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Chorar faz bem e recomenda-se. Quem o diz é a ciência

Mas também o bem-estar de quem não vive, esporadicamente, sem uma boa “chuva de lágrimas”. Gera a catarse e um renascimento interior. Esqueça o que diz o mundo acerca do ato de chorar e solte, de vez, a Maria Madalena que há em si.

17 de fevereiro de 2020 | Pureza Fleming

Cry Baby é a canção original do grupo soul americano Garnet Mimms and The Enchanters, composta em 1963, que seria magistralmente interpretada por Janis Joplin (Port Arthur, Texas, 1943 - Los Angeles, 1970) e gravada no icónico álbum Pearl que foi publicado após a morte da cantora, em 1971. Lendo-se o título deste artigo torna-se difícil não se conseguir visualizar essa cantora hippie de longos cabelos enleados, de visual freak e característico da libertária década de 1960, dotada de uma voz potente e rouquíssima, a apelar ao choro através da citada canção, cuja letra e melodia compõem um clamor que vem de dentro e que é intenso, libertador, profundo e vigoroso. Como uma espécie de "Grito do Ipiranga" das emoções, a verdade é que chorar faz bem e recomenda-se. Ciências à parte, eu apelo à leitora que se tente recordar da vez mais recente em que chorou "como deve ser". Refiro-me àquele choro que surge das entranhas. Que irrompe de um lugar qualquer situado no mais profundo do nosso ser, um local que, muitas vezes, não sabemos sequer que existia. Depois tente recordar-se da sensação que sente após essa explosão. Aquela que surge quando a tempestade passa e que deixa apenas espaço para a bonança.

Há uns dias, estava numa fila quando me telefonou uma amiga. Eu tinha vivido uns dias algo complexos, daqueles que variam entre a fúria e a tristeza, como ser humano que sou. Isto não significa que eu tenha dificuldade em chorar. Muito pelo contrário. Naquele momento soube que se atendesse o telefone, os meus olhos iriam tornar-se um incontrolável tsunami de lágrimas. Dito e feito. Bastaram as três palavras "Está tudo bem?" para que, ainda que eu estivesse na fila de um supermercado, o choro irrompesse. Passado esse momento, surgiu uma sensação de placidez e de serenidade incontestáveis. Foi como se, de repente, tivesse sido lançada do inferno para o céu. Afinal, chorar faz bem e recomenda-se, e repetirei isto as vezes que forem necessárias. "O choro funciona como uma libertação, uma descarga das tensões internas, sejam estas quais forem", confirma Alexandra Rosa, psicóloga do Hospital Lusíadas Lisboa e da Clínica Lusíadas Almada, num artigo publicado no site daquele hospital.

Num estudo realizado pela Universidade do Sul da Florida, os pesquisadores concluíram que quase todas as pessoas se sentem melhor após uma crise de choro. E explicam que através das lágrimas expulsamos do organismo o manganês (o mineral que afeta o humor e que está ligado a atos de violência) e outros químicos que ajudam a reduzir o stress e a dor. Também o bioquímico William Frey, da Universidade de Minnesota, afirmou que chorar faz bem à saúde. Através de testes efetuados em pessoas, a equipa de Frey avaliou o sistema imunitário, os níveis de stress, a raiva e o humor. O objetivo era compreender os efeitos do choro. As conclusões não são de espantar: chorar melhorou o humor de quase 90% dos voluntários, fortaleceu os seus organismos e reduziu os níveis de stress. Além disso, as lágrimas contêm altos níveis de magnésio, de potássio e de prolactina, substâncias cuja produção ajuda a diminuir o "mau" colesterol, a controlar a tensão arterial e a fortalecer o sistema de defesas do corpo.

Numa entrevista ao The New York Times, em 1982, William H. Frey esclareceu: "O choro é um processo exócrino. Isto é, um processo no qual uma substância sai do corpo. Outros processos exócrinos, como exalar, urinar, defecar e suar, libertam substâncias tóxicas do corpo." E, perante tal, concluiu: "Há todas as razões para se pensar que o choro faz o mesmo, libertando substâncias químicas que o corpo produz em resposta ao stress." Na época, Frey olhou para essa pesquisa como um caminho para se entender a base bioquímica da emoção e as mudanças nos estados emocionais. E sugeriu ainda que "ao medir o que sai do corpo em resposta à emoção, podemos descobrir o que está a acontecer no cérebro".

Num outro estudo efetuado pela mesma universidade, deslindou-se que o humor melhora substancialmente após um jorro de lágrimas: 88% das pessoas sentiram-se aliviadas depois de chorarem. A sensação de pós-choro traduz-se, assim, por uma sensação de bem-estar generalizada que pode ajudar a aliviar a tensão e  a libertar alguma energia acumulada.

