30 Mulheres

Simone: "quando comecei a cantar [ser artista] era ser uma 'mulher da vida'"

Simone de Oliveira é uma das grandes e destemidas vozes portuguesas das últimas cinco décadas. Representou o país numa época de plena ditadura e teve duas vozes "numa só". Não se cansa de dizer que as pessoas se esquecem que fez revista à portuguesa, durante anos, e que foi atriz, por acaso. Na semana do seu aniversário, felicitamo-la.
Por Rita Silva Avelar, 11.02.2019

"Ai, quem me dera, quem me dera, ter 50 anos. Sim, já só pedia 50. Ou 60." E segue-se uma gargalhada generosa depois da frase cantarolada como um gracejo. A protagonista da cena é a própria Simone, a ser fotografada para esta edição de aniversário. Uma mulher prática, bem-disposta e com uma presença e uma personalidade incontornavelmente fortes, Simone de Oliveira diz-nos que tem obrigação de ser feliz. Nós, deste lado e como espectadores ouvintes, só temos obrigação de admirar a sua "garra" que transborda na sua voz, seja a cantar ou a contar um episódio caricato.

Entre dezembro e janeiro deste ano, Simone de Oliveira sobe ao palco do Auditório dos Oceanos, no Casino Lisboa, para protagonizar Simone, O Musical, um espetáculo autobiográfico que ainda sabe de cor, depois de o ter realizado há um ano. É uma retrospetiva da sua vida ou, diríamos, das suas vidas. Simone de Oliveira começou a cantar aos 19 anos, em 1957, quando entrou para o Centro de Formação dos Artistas da Rádio, de Motta Pereira. Deu a conhecer nacionalmente a sua voz no Festival da Canção de 1964 (no qual participou também em 1965, 1968, 1969, 1973 e 2015) e representou Portugal no Festival da Canção da Eurovisão com Sol de Inverno [de 1965] e com Desfolhada Portuguesa [de 1969]. A estreia no teatro deu-se por acaso e a sua prestação como Genoveva na peça A Tragédia da Rua das Flores foi muito aplaudida pela crítica. Entre filmes e séries, participou em mais de quarenta projectos. "O que é que me vai perguntar?! Já toda a gente sabe a minha vida", diz-me Simone, ainda a ser maquilhada, no dia desta conversa. O tom é meio a brincar, meio a falar verdade, meio divertido, meio expectante. Franca e sem "papas na língua", Simone de Oliveira diz-nos que leu uma frase, há dias, que resume como se sente, aos 80 anos. "Eu não sou velha. Eu estou instalada na velhice." É verdade: a jovialidade na voz de Simone evidencia-se, à medida que com ela vamos conversando, sentadas ao centro do estúdio. Quisemos que essa conversa não terminasse. Assim como quem a vê e a ouve cantar, não o quer.

Diz que ser cantora é uma paixão, um destino e não uma profissão. Onde foi buscar essa "garra", que ainda hoje a acompanha, para começar a cantar?

Isso gostava eu de explicar, mas também não sei. Deve ter sido uma coisa que nasceu comigo… A minha mãe chamava-me "ponga-songa", como já disse várias vezes. A vida, com algumas vicissitudes que me foi pondo à frente, fez-me "saltar". Eu sou uma mulher de "saltar", muitas vezes sem saber o que está do outro lado. Por sorte, eu tenho encontrado o caminho, muito por instinto. Quando digo que sou capaz de fazer algo, tenho medo. Não quer dizer que eu tenha certezas de que vou fazer bem, mas acredito que posso fazer e que alguém me pode ajudar. Isso tem acontecido ao longo da minha vida em várias situações, quer no teatro, no cinema, na televisão... Houve sempre alguém que me ensinou e que me dirigiu, e eu sou uma pessoa que precisa de ser dirigida.

Porque diz isso?

