade. Também eu reviro os olhos sempre que leio um. Passei anos a desconfiar de qualquer obsessão coletiva que coubesse dentro dos meandros do capitalismo - embora, como qualquer pessoa com acesso ao Instagram, acabasse invariavelmente por lhe sucumbir semanas depois. Por isso, prometo apenas duas coisas. A primeira é que não lhe vou dizer para cancelar a inscrição no ginásio e correr para a aula de reformer mais próxima. A segunda é que isto não é, na verdade, um texto sobre pilates. É um texto sobre a forma como passei anos a usar o exercício para castigar o meu corpo. E sobre a modalidade que, inesperadamente, me ensinou a deixar de o fazer.
A verdade é que eu não fui ao pilates à procura de paz interior. Fui pelos glúteos. Depois de mais de uma década entre ginásios, aulas experimentais, personal trainers, desafios de transformação física e centenas - ok, talvez milhares - de agachamentos, a promessa de que uma máquina com molas podia fazer pelos meus glúteos aquilo que anos de musculação não tinham conseguido parecia suficientemente interessante para justificar uma aula experimental. Seis meses depois, quase já não penso nos glúteos. Penso muito mais na primeira vez, em anos, em que passei 50 minutos sem pensar na comida. Nem no espelho. Nem na culpa. Essa, afinal, foi a maior transformação.
Mas para explicar porque é que o The Reformer Lab acabou por se tornar uma das melhores partes da minha semana, tenho de voltar alguns anos atrás. Porque, muito antes de descobrir o pilates, eu já tinha uma relação complicada com o exercício. Tudo começou numa altura em que a minha vida parecia desmoronar-se. Tinha acabado de sair de uma relação e, como tantas mulheres, procurei uma forma de recuperar o controlo. Encontrei-o onde tantas de nós o encontramos: no corpo. Na altura, o Insanity era o programa de treino de que toda a gente falava. Prometia transformações radicais em 60 dias e eu, que sempre gostei de acreditar em planos com princípio, meio e fim, agarrei-me àquilo como quem se agarra a uma bóia. Funcionou. Treinava todos os dias. O corpo mudou. As pessoas reparavam. Eu recebia elogios e confundia-os com felicidade. Pela primeira vez sentia que tinha encontrado uma coisa em que era "boa": ser disciplinada.
Mas há uma linha muito ténue entre disciplina e obsessão. E eu atravessei-a. Comecei a viver em função do treino seguinte. Se não conseguia fazer exercício, sentia culpa. Se comia mais do que tinha planeado, compensava no ginásio. Tirava fotografias ao corpo constantemente, à procura de diferenças que, na maioria das vezes, só existiam na minha cabeça. Passei anos convencida de que, quando finalmente tivesse o corpo certo, tudo o resto se resolveria. Só que esse corpo nunca chegava.
Na altura, não lhe chamava distúrbio alimentar. Chamava-lhe "estar focada". Dizia que gostava de treinar, que era saudável, que tinha força de vontade. Demorei muito tempo a perceber que uma coisa deixa de ser saudável quando começa a ocupar demasiado espaço na nossa vida. É curioso como elogiamos tão facilmente mulheres que parecem ter um controlo absoluto sobre o próprio corpo. Ninguém pergunta quanto custa manter esse controlo. Ninguém vê a ansiedade antes de um jantar, a culpa depois de uma sobremesa ou a negociação constante entre aquilo que queremos comer e aquilo que achamos que merecemos comer.
Durante muito tempo, achei que o pilates era uma daquelas modalidades que nunca seriam para mim. Via-o como um universo demasiado perfeito, feito de estúdios minimalistas, roupas em tons neutros e mulheres que pareciam dominar o próprio corpo com uma facilidade que eu nunca senti. Ainda assim, à medida que o reformer começou a aparecer em todo o lado, também comecei a perguntar-me porque é que tanta gente estava a trocar os treinos de alta intensidade por uma modalidade que, durante anos, foi injustamente apelidada de "leve".
Quando comecei a pesquisar estúdios, havia um nome que aparecia constantemente: The Reformer Lab. Confesso que a minha primeira reação foi desconfiar. Parecia representar tudo aquilo que associava ao novo boom do Pilates: bonito, cuidado, aspiracional. Pensei que talvez fosse apenas mais uma forma de vender wellness embrulhado numa estética irrepreensível. Só percebi que estava enganada quando entrei pela primeira vez. O ambiente era exatamente tão cuidado como imaginava - a luz suave, a música discreta, as toalhas perfumadas, o café, os produtos de skincare - mas rapidamente deixei de reparar nisso. Bastaram alguns minutos em cima da máquina para perceber que toda a minha atenção ia ser necessária para sobreviver aos 50 minutos seguintes. Na minha cabeça, um treino só era um treino se envolvesse suor a escorrer pela testa, música demasiado alta e alguém a gritar "mais dez segundos!" enquanto eu me perguntava se estava prestes a desmaiar.
A primeira aula de reformer desmontou essa ideia em poucos minutos. A instrutora mostrou-me a máquina, explicou como funcionavam as molas e fez tudo parecer incrivelmente intuitivo. Não era. Os primeiros minutos foram uma sucessão de movimentos descoordenados. Ora puxava demasiado, ora demasiado pouco. Esquecia-me de respirar. Perdida entre inspirações, expirações e alinhamentos da bacia, comecei rapidamente a tremer de uma forma que nunca me tinha acontecido a levantar pesos. O mais humilhante (e mais inspirador)? Perceber que havia pessoas com o dobro da minha idade a fazer exatamente os mesmos exercícios com uma elegância quase irritante, enquanto eu me sentia um flamingo bebé a tentar aprender a andar.
