Sobreviver a dias cinzentos
Conviver com emoções sombrias é uma competência e uma arte que se descobre, muitas vezes, em momentos difíceis.
A vida é para ser bem vivida. Para o comum dos mortais, o lema traduz-se em cultivar uma disposição alegre e contagiante, fechando os olhos ao impacto das contrariedades, acontecimentos e conflitos pessoais. A tendência popularizou-se de tal modo no estilo de vida ocidental que, ao mínimo desaire, se fica com a impressão de estar perdido, a navegar contra a corrente.
Estados de humor primários como a raiva, a melancolia, a frustração, a ansiedade e o medo, que em circunstâncias legítimas são naturais e até transformadores, tendem a ser vistos como fantasmas a exorcizar, e depressa, para impedir o risco de exclusão social. No limite, corre-se o risco de atrofiar a existência, privando-se de alcançar patamares mais ricos, que nos tornam mais humanos. As emoções perturbadoras não têm de ser as más da fita, sobretudo se permitirem um autoquestionamento saudável e conduzirem a mudanças importantes, em períodos críticos.
“Percebi que tudo é temporário e deixei de levar tão a sério as contrariedades quotidianas"
“O céu caiu-me literalmente em cima da cabeça.” A sentença abateu-se sobre Sónia Vieira, 38 anos, quando recebeu inesperadamente a notícia da morte do marido, num acidente de viação. Tinha uma postura altiva, uma vida social agitada, bem sucedida e raramente se permitia “estar em baixo”. De um momento para o outro, entrou em colapso. “Foram semanas de impotência e revolta.” Nos primeiros meses de luto, não queria ver ninguém e fechava-se no quarto, assaltada por sentimentos de culpa: “Nos últimos dias não tivemos momentos nossos, ele assoberbado com trabalho e metido com os seus pensamentos, eu envolvida com as tarefas de mãe e as rotinas do escritório."
O regresso ao trabalho aliviou temporariamente a dor da perda, mas assim que Sónia entrava em casa, ao final do dia, voltava a solidão e o sentimento de ter sido abandonada a um destino injusto, após dez anos de vida em comum. “Se não tivesse o meu filho não sei como teria sido”, acrescenta. Por ele, sentiu-se impelida a renascer das cinzas. Aos poucos, reciclou gavetas e armários, pintou o quarto, vendeu o carro do casal. Arranjou forças que nem pensava ter e tratou das burocracias. Substituiu as plantas mortas por novas e comprou o gato que o menino, então com sete anos, há muito lhe pedira. E nesse processo lento, “demasiado penoso e solitário”, começou a sentir-se não apenas “a viúva” mas uma nova mulher: “Percebi que tudo é temporário e deixei de levar tão a sério as contrariedades quotidianas."
RECOMENDAÇÕES DE…
Andreia Moniz, psicóloga na Psicodam
· Sentir emoções negativas é necessário: é um sinal para alterar o comportamento face a uma situação ou pessoa; mau é alimentá-las
· O melhor conselho: é o que vem de dentro, alicerçado numa relação saudável ou terapêutica; ninguém faz o seu percurso sozinho
· Emoções em dia: saber parar diariamente para reflectir, ter um passatempo, amigos confidentes e contacto com a natureza
E exemplifica: “Se não lavar a loiça hoje, lavo amanhã; quero chegar ao fim do dia e certificar-me de que não preciso de ser tão exigente e perfeita, com prejuízo do que me faz sentir viva.” As mudanças vieram de forma natural: os serões laborais deram lugar a mais tempo de partilha com o filho, voltaram os encontros semanais com amigas de quem se tinha afastado por questões de pouca importância. “Nada pode preencher este vazio, mas enfrentá-lo ajudou-me a seguir em frente, com menos julgamentos e certezas.” E com outras prioridades. Sónia afirma ter-se tornado mais sensível às necessidades alheias e dedica parte do seu tempo livre ao voluntariado, numa instituição de solidariedade social: “Só depois de passar por esta experiência pude ver como, sem me dar conta, me tinha fechado numa redoma de conforto e funcionalidades e a vida é bem mais que isso.”
A ciência considera as emoções como uma espécie de bússola de orientação interna, pela sua finalidade adaptativa. Porém, nem sempre é fácil lidar com o vasto leque de estados de espírito que pautam o nosso quotidiano. Basta que surja um imponderável para que o mundo interior fique virado do avesso e agudize fragilidades ocultas. Prestar auxílio a doentes crónicos, por exemplo (seropositividade, doenças mentais e outras degenerativas), revela-se um enorme teste de resistência. O equilíbrio desejado é posto à prova no primeiro embate com a realidade.
Que o diga a enfermeira Ana Campos Reis, 57 anos, directora da Direcção de Apoio à Inserção e Bem-Estar: “Inconscientemente, interioriza-se a angústia dos utentes e nem sempre se consegue separar os assuntos de família dos do trabalho.” A raiva e a ansiedade são as emoções mais difíceis de gerir, até porque “as pessoas tendem a segurar-se ao que é menos bom”. Mas mesmo nas situações trágicas, salienta Ana, há sempre forma de valer-se de recursos não valorizados até então: “A tragédia da perda de um filho, que deixa uma dor inqualificável, pode atenuar-se cultivando a ideia de que ele foi o mais feliz dos meninos, enquanto viveu.” Sempre que se lhe deparam obstáculos na vida pessoal, Ana Campos Reis não abdica de explorar a dimensão espiritual associada à experiência: “Cada um encontrará a sua receita, o seu fiel da balança, mas é preciso dizer que a espiritualidade empresta aos problemas humanos caminhos insondáveis.”