Se eu choro anda-se de barco à minha volta [em círculo] e se eu rio toda a gente conhece as minhas gargalhadas. E eu rio porque rio e não sei rir para parecer bem. A vida deu-me situações maravilhosas, mas deu-me meia dúzia delas que me fizeram parar e dizer: "E agora, o que é que eu faço de mim, o que é que eu faço comigo?" Normalmente, sou capaz de saber o que faço com os que estão à minha volta. Não sou muito de beijos e de abraços. Eu sou de um bom abraço e de um bom aperto de mão. Houve ocasiões em que, infelizmente, eu não pude fazer nada e esperei que o tempo passasse.

É por isso que diz acreditar que nada acontece por acaso?

Nada acontece por acaso, não há encontros por acaso, há qualquer coisa no universo. Eu sou muito das energias, das pessoas para quem eu olho e gosto de olhar olhos nos olhos. E das pessoas que eu olho e digo "não vale a pena porque o Santo [da pessoa] não bate com o meu [Santo]", mesmo não conhecendo a pessoa de lado algum e não me tendo ela feito mal algum. É como se fosse uma coisa de pele. Eu detesto répteis e há personalidades que me repelem, tal como eles. Mas eu sou crédula e já passei maus bocados por acreditar em pessoas (…). E sei perdoar. Eu não tenho rancores, nem sou do género de "mata e esfola". Passado um quarto de hora já nem me lembro porque é que eu estava aborrecida, a não ser que seja algo muito de alma. Mas não tenho capacidade para sentir ódio. Eu tenho, sim, uma grande capacidade de paixão e de acreditar.

Nas décadas de 50 e de 60 ser artista era quase pecaminoso, certo? Sempre disse o que pensou? Não sentia medo da ditadura?

Eu acho que nasci livre, por dentro. Fazia-me uma grande confusão não se poder ir tomar café [num lugar público]. Porquê? Porque no dia em que uma mulher decidia "ir lá abaixo" tomar café, a família ia toda também. Aos 19 anos, quando comecei a cantar, comecei a tomar café. [Ser artista] era ser uma "mulher da vida".

Como era visto Portugal pela Europa, na altura em que o representou na Eurovisão?

Eu lembro-me muito bem que quando fui a Itália cantar o Sol de Inverno havia um verso que dizia "bandeira vencida/ rasgada no chão". E um jornalista italiano leu-o e disse: "Isto é a vossa batalha perdida contra o Salazar." E, de repente, eu vejo a imprensa portuguesa encostada a uma parede, em pânico, e eu disse: "Deve haver aqui uma confusão qualquer. Deve estar a haver uma conferência de imprensa de carácter político que deve ser nesta rua, mas três números abaixo." E ele responde: "Você é muito esperta." Sim, sou boa a improvisar e fiz anos de revista, onde se tem quatro minutos para se mostrar o que se vale.

Fez anos de revista, precisamente. O que mais aprecia no género?

Estreei dois êxitos [em revista] que duram até hoje. Por volta de 1972, Sete Letras e Tango Ribeirinho, este último recordo-me que o cantei cinco vezes no dia da estreia (…). As pessoas que escreveram para mim, como o Ary dos Santos, deram-me palavras para eu cantar e sempre tentei agarrá-las de forma a transmitir o que o poeta pensou.

Nunca a tentaram condicionar como artista?

Sempre nasci com uma grande liberdade de alma e sempre a perguntar-me por que razão é que não podia fazer isto ou aquilo. Os padres não casam. Porquê? Nosso Senhor escreveu alguma carta? É que eu não a li, não me chegou às mãos. No liceu, diziam-me: "Fala tu, fala tu…" Era sempre eu. Eu nunca tive medo de falar com ninguém. Na segunda campanha [de candidatura à presidência da República] do [general] Ramalho Eanes, estávamos todos à volta do general, com ar de quem estava num velório. Pensei para mim que aquilo devia ser um momento de alegria e de boa disposição porque era uma segunda candidatura. Eu dirigi-me ao general: "Posso-lhe fazer uma pergunta? (E os olhos dele riam.) Oh, senhor, ria-se!" Nós, portugueses, somos uns dramáticos de alma. É o fado. É o "à beira-mar plantado".