Ao contrário dos treinos de alta intensidade a que estava habituada, ali não havia espaço para compensar um movimento mal feito com mais velocidade. Cada centímetro contava. Cada respiração tinha um propósito. Se desligasse a atenção por um segundo, a máquina lembrava-me imediatamente. Saí da primeira aula com os músculos a tremer e o ego ligeiramente ferido. Mas também com uma sensação estranha. Não estava ansiosa por saber quantas calorias tinha queimado. Nem curiosa para me pesar no dia seguinte. Pela primeira vez em muito tempo, saí de um treino a pensar na experiência que tinha acabado de viver, e não na aparência do meu corpo.
Voltei na semana seguinte. E depois na outra. Não porque tivesse descoberto um treino milagroso, mas porque havia qualquer coisa naqueles 50 minutos que eu não encontrava há muito tempo. Demorei algumas semanas a perceber o que era. No pilates, a minha cabeça calava-se. Não porque estivesse relaxada, mas porque estava completamente ocupada. Entre a respiração, o alinhamento da postura, o controlo do movimento e a resistência das molas, simplesmente deixava de haver espaço para o resto. Parece uma coisa pequena. Não é. Quem já viveu demasiado tempo dentro da própria cabeça sabe que 50 minutos podem parecer uma eternidade. Foi aí que percebi porque continuava a voltar. Não pelos glúteos. Nem pelo core. Mas porque, durante uma aula, conseguia existir sem estar constantemente a avaliar o meu corpo.
Só mais tarde, quando conversei com Isabella Céligny, fundadora do The Reformer Lab, percebi que essa sensação não era um acaso. Depois de mais de uma década a trabalhar em marketing e relações públicas, também ela acabou por repensar a própria relação com o movimento. Quis criar um espaço onde o exercício deixasse de ser apenas mais uma tarefa da lista de afazeres e passasse a fazer parte de uma experiência mais ampla de bem-estar. Um lugar onde as pessoas se sentissem bem antes, durante e depois da aula.
Enquanto a ouvia, percebi que era precisamente isso que me tinha feito regressar tantas vezes. Claro que o ambiente ajuda. O estúdio é bonito, acolhedor e pensado ao detalhe. Mas, ao contrário do que imaginei quando entrei pela primeira vez, não é isso que nos faz voltar. O que nos faz voltar é a forma como nos sentimos quando saímos de lá.
Só semanas mais tarde comecei a reparar noutras mudanças. Sentava-me de forma diferente. Deixei de acordar com a tensão habitual na zona lombar. O meu equilíbrio melhorou. E, sem dar por isso, comecei a subir as escadas de casa sem me apoiar no corrimão. Os glúteos também vieram. Ao contrário da ideia de que o pilates serve apenas para fortalecer o core, muitos exercícios de reformer recrutam intensamente a musculatura da anca e dos glúteos, melhorando a estabilidade e o controlo do movimento. Não substitui um programa de musculação para quem procura hipertrofia, mas ajuda a explicar porque tantas pessoas sentem o corpo mais forte depois de alguns meses de prática. Tem dúvidas? Marquem uma aula de Booty Lab com a Joana no Estoril (ou marquem qualquer aula no The Reformer Lab, de verdade, pois há sempre uma looonga parte dedicada aos glúteos).
Confesso que continuo a achar graça ao facto de ter começado esta história por vaidade e de acabar a contá-la por um motivo completamente diferente. Os glúteos foram o pretexto. O que encontrei acabou por ser muito mais difícil de medir ao espelho. Durante demasiado tempo, olhei para o meu corpo como uma lista de afazeres de um projeto eternamente inacabado. Havia sempre qualquer coisa para corrigir. Perder mais dois quilos. Definir mais um músculo. Eliminar mais uma imperfeição. E sabem qual é o problema das listas? É que nunca acabam.
Ainda há dias em que me apanho a analisar fotografias ou a desejar que umas calças me assentem de outra forma. Ainda vivo numa sociedade que nos lembra, todos os dias, como um corpo feminino "deveria" parecer. A diferença é que essa voz já não fala sozinha. Agora existe outra. Uma que pergunta coisas diferentes. Como é que o teu corpo se sente hoje? Dormiste bem? Consegues respirar melhor? Sentes-te mais forte? Há seis meses não conseguias fazer este movimento. Hoje consegues. Não são perguntas revolucionárias. Mas mudam o lugar de onde olho para o meu corpo.
Quando comecei a treinar, queria um corpo de que gostasse mais. Hoje quero um corpo onde goste mais de viver. É essa a verdadeira razão pela qual continuo a voltar ao The Reformer Lab todas as semanas. Não porque ache que o pilates é o melhor treino do mundo. Nem porque acredite que toda a gente devia trocar o ginásio por ele. Continuo a achar que não existe um exercício perfeito. Nem o pilates não curou a minha relação com o corpo - isso seria uma promessa impossível. Ainda há dias bons e dias maus. Ainda há momentos em que o espelho fala mais alto do que eu gostaria. Mas ensinou-me uma coisa que nenhum treino de alta intensidade conseguiu durante mais de uma década. Que mover o corpo pode ser um ato de cuidado e não de punição.
Um corpo não serve apenas para ser visto. Também serve para ser habitado.