Prazeres

O sexo dos vizinhos é melhor do que o meu?

E se lhe dissermos que, afinal, a sua felicidade sexual não depende só do seu parceiro mas sim dos casais sexualmente felizes que a rodeiam? Descubra mais uma variante do provérbio em que se afirma que "a galinha da vizinha é melhor do que a minha"

Janela Indiscreta (1954)
Janela Indiscreta (1954) Foto: D.R.
26 de fevereiro de 2020 | Dulce Garcia

Um estudo da Boulder University, no Colorado, concluiu que a sensação de satisfação sexual depende daquilo que julgamos ser a vida íntima de quem nos rodeia. Ou seja, quanto mais sexo julgamos que os outros fazem, menos realizados nos sentimos com a nossa performance e vice-versa. Passemos a exemplos: se fizermos sexo três vezes por mês e imaginarmos que os nossos vizinhos do quinto esquerdo só praticam uma vez a cada trimestre podemos sentir-nos verdadeiros deuses do erotismo; mas as mesmas três vezes por mês comparadas com as quatro semanais que imaginamos serem comuns nos desavergonhados do prédio ao lado já nos atirarão para um grau de frustração inegável.

O que dizer então de pessoas que se mantêm em castidade forçada e vão morar para cima, para o lado ou para baixo – esqueçam os pensamentos laterais conspurcados que possam surgir, isto é para ser lido de forma linear – de casais acabadinhos de juntar os travesseiros ou parzinhos estupidamente libidinosos? Um inferno, é o que me garantem.

Isso explica por que razão Margarida, de 33 anos, teve de mudar de casa depois de tentar toda a espécie de negociações com os vizinhos do andar de cima e ainda fazer uma road trip com a cama XL por quase todas as assoalhadas do T2 simpático em Belém, Lisboa. “Quando fui viver para ali, tinha uma vizinha simpática de 30 anos que me cumprimentava nas escadas e que vivia com um tipo pacato que mal levantava os olhos quando passava por mim. Meses depois, separaram-e e ela arranjou um namorado novo. Gostava de sair à noite, coisa que não me incomodava nada. O problema é que ela e o novo amor chegavam a casa às quatro da manhã e começavam a fazer verdadeiras maratonas de Kama Sutra.”

Margarida começou por escrever bilhetes simpáticos que colocava, às escondidas, na caixa do correio da vizinha feliz. Explicou-lhe que respeitava muito a sua privacidade, mas, justamente por isso, pedia que fosse mais privada e não fizesse tanto barulho quando era suposto estarem todos a dormir, até os que contam carneirinhos para adormecer. As mensagens não produziram qualquer efeito.

A seguir experimentou mudar a cama para a sala, depois para o escritório e só não a moveu para a cozinha porque não havia espaço. Também não serviu de nada. “Comecei a ficar desesperada. Aos fins de semana, deitava-me às 22 ou 23 horas porque sabia que pelas 4 ou 5 horas ia acordar e já não conseguia dormir com aquela barulheira.” Chegou a pensar no problema como uma provocação divina. “Caramba, eu não tinha ninguém há quase um ano. Será que Deus era cruel ao ponto de me colocar perante aquele cenário para me fazer sofrer ainda mais?” Acabou por mudar de casa. E ainda não tem namorado.

Paula e o marido também começaram a pensar na qualidade – e, sobretudo, na quantidade – da sua vida sexual quando o vizinho, uma figura conhecida do meio musical mas discreta, até àquele momento, se divorciou e arranjou uma namorada nova. Os serões pacatos que aproveitavam para ver filmes e séries depois de deitar o filho de um ano passaram a ser momentos de tensão provocados pelo verdadeiro carnaval sexual que vinha do apartamento ao lado. “Primeiro rimos, depois zangámo-nos e por fim começámos a pensar que a nossa vida já tinha sido igualmente intensa e apaixonada e que agora parecíamos dois amigos pachorrentos sentados em frente à televisão com uma manta pelas pernas”, confessa Paula.

A gota de água foi o jantar de final de ano, em que convidaram dois casais de amigos e passaram a meia-noite a ouvir gemidos, gargalhadas e outros sons suspeitos, enquanto tentavam disfarçar os bocejos.

“Nessa noite, tive uma conversa com o meu marido e ele disse-me que nos últimos seis meses a nossa vida sexual tinha entrado em negativos. Confidenciou-me que só ainda não tinha puxado o assunto porque reconhecia que eu andava exausta, mas a situação estava a tornar-se insustentável. Sentia que tinha deixado de ser um homem atraente para ser apenas o pai do Tiago, um tipo sempre ensonado que trabalhava, ajudava nas tarefas domésticas e quase não se lembrava do que era um orgasmo.”