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Negar a presença das pressões que nos afectam (das mais triviais às mais complexas) ou reagir desmedidamente a elas de forma persistente compromete seriamente a vida pessoal e profissional, sem contar com eventuais danos físicos (sistema cardiovascular, imunitário, etc.) e mentais (dependências químicas e comportamentos de risco). O apego, ou sentimento de posse, é o sentimento negativo que mais sofrimento e transtornos causa, assegura Paulo Borges, 50 anos, professor de filosofia da União Budista.
“Quando um afecto não é correspondido ou em face de uma separação, por exemplo, o apego transforma-se em aversão, ódio, ressentimento pelo outro, mas o que isso esconde resume-se a um desejo de felicidade meramente individual.” O docente da Universidade de Lisboa adverte para o risco das promessas de gratificação pessoal (riqueza, prazer, poder, prestígio, segurança exterior) fomentadas na sociedade, por manterem as pessoas na ficção criada pelo pensamento positivo, “entendido em termos mágicos, o que parece contribuir para a insegurança e a depressão”. A alternativa mais salutar, remata, consiste em “entrar a fundo em si mesmo, encarar as experiências emocionais difíceis de frente, pensar que não se é o único a passar por elas e que nada dura para sempre”.
A confirmar isto mesmo, Miguel Souto, 34 anos, prepara-se para mais um dia imprevisível. Conhecido pelos amigos pelo seu espírito invencível e racional, tinha a vida planeada ao minuto e tudo o que um homem da sua idade poderia desejar: um posto de liderança no departamento comercial de uma multinacional, um carro da empresa, uma vida estável e bem sucedida. Até ao dia em que lhe foi comunicada a extinção do posto de trabalho, decidida pela administração, que entendeu concentrar serviços na sede, em Espanha.
Com uma indemnização e uma carta para o subsídio de desemprego no bolso, viu-se privado do pilar em que a sua vida fora construída. “Quem és tu agora, Miguel?”, interrogou-se, enquanto arrumava os pertences do gabinete que estava prestes a deixar e antes de despedir-se dos colegas. O pânico tomou conta dele. “No início fiquei completamente paralisado, incapaz de pensar no que quer que fosse durante alguns dias.” Raiva, muita raiva, foi a etapa seguinte. “Evitava os noticiários à hora do jantar para não entrar em estado de sítio e suportava menos ainda encontrar pessoas que estavam bem; era como se o mundo estivesse contra mim.”
SIM, MAS... Emoções negativas ao espelho . Medo? Legítimo, mas não se ate de pés e mãos . Frustração? É chato e mói, mas precisa agarrar-se a isso? . Humilhação? Dói, mas ajuda se voltar a assumir riscos . Raiva? Ok, mas sem a máxima "olho por olho, dente por dente" . Decepção? Faz parte, mas a capacidade de confiar também
Emoções negativas ao espelho
. Medo? Legítimo, mas não se ate de pés e mãos
. Frustração? É chato e mói, mas precisa agarrar-se a isso?
. Humilhação? Dói, mas ajuda se voltar a assumir riscos
. Raiva? Ok, mas sem a máxima "olho por olho, dente por dente"
Desempregado e despojado dos sinais exteriores de riqueza que lhe davam um certo sentido de si, era-lhe intolerável receber a namorada em casa, sobretudo quando a via chegar do trabalho: “Houve alturas em que nem conseguíamos fazer amor, tal era a sensação de derrota, de inutilidade.” Deixou de sair à noite para não ter de abordar a sua nova condição social com ex-colegas e companheiros de fortuna.
Um dia, farto de estar “esgotado, triste e rendido às agruras da vida”, aceitou o convite de um primo para passar uns dias na aldeia onde ambos tinham passado férias na adolescência. “De início, não fui capaz de negar-lhe ajuda nas vindimas, até porque tempo era o que não me faltava.” Voltar ao local onde tinha raízes levou-o a encarar a vida numa perspectiva radicalmente nova. “Deixei de estar viciado no relógio, no telemóvel, na angústia de viver sempre à pressa, com horas contadas para tudo e sem margem para desfrutar do presente.” Miguel ainda não encontrou um emprego com as condições do anterior, mas isso já não o deixa em estado de sítio, como antes. Há cerca de um mês, abriu actividade como independente e tem feito trabalhos pontuais no seu ramo de actividade. Mostra-se grato por ter, finalmente, mais tempo para namorar e, ironicamente, mais qualidade de vida. O futuro, traçado a régua e esquadro, foi substituído pelo objectivo de viver um dia de cada vez: “O que mais temia – ficar sem o controlo das situações – acabou por acontecer e, surpresa das surpresas, tornou-me um homem mais disponível e receptivo às surpresas dos dias.” Porque a vida é para ser bem vivida.