Também é assim?

Chorar, já chorei muito, mas sem ninguém ver. Já me emocionei inúmeras vezes, isso sim. Estava a trabalhar no dia em que morreu a minha mãe e tive de sair [do velório] da igreja para [trabalhar] para o Teatro Variedades, no Parque Mayer. Dois anos depois, quando morreu o meu pai, também segui para o Teatro Maria Vitória. Estava a casa cheia e eu podia fazer o quê? Só pensava: "Como é que eu vou, como é que eu vou? Mas eu tenho de ir." Levei um ano e meio a pensar que estava a trabalhar em vão, para gente morta. Nunca me lembro de ter dito que ia para o trabalho. Eu dizia que ia cantar, que ia representar ou que ia para o teatro.

Esteve sem voz durante três anos. O que sentiu nessa altura?

Foi a seguir a cantar a Desfolhada por excesso de trabalho e pela voz mal colocada. Só pensava: "Ai, ai, ai, minha Nossa Senhora…" Era a década de 60 em que era bom mostrar a voz e eu até imitaria a Barbra Streisand se fosse preciso. E um dia acabou. A minha voz voltou na altura do [programa de televisão] Zip Zip. Voltou devagarinho e eu tive de arranjar outro jeito de cantar, aos 33 anos. É a morte da minha mãe que me leva ao Teatro Maria Matos [de onde era transmitido aquele programa de entretenimento, em 1969] a cantar Apenas o Meu Povo, mais uma vez escrita pelo José Carlos [Ary dos Santos] para mim. Fiquei então com esta voz que eu amo, muito mais do que amei a outra. Subiu uns dois tons. Foi das grandes coisas que me aconteceu na vida, ter perdido a voz da "menina dos festivais". É que eu tinha ficado conhecida por "a menina dos festivais".

Foi jornalista na R&T durante esse tempo. Nunca pensou em ficar na profissão?

Não, porque tudo o que eu escrevia era censurado. Eu era a única mulher que ia para o jornal de botas e de calças. E diziam-me: "Então, perdeste o cavalo?" Somos infelizmente, falsamente, muita coisa. Somos falsamente católicos, falsamente bonzinhos.

Como é que foi parar ao Teatro?

Aconteceu por acaso. Perguntaram-me: "Queres vir para o Teatro?" Eu disse: "Sim." Foi mais uma estrada, tinha alguma jeiteira e fui absorvendo de quem me ensinou, como Irene Isidro, Ivone Silva, Laura Alves...

A vida seguiu. Como é se vê, em retrospetiva?

Eu acho graça quando as pessoas dizem aquela frase que é muito nossa: "Coitadinha, ao que ela chegou." Eu faço disso rábulas em espetáculos. Estou óptima, maravilhosa! Eu tenho 80 anos, não tenho 50, nem 60, e assumo a minha idade. Como dizia a Fernanda Montenegro, há dias, no Facebook: "Eu não sou velha. Estou instalada na velhice." Caramba, porque é que não fui eu a dizer aquilo?! E escrevi: "Olhe, é exactamente nisso que eu estou." Só não disse "grande merda" a seguir, porque, enfim…

Está prestes a estrear o seu musical que já fez há um ano. O que é que ele representa?

Lembro de cor. "Sou a Simone e canto cantigas" é assim que começa a peça. É a minha vida, a minha história. Eu tive a sorte de ter oito companheiros de trabalho maravilhosos, como o José Raposo ou a Maria João Abreu. Pus a minha vida nas mãos deles e ouve momentos muito emocionantes. Antes dos espetáculos digo sempre que não vou, que não sei, que não quero fazer isto, que quero ir para casa, que não me lembro de nada. Pode ser que eu, desta vez, não diga.

Partilhar
Ver comentários
Últimas notícias
Vídeos recomendados
0 Comentários
Subscrever newsletter Receba diariamente no seu email as notícias que selecionamos para si!