Artes

Ricardo Neves-Neves: “Temos esta necessidade de contar histórias, verdadeiras ou não. Faz parte da nossa vida”

Conversámos com o encenador e dramaturgo Ricardo Neves-Neves, prestes a estrear a peça Banda Sonora no Teatro São Luiz, sobre a sua forma de criar.
Por Rita Silva Avelar, 08.03.2018

Nascido no Algarve em 1985, Ricardo Neves-Neves sempre andou de mãos dadas com a encenação e com a música, duas variantes que o definem como artista de forma inusitada e infungível. Depois de em 2008 fundar o Teatro do Eléctrico, do qual é atualmente diretor, escreve e encena, seguiram-se vários textos originais que culminaram nos melhores espetáculos da última década. Banda Sonora, da qual é autor e encenador, tem a composição musical do pianista, compositor e orquestrador Filipe Raposo e trabalho vocal de João Henriques, e estreia a 9 de março no Teatro São Luiz, em Lisboa. Com um cenário que tem tanto de místico e macabro como de fascinante e encantado, uma floresta com seis mulheres, Banda Sonora fala-nos, acima de tudo, da vulnerabilidade e do amor com sátira aguçada ao nosso quotidiano, tão feito de histórias hilariantes. Três dias antes da estreia, sentados nas primeiras cadeiras do interior do São Luiz, conversámos com Neves-Neves sobre esta que é a sua primeira peça com música original.

Como é que se resgata tanto do imaginário como da crueldade de que tantas vezes é feito o nosso quotidiano, numa peça como esta?

O poder de fantasiar e de criar ficção está presente diariamente na nossa vida, quanto mais não seja nas pequenas mentiras que contamos. Mas temos esta necessidade de contar histórias, sejam elas verdadeiras ou não, é algo que faz parte da nossa vida, desde a infância à escola, tem tudo a ver com a História e as histórias que se contam, com literatura. Isto faz sempre parte da nossa vida ? a arte é algo que pode não servir para nada, mas precisamos dela. Quanto mais não seja como um estímulo visual que encontramos no design ou como quando temos em casa um objeto que não sabemos porque precisamos, mas o queremos e nos toca de alguma maneira. Isso tem tudo a ver com a fantasia. A palavra adulta para fantasia é ficção, as pessoas gostam mais da segunda, mas eu gosto mais da segunda porque me dá a sensação de liberdade para avançar para um sítio mais brincado com que gosto mais de trabalhar.

De que forma é que essa fantasia se reflete nas personagens?

Nesta peça, tomei a liberdade de pegar numa personagem da peça The Streaming Pool Party – que esteve em cena no São Luiz até há duas semanas – que era órfã, e eu não a desenvolvi nessa peça e agora vim fazê-lo na Banda Sonora. Há uma certa ligação com o cinema. Escrever a peça levou-me para os filmes de terror, para escrever pequenas histórias que começam de uma forma leve e brincada e que terminam sempre de uma forma ou trágica ou ligada à maldade infantil. Li vários contos infantis tradicionais portugueses e descobri que são de uma crueldade imensa (já a Paula Rego fala dessa questão nas suas pinturas) e comecei a perceber que a violência e a crueldade psicológica e física fazem parte do quotidiano. Encontrei este lado trágico como um lado inevitável da vida, a par de um lado colorido e leve – que também gosto de trabalhar. Dá uma certa cor ao espetáculo. Explorei o facto de as pessoas terem uma certa vergonha da alergia, de rir e, afinal, prescindir da alegria é prescindir de uma parte fundamental da vida. Apesar do lado negro do espetáculo, quis trabalhar a alegria das personagens.

É esse o grande enigma da nossa vida?

Sim. Como é que nós vivemos a perder mil e uma coisas na nossa vida – perdemos pessoas, tempo, capacidades, vitalidade, energia, saúde – e encontramos a alegria nas nossas vidas? Por isso, não quis prescindir da alegria, mas sim trabalhar sobre isso. Daí o sentido de humor e as brincadeiras em palco.

A peça tem várias repetições nas falas que dão uma intensidade particular ao espetáculo. Como é que isto acontece sem monotonia?

Foi algo que fui buscar ao conto tradicional, a forma como temos de contar enquanto contadores de histórias. A minha forma de escrita tem a ver com improviso. Da primeira vez que estamos a falar do que quer que seja, o nosso discurso é repetitivo, incoerente, estranho, traduzido por escrito não se percebe, esse é o nosso lado nervoso e ansioso, mesmo em situações banais. Depois, também foi uma questão estilística, fortemente relacionada com a música, nesta peça. Há aqui qualquer coisa ligada à música que também está no texto e as repetições fazem parte disso.

Houve uma inversão na criação do espetáculo: primeiro surgiu a música, depois a escrita. Como é que isto aconteceu?

Na verdade, relaciona-se com um estudo que estou a fazer desde que terminei o Conservatório em 2006. Foi a tese da minha licenciatura e tema da minha pós-graduação – a forma como a música influencia as emoções. Há um conjunto de estímulos nervosos que a música causa no cérebro que depois origina determinadas emoções. A partir do momento em que tenho uma ideia, como criar um espetáculo em que há uma família à mesa. A partir do momento em que descubro a música dessa cena, é mais fácil de escrever, porque a música tem uma curvatura emocional, pausas... Conseguimos imaginar várias pessoas a falar, as dinâmicas e atribulações da conversa, através da música. Há aqui uma ligação especial com música e esta vez foi a primeira em que trabalhei com música original e não com algo que já existia – falei com o compositor primeiro. É como um jogo: a partir daquela música é a minha vez de jogar e, sendo a minha vez de jogar, é a minha vez de escrever.

Qual é a mensagem das mensagens da peça?

Tem tudo a ver com a efemeridade da vida. O espetáculo tem a ver com duas coisas: saudade e amor. A saudade do passado, o amor do presente com projeção do futuro. Tem tudo a ver com a vontade de viver. A última frase do espetáculo é: "Eu quero viver."

Desde 2015, com A Batalha de Não Sei Quê, que Ricardo Neves-Neves não encenava um texto seu. Banda Sonora está em cena no Teatro São Luiz, de 9 a 18 de março, os bilhetes custam entre €12 e €15 e podem ser adquiridos aqui.

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