Chorar é humano

Em 1872, Charles Darwin afirmava que o choro era "um incidente tão sem propósito quanto a secreção de lágrimas provocadas por um golpe exterior ao olho". O naturalista, geólogo e biólogo britânico desvalorizava a capacidade emocional deste processo fisiológico, ignorando que o mesmo envolve o sistema límbico (localizado no cérebro e responsável pelas emoções). Acontece que, de acordo com o psicólogo holandês Ad Vingerhoets, os seres humanos são os únicos animais a produzir lágrimas emocionais. Além destas, diariamente libertamos lágrimas basais em pequenas quantidades e que são responsáveis por manter a córnea lubrificada e, ocasionalmente, lágrimas reflexivas que acontecem quando os olhos reagem a uma partícula estranha, tais como os vapores de uma cebola cortada ou uma luz forte. Estas são semelhantes na sua composição química: água, sais minerais e gordura. No entanto, as lágrimas emocionais contêm mais proteínas, pelo que são mais viscosas: este fator reduz a velocidade a que correm pelo rosto, ajudando-as a cumprir a missão de serem vistas pelos outros para com eles criar laços. Diríamos, sem constrangimentos, que chorar é um ato humano no sentido mais humano da palavra. E começa logo no nascimento, pois a primeira reação que um bebé tem logo que nasce é chorar, ainda que o choro lhe seja provocado. As suas lágrimas significam que o bebé está vivo e, à partida, de boa saúde. E a função do choro continua por mais uns bons pares de meses. Um recém-nascido não sabe falar e usa o choro como forma de comunicação em diversas circunstâncias, como quando tem fome, por exemplo. Através do choro e na ausência das palavras que ainda não é capaz de proferir, o bebé consegue obter o que deseja e fazer as suas exigências.

Chorar é um ato natural até deixar de o ser. Que é como quem diz, até começarmos a ganhar consciência e passarmos a olhar para este gesto humano e natural como um sinónimo de fraqueza e de diminuição. A (triste) realidade é que nem todas as pessoas choram. Um estudo sobre o tema, efetuado pela Universidade de Kassel, na Alemanha, tentou entender se entre as 120 que foram as pessoas analisadas, as que nunca vertiam lágrimas eram menos sociáveis. E a resposta foi afirmativa. Além disso, também essas pessoas tendiam a experienciar sentimentos mais agressivos, tais como a raiva ou a ira. Uma outra investigação feita em Utreque, na Holanda, concluiu que 22% das pessoas com síndrome de Sjögren (uma doença autoimune que se manifesta, entre outros sintomas, pela secura dos olhos) têm "significativamente mais dificuldades" em identificar os seus sentimentos. Na Holanda, um estudo demonstrou que homens e mulheres dariam mais apoio emocional a alguém que estivesse a chorar, embora os primeiros julgassem de forma menos positiva alguém que chorava ? o tal "calcanhar de Aquiles" que carrega o choro.

Outro estudo mostrou que os homens eram mais apreciados quando choravam, o mesmo sucedendo com as mulheres quando não choravam. "Devido à nossa cultura de não premiar a expressão emocional masculina através do choro, os homens ainda apresentam alguma contenção. Mas quando se sentem confortáveis, quando estão num espaço onde isso lhes é possível, não creio que haja qualquer diferença em relação às mulheres", deslinda a psicóloga Alexandra Rosa. Como as glândulas lacrimais dos homens são maiores, eles derramam lágrimas a menor velocidade e conseguem disfarçá-las melhor. As diferenças hormonais também justificam as possíveis discrepâncias de género. Pelo menos 47 vezes por ano para as mulheres e sete vezes para os homens: a testosterona pode inibir os homens de chorar, enquanto a prolactina (uma hormona que estimula a produção do leite materno), que está 60% mais presente nas mulheres, pode promover o choro. Géneros à parte, chorar continua a ser testemunhado com um sintoma de fragilidade e de vulnerabilidade e são muitas as mulheres que passam anos sem chorar de forma copiosa. Nem mesmo em filmes. Filomena Domingues, psicóloga clínica, assegura-nos: "Chorar em filmes é sinal de saúde mental." E mantém, se dúvidas ainda houvesse: "Chorar não pode ser visto como um sinal de depressão. É preciso que outros fatores entrem na equação, tais como a apatia, o desinteresse geral pela vida, o não dormir ou o dormir em demasia, para que uma crise de choro seja associada a uma depressão." Quando questiono esta psicóloga sobre o conselho que daria a quem apresentasse dificuldades em chorar, diz-me, entre risos: "Que vejam os filmes do [realizador] Nicholas Sparks." Como diria o psiquiatra britânico Henry Maudsley: "A tristeza que não encontra escape nas lágrimas pode fazer os outros órgãos ‘chorar’." E com esta citação poderíamos dar início a um outro tema, aquele que relaciona a contenção das emoções com as doenças físicas, como é o caso do cancro.

A falta de espaço na página obriga-nos a ficarmos por aqui e a deixarmos esse tema para uma outra edição. Em suma, sempre que tiver desejo de chorar, seja esse desejo motivado pela felicidade ou pelo desgosto, em público ou em privado, chore. A catarse que o choro propicia é muito salutar. E se acaso sentir vontade de o fazer e não conseguir, damos-lhe um conselho: assista à cena do filme Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, realizado em 1988, em que o personagem Salvatore "Totò" Di Vita (Jacques Perrin) assiste, no escuro de uma sala de cinema, à projeção emocionante da montagem feita com as cenas de beijos que haviam sido guardadas após a censura do pároco da vila, muitos anos antes. Isto ao som da inebriante banda sonora de Ennio Morricone e do filho Andrea Morricone. Depois irá sentir-se serena, de bem com a vida e, sobretudo, muito humana.

Saiba mais Comportamento, O poder das lágrimas, Cry Baby, Port Arthur, Janis Joplin, Garnet Mimms and The Enchanters, Texas, Los Angeles, Pearl
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