Viagens

“Viajar é das coisas mais agressivas que podemos fazer. Nada nos é familiar enquanto estamos na estrada”

Como é a vida de uma viajante profissional? Quais os riscos e as benesses de quem não semeia raízes, mas antes as colhe? Miriam Augusto, fundadora da agência The Wanderlust, conta-nos tudo.
Por Pureza Fleming, 16.04.2018

Começou por viajar com a família, depois com os amigos e, por fim, a solo. Nos 30 países que visitou, já conversou com sobreviventes de guerra e deixou a sua pegada no deserto Mui Ne, no Vietname, já mergulhou na companhia de mantas gigantes, no Komodo (Indonésia), e já subiu até ao pico mais alto de Marrocos. Em 2014, decidiu partilhar as suas ideias e criou a The Wanderlust, uma agência de viagens que proporciona aventuras pelos quatro cantos do mundo, e que tem por base princípios de sustentabilidade.

Como nasceu a The Wanderlust? 

A The Wanderlust partiu da sugestão de um colega que viu os meus planos de viagem, superorganizados, em folhas de excel. Uma vez que preparava cada aventura ao detalhe, perguntou por que não começava a levar pessoas comigo. No início fiquei um pouco cética, porque viajo de mochila às costas – os chamados backpackers – e nós não recorremos a agências de viagem, nem viajamos em grupo. Contudo, uma vez que a nível profissional as coisas não estavam a correr como pretendia, comecei a pensar nessa possibilidade mais a sério. Entretanto, um amigo convidou-me para ir de férias com ele para o Vietname e eu vi ali uma boa oportunidade de fazer prospeção. Percorremos o país de norte a sul em três semanas. Voltei para Portugal, elaborei um itinerário, restabeleci os contactos que tinha feito na viagem, fiz parcerias e depois apresentei o programa a uma agência de viagens convencional. Queria testar o conceito, perceber se havia mercado, mas ao mesmo tempo ter a parte legal toda assegurada. A primeira viagem saiu em abril de 2014, precisamente para o Vietname, com seis viajantes. O feedback foi ótimo, percebi que resultava e avancei para a agência The Wanderlust em outubro do mesmo ano.

O que fazia antes de enveredar por esta aventura?

Licenciei-me em Química e depois tirei uma Pós-Gradução e Mestrado em Medicina Legal, na Universidade do Porto. Assim que terminei o Mestrado o objetivo era seguir para Doutoramento, na área da Neurotoxicidade – sou fascinada. Candidatei-me a várias bolsas e projetos de investigação sem ter um resultado favorável. Já estava na viagem pelo Vietname quando recebi um telefonema da Universidade de Trento, em Itália, a informarem-me que tinha entrado no Doutoramento de Neurobiologia. Como não me iam atribuir bolsa acabei por recusar e dedicar-me a 100% às viagens.

Sentiu algum clique (para a mudança de vida) ou um projeto como a The Wanderlust esteve sempre nos seus planos? 

Curiosamente, nunca disse que estou a viver um sonho, porque na verdade nunca sonhei com nada disto. Sempre quis ser cientista e desenvolver trabalho de investigação e foi para isso que sempre trabalhei. As viagens sempre foram uma paixão, mas nunca as vi como profissão. Nunca imaginei que um dia iria ser viajante profissional. O clique deu-se precisamente no momento em que já estava há demasiado tempo a tentar continuar ligada ao mundo da ciência, cerca de um ano depois de terminar o Mestrado. Costumo dizer que foi o fechar de portas e o abrir de janelas que me levaram onde estou hoje.

Como define o tipo de viajante que mais procura a The Wanderlust?

Os viajantes The Wanderlust são, por norma, pessoas apaixonadas por viagens. Têm mente aberta, boa energia, consciência ambiental e social e primam o contacto com os destinos de uma forma autêntica, seja em termos de natureza, população local, gastronomia... Procuram roteiros que lhes mostrem mais do que o "clássico" e gostam de ficar com uma visão geral do destino. Não os podemos definir por idades, mas sim por atitude e essa é boa onda!

A sustentabilidade é um dos princípios fundamentais da agência. Sendo os aviões uma das principais fontes de poluição do mundo, como gere esta preocupação?

É um facto e é uma das razões que nos levam a evitar esse tipo de transporte nos nossos itinerários. Sempre que possível fazemos tudo por terra, reduzindo a nossa pegada de carbono e poupando o bolso dos viajantes. No entanto, há situações em que não é de todo viável deslocarmo-nos de outra forma, num espaço de tempo razoável. Ao mesmo tempo, já há várias transportadoras aéreas que dão a possibilidade ao viajante de reduzir a sua pegada de carbono nas viagens, comprando compensações de carbono. É algo que embora não resolva o problema, ajuda a atenuar e é um gesto no sentido de diminuir o impacto no planeta.

Conta que começou a viajar com a família, depois com os amigos e finalmente sozinha. Para cada caso há uma forma de viajar diferente?