As comparações são perigosas. Marta e Miguel eram amigos desde a faculdade. Ela casou-se com Ricardo, ele começou a viver com Sónia. Tornou-se comum os quatro fazerem programas de fim de semana, como ir jantar fora, sair para bares e discotecas ou fazer maratonas de jogos de tabuleiro. Entretanto, Miguel rompeu com Sónia e apaixonou-se por Francisca, com quem parecia viver uma daquelas relações de filme. “Passavam o tempo colados, aos beijos, apareciam sempre de mão dada, tratavam-se por ‘meu amor’ e coisas do género. Aquilo começou a enervar-me imenso, mas de início não sabia definir o que me incomodava. Cheguei a pensar que eram ciúmes o que sentia e dei por mim a questionar se alimentaria, ainda que inconscientemente, alguma paixão pelo Miguel”, revela Marta.

Na verdade, e como lhe explicou a sua psicóloga, meses mais tarde, aquilo que se passava é que ela estava a refletir-se na nova relação do amigo. Usava-a como espelho e a imagem que lhe era devolvida da sua relação não parecia nada atraente. “Com a ajuda da terapeuta, compreendi que a separação do Miguel fez-me questionar o meu próprio casamento. E que a sua nova relação fazia com que a minha parecesse menos intensa, menos estimulante, totalmente desgastada.”

Marta esteve separada do marido durante um ano. Não conseguia aceitar que aos 28 anos já estava comprometida para a vida e que nunca mais experimentaria sentimentos tão efervescentes como observava nos outros – mais concretamente em Miguel e Francisca.

Nesses 12 meses em que esteve ‘solteira’, aconteceu-lhe algo que ela define como bizarro, mas fundamental para o seu crescimento. “Uma noite, saí para jantar com o Miguel e bebemos demais. Quando ele me foi pôr a casa, perguntei-lhe se queria subir. No fundo, queria estar com ele, queria saber até que ponto gostava de mim e, mais do que isso, perceber se seria capaz de lhe inspirar a paixão e o desejo que ele sentia pela Francisca. Sei que é estúpido, mas confesso que era isso que me movia. Acho que durante muito tempo a relação dele com a Sónia e a minha com o Miguel foram a medida do mundo para mim. E quando o vi experimentar algo tão diferente do que eu tinha, quis imitá-lo. Ou obrigá-lo a desistir disso.”

Miguel subiu ao seu apartamento, mas não se deixou beijar. Dois meses depois, Marta reconciliou-se com Ricardo. Só voltou a ver Miguel três anos mais tarde, grávida do primeiro filho. Estava num centro comercial, a espreitar uma livraria, quando se voltou e deu de caras com ele. “Cumprimentámo-nos, trocámos meia dúzia de palavras e qual não foi o meu espanto quando vi aproximar-se uma loura com um miúdo de uns sete anos pela mão e ele disse: ‘Marta, quero apresentar-te a minha mulher.’” Não era Francisca...

O meu sexo é melhor do que o teu

Tim Wadsworth, professor da Boulder University, analisou as respostas de mais 15.300 pessoas a questionários sobre a vida sexual, entre 1993 e 2006. O especialista concluiu que ter mais sexo faz-nos mais felizes, mas achar que fazemos mais sexo do que os outros ainda nos deixa mais satisfeitos...

- Os inquiridos que tinham feito sexo duas a três vezes no último mês revelavam um nível de satisfação 33% superior aos que afirmavam não ter praticado sexo no último ano. 

- Comparando-se aos que não praticaram sexo no último ano, os que o fizeram uma vez por mês admitiram um grau de satisfação 44% maior – o valor subia para 55% se tivessem relações duas a três vezes por semana. 

- Por outro lado, quem fez sexo duas a três vezes por mês revelou-se 14% menos satisfeito com a sua vida erótica quando se comparou a indivíduos que o praticaram uma vez por semana.

O que fazer para lidar com vizinhos barulhentos 

1. Comece por fazer um comentário inócuo quando encontrar um dos membros do casal na escada ou no elevador. Algo do género: “As paredes deste prédio são mesmo finas. Ouve-se tudo de um apartamento para o outro...”

2. Deixe um bilhetinho na caixa do correio. Se o caso for mais complexo, cole o mesmo bilhete na porta do apartamento. Assim, os outros vizinhos vão ler e o casal exuberante vai sentir-se envergonhado.

3. Quando começar a sessão de Kama Sutra no andar de cima, ponha a música mais pirosa que conseguir arranjar no YouTube. Pode ser que eles ouçam e que o som arrefeça o ambiente.

4. Ligue um eletrodoméstico, por exemplo o aspirador. Se não tiver mais vizinhos, opte antes por uma serra elétrica. A não ser que os dois sejam surdos, é quase certo que vão parar com o barulho, nem que seja por uns momentos, para perceber o que se está a passar em sua casa.

5. Cole um folheto do Ikea ou da Moviflor anotados, na porta de casa do casalinho, sublinhando que, a julgar pela banda sonora noturna, está na hora de trocarem de cama… 

6. Faça tanto ou mais barulho do que eles. Se não tiver par, grave sons de filmes pornográficos do YouTube e amplifique-os na sua aparelhagem.

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