Sem dúvida! Nas viagens em família não sou tão aventureira, embora os desafie um pouco e os tente levar a conhecer o mundo como eu gosto. Mas no geral estou mais condicionada na viagem, não me sinto tão "livre". Com amigos já não é bem assim, desde que estejamos todos em sintonia – o que é muito importante para que a viagem corra bem –, a viagem flui mais de acordo com aquilo que procuro, ainda que, por vezes, sinta vontade de ficar mais tempo num ou outro local, mas não o faça porque o grupo quer ir embora. Com amigos, a segurança em viagem também é maior. As viagens a solo dão-me mais liberdade e viajo com mais calma. No entanto, além de mais dispendiosas, porque não temos ninguém com quem partilhar despesas, também nos desgastam mais emocionalmente. Temos de lidar com tudo em primeira mão, não podemos pedir a ninguém para lidar com um problema por nós, temos de ser mais cautelosos... e isto cansa imenso. Pessoalmente, embora goste de viajar sozinha, prefiro ir com amigos. Às vezes estou perante cenários ou experiências fantásticas e gostaria imenso de ter alguém comigo para partilhar o momento.

Viajar sozinha é mais difícil quando se trata de destinos com culturas diferentes das nossas, concorda? Se sim, qual o País onde sentiu mais esta questão?

Não necessariamente. Se formos ali a Espanha a cultura é diferente da nossa e, no entanto, não é mais difícil. Acho que não se prende tanto com a cultura, mas mais com os valores da sociedade, níveis de desenvolvimento do país e até mesmo abertura a outros povos. No geral, nunca senti dificuldade na viagem em si. Já posso ter sentido alguma "hostilidade", mas foi numa zona de algum fundamentalismo islâmico. Não condeno, muito pelo contrário, sou compreensiva com todos os povos, porque tento ver o quadro todo antes de emitir qualquer opinião. Sei que jamais posso julgar outro povo face à minha cultura, sociedade e valores. Posso não concordar, mas respeito sempre e compreendo. A verdade é que é difícil passar despercebida nestes países e às vezes também posso atrair atenções indesejadas. Mas até ao momento não considero que seja difícil viajar em qualquer lugar do mundo.

Qual a melhor experiência que já viveu em viagem?

Não foi uma, foram várias e todas elas envolveram um contacto genuíno com locais. Isso é o que mais me marca, quando sei que mudei a vida de alguém, ainda que tenha sido só por breves segundos, com um simples sorriso. Um momento marcante foi, por exemplo, na Índia. Estava na cidade de Jodhpur, no Forte Mehrangarh, à espera dos meus amigos que tinham ido comprar os bilhetes para entrarmos. Na Índia vão famílias inteiras visitar o seu património e ali não foi exceção. Chegou uma com mais de dez pessoas e sentaram-se todos ao meu lado. Entretanto, começou um grande alarido à minha volta e trouxeram para a minha frente uma senhora idosa, nunca lhe vi a cara, tal a curvatura que tinha nas costas. Percebi que queriam que interagisse comigo. Ela, após insistência dos familiares, estendeu-me a mão e eu prontamente a apertei. Eles ficaram felicíssimos e voltaram a sentá-la. Na Índia somos atrações por natureza, temos uma cor de pele, cabelo e olhos diferentes e isso fascina-os, querem tocar-nos. Saber se também somos feitos de carne, eventualmente fui a primeira pessoa branca em quem aquela senhora tocou.
Na Indonésia, depois de ter sido roubada quando viajava na ilha das Flores. Não tinha dinheiro. O único que tinha era para pagar o meu quarto nessa noite e o autocarro que, no dia seguinte, me levaria até Maumere, de onde começaria o meu regresso a casa depois de dois meses em viagem no país. Em conversa com um indivíduo numa "loja" em frente ao meu alojamento, que me tentava convencer a jantar no seu restaurante, mencionei que não tinha dinheiro e que não iria comer naquele dia. Por acaso, o dono do alojamento estava lá, ouviu a conversa e disse-me que jantaria com ele. A princípio não acreditei muito que o fizesse. Enfiei-me no quarto a beber chá, era a única coisa que havia de graça até que, às 20 horas em ponto, o senhor me bateu à porta do quarto a dizer que o jantar estava pronto. Jantámos em frente ao alojamento, sentados no chão. Noodles, arroz e atum. Estava tudo frio, mas soube-me pela vida. Como recompensa, deixei-lhe as minhas botas de trekking e segui viagem no dia seguinte.
No Vietname, em conversa com um sobrevivente da Guerra do Vietname, perguntei-lhe se não sentia raiva dos Americanos, ao que me respondeu: "Porquê? Todos nós rimos, todos nós choramos. Porque é que havemos de guerrear uns com os outros?" Marcou-me profundamente a resposta dele. Foi uma lição de vida. A capacidade de deixar o passado lá atrás, o saber perdoar e seguir em frente, olhando para o futuro de forma esperançosa. A capacidade de superar uma atrocidade daquelas...

Poderia continuar...

E a pior?

Foi ser roubada, na minha querida Ilha dos Deuses, Bali. Tinha uma bolsa a tiracolo, daquelas de fecho. Conseguiram abrir o fecho e tirar-me a carteira sem eu dar por nada. Fiquei sem dinheiro e sem documentação. Salvou-se o passaporte, porque estava no quarto.

E qual o País que mais a marcou?

A Índia porque foi o primeiro país que visitei onde estive completamente fora da zona de conforto. Costumo dizer que a Índia não é para quem quer, nem para quem pode, é para quem aguenta. É uma realidade muito forte, a condição humana é chocante. Foi a primeira viagem que senti mesmo que me mudou. Coloquei tudo em perspetiva. Quem sou, o que tenho, quem me rodeia, o sentido da vida. 
E a Indonésia que nunca esteve na minha bucketlist. Foi um destino que surgiu cá dentro, uma espécie de chamamento. Estava a passar uma fase muito difícil e senti que tinha de ir para lá. Fui por dois meses e marcou-me imenso. Mais do que geográfica, foi uma viagem interior. Não foi um mar de rosas, mas deu-me muito. No fim, tudo fez sentido. 

Como é a vida de uma viajante profissional?

Bastante agitada! Os meus amigos já dizem que eu estar em Portugal ou na China é igual [risos]. Na vida de um viajante profissional não há rotinas, passamos grande parte do tempo em viagem, mas não de férias, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa. Os locais que visitamos não são estáticos, estão em constante mudança e nós vamos acompanhando isso. Por vezes até somos apanhados de surpresa, porque há coisas que mudam no espaço de meio ano. Nesse sentido, temos de ser rápidos a reagir de modo a podermos dar o melhor aos viajantes. Muitas das noites em viagem, quando me despeço dos viajantes, não vou logo dormir. Vou tratar do orçamento, registar tudo o que se passou, ver o que é preciso e preparar o dia seguinte. 
Por norma acabo os 15 dias de viagem exausta. Gerir grupos com cerca de 11 pessoas, adaptação a dieta diferente da nossa, a novo clima, horas a fio de voo, desidratação acrescida. Muito tempo em aeroportos, muito tempo em ambiente de ar condicionado e o jet lag, que em média demora uma semana a passar. Parece tudo um conto de fadas para quem vê de fora, mas a verdade é que há muito trabalho invisível. Muita preparação, estudo, dedicação, coordenação, preocupação, cansaço... mas muita paixão também.

Qual a média de viagens por ano?

Profissionalmente, faço cerca de cinco viagens anuais. A nível pessoal tento fazer mais uma ou duas. Não estou muito tempo seguido em Portugal. No máximo fico dois meses. O mínimo que já fiquei foram dez dias.

Há alguma coisa que traga sempre e religiosamente de cada viagem (além de memórias)?

Não sou muito de comprar souvenirs. A bagagem vai levezinha e é assim que volta. Se há algo que faço sempre questão de comprar é o clichê do íman para o frigorífico. Confesso que perco um pouco a cabeça com bijutaria típica ou com algo decorativo que seja tradicional do país. Além disto e religiosamente, só mesmo as fotografias. Adoro fotografar e fazer uma viagem sem câmara fotográfica, como já aconteceu, é uma grande frustração. Neste momento até tenho a decorrer uma exposição fotográfica sobre o Vietname em Aveiro, no Trilhos da Terra. Estará em exibição até junho.

Em que consiste o projeto Wander for Good?

Wander for Good é o nosso projeto filantrópico. Para mim, não fazia sentido ir só ver os destinos. Trazemos tanto connosco, porque não deixar algo para trás também, que, de alguma forma, contribua para a sua melhoria, agora e no futuro? O Wander for Good tem por objetivo apoiar projetos locais a nível ambiental, social ou cultural. Sempre que possível envolvemos os nossos viajantes nalgum tipo de projeto. Desde passar uma manhã ou tarde de voluntariado, a dar a conhecer uma comunidade para a qual os viajantes podem contribuir com donativos, ou a participar numa atividade cujo valor pago contribua para a implementação de um projeto específico. Tudo isto é muito gratificante para nós e extremamente enriquecedor para os viajantes, dado que os aproximamos da população local, tornando a experiência em si mais rica.

Para si viajar é…

Uma brutalidade! Viajar é das coisas mais agressivas que podemos fazer. Nada nos é familiar enquanto estamos na estrada. Somos obrigados a confiar em estranhos. A ler placas indecifráveis, a procurar uma linguagem mundial para podermos comunicar. Hoje estamos aqui, amanhã já não estamos. Quando nos começamos a sentir confortáveis, é quando temos de partir. Não existe aquele conforto familiar que temos em casa. Não existem os amigos. Estamos constantemente numa gestão emocional e psicológica. Há quem não consiga lidar com isto, já conheci muita gente na estrada que ao fim de uma semana estava a voltar para casa. Mas isto tudo é algo que me preenche a 100% e que sinto necessidade de ter na minha vida. É um vício.

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