Música

Rhye: “As palavras não chegam para encapsular aquilo que sentimos como pessoas, como artistas”

Mike Milosh é o nome por detrás do projeto musical Rhye. Conversámos com o artista canadiano num terraço de Lisboa - e isto é tudo o que descobrimos sobre o seu segundo álbum.
Por Rita Silva Avelar, 24.01.2018

Com um semblante descontraído, sentado confortavelmente nos sofás azuis e amarelos do terraço do H10 Duque de Loulé Boutique Hotel, em Lisboa, Mike Milosh tem os olhos postos na cidade lisboeta. É neste mood que encontramos o artista canadiano por detrás do projeto musical Rhye, que em 2013 surpreendeu a indústria musical (e o mundo) com os primeiros singles de um primeiro álbum (Woman) nada previsível. Começando logo pela voz. O falsete brilhante (e quase inacreditável) de Milosh soava misterioso aos que achavam que a voz de Open ou The Fall pertencia a uma mulher. Depois de um período a que chamaríamos de suspense, descobriu-se que a dupla Mike Milosh e Robin Hannibal (que entretanto saltou fora do projeto em 2017) era o segredo bem guardado de Rhye. 

Mike Milosh nasceu em Toronto, no Canadá, e durante anos foi violoncelista profissional, até se mudar para Berlim, onde começou uma carreira como cantor e produtor. Lançou-se no meio musical como artista a solo e produziu quatro álbuns: You Make Me Feel (2004), Meme (2006), iii (2008) e Jet Lag (2013). Não se pode carimbar o seu registo musical com um só género (o R&B alternativo, por exemplo), até porque o novo álbum, que chega a Portugal a 2 de fevereiro e é a razão do nosso encontro, só reforça aquilo que o primeiro disco já nos tinha dito: que há muito mais na musicalidade de Rhye. Chamamos a este "muito mais" à presença de géneros como o soul, o jazz ou o trip-hop. Sedutor e misterioso, assim é o mais recente disco, Blood, cujos temas Please, Taste e Count To Five já estão a conquistar um lugar nas nossas playlists (e corações). E é precisamente com amor, o amor pela música, que começamos a conversa.

Como é que se apaixonou pela música?

Eu comecei a tocar violoncelo aos três anos e adorava. O meu pai é violinista e eu passava algum tempo a vê-lo tocar. Aos seis [anos] fiz o meu primeiro recital. Eu não conheço uma versão minha sem música, aliás, a forma como me compreendo a mim mesmo está ligada à minha relação com a música. Eu sinto, até, uma conexão estranha a uma vida passada, relacionada com a música. Por vezes descubro melodias que sinto ter escrito noutra vida.

Recorda-se da primeira vez que mostrou a sua voz a um público?

A primeira vez que toquei foi com um violoncelo, mas a primeira vez que cantei foi aos 11 anos num coro só com raparigas e dois rapazes (eu era um deles). Eu tinha de cantar as notas mais altas. Isto porque, como estudei numa escola de artes, todos os fins de ano nos era atribuído um papel numa performance (para mostrar aos pais) chamada Reflections.

Foi precisamente a sua voz que surpreendeu quem ouviu os primeiros singles do álbum Woman (2013). O que sentiu em relação a esta reação?

Eu não tinha a intenção de ser misterioso. Eu tenho quatro álbuns publicados em nome de Milosh, e algumas das pessoas que já conheciam o meu trabalho escreveram-me a perguntar se era eu. Algumas acharam misterioso, outras sabiam que era eu. Outras pessoas escreveram-me a dizer que não gostavam do projeto, que não era tão profundo quanto o que eu fazia em Milosh.

As pessoas descrevem a voz de Rhye como enigmática e sedutora. É isso que sente, da escrita à performance?

Sim, eu sinto tudo isso. Mas há coisas de que não gosto de falar pela simples razão de sentir que estou a diminuir a sua pureza e beleza naturais. Não diria nunca que estou a seduzir a audiência (…) há um conjunto de sentimentos que a linguagem inglesa não consegue descrever porque as palavras são, afinal, categorias pequenas que não encapsulam aquilo que realmente sentimos como pessoas, como artistas, como músicos. Eu estou interessado na beleza, na sensualidade, não estou interessado na agressão, na insensibilidade.

As letras expressam esses ideais. Em que se inspira para escrever?

Para mim, é uma fórmula simples: eu escrevo sempre a partir das minhas experiências. Não é como se fosse um ator a representar ou um escritor a escrever ficção. Eu escrevo sobre a vida real e é tudo natural.

E agora, surpresa, um novo álbum. Porquê Blood?

Parte do significado provavelmente não irei dizer a ninguém. Mas, por outro lado, o sangue é o que nos mantém vivos, é o que faz o nosso coração bater. A nossa intuição está ligada ao sangue que pulsa nas nossas veias, conseguimos senti-la através do pulsar; quando se está sexualmente excitado, isso sente-se no sangue; quando se está assustado e com medo sente-se no sangue; quando se está a rir; ou num estado de calma, por exemplo, o sangue parece que esfria. Li um artigo que dizia que quando se vive num sítio frio o sangue fica mais espesso, quando se vive em ambientes quentes o sangue torna-se mais fino. Interesso-me muito pela genética, na conexão com o nosso corpo. Por exemplo, podemos carregar tanto dos traumas como das alegrias familiares, e o que está no nosso ADN, no nosso sangue, tem muita influência na forma como somos. Porque sinto que tive uma vida passada ligada à música, sinto também que a música corre nas veias da minha linhagem familiar desde sempre. É de certa forma um sentimento místico, mas não há nada de religioso nisso. É só uma sensação natural.

O que é que este novo álbum quer dizer ao mundo?

Não há uma mensagem particular, mas estou muito interessado na ideia das pessoas se unirem, de se amarem e apreciarem umas às outras. Não há nada de objetivado neste álbum, não há nada de revoltante nele, é um álbum sobre o amor.

Que artistas o inspiram?

Eu admiro Björk, Radiohead, Led Zeppelin, Pink Floyd, The XX, Glass Animals… Há muitas pessoas que estão a fazer bons projetos. Admiro artistas como Neil Young, John Lennon ou Paul McCartney.

Com quem gostava de dividir um jantar?

Jantaria com Graham Hancock [jornalista e escritor britânico], David Hykes [cantor e compositor], Björk ou Stephen Hawking. Se pudesse, na verdade, jantava com vários cientistas.

E com quem partilharia um palco?

Quando estou numa performance gosto de estar sozinho. Mas já dividi o palco várias vezes com pessoas de quem gosto. Recentemente houve um concerto de improviso com Lo-Fang, em que as pessoas estavam no chão deitadas, e nós passávamos entre elas a cantar, sem microfone. Foi muito poderoso, mas não foi partilhar um palco, foi uma experiência.

Enquanto Rhye, já esteve pelo menos quatro vezes em Portugal. O que mais o atrai em Lisboa?

Esta cidade é incrível, adoro andar pela cidade e de provar esta gastronomia. Gosto de olhar para as pessoas, que são fascinantes, porque toda a gente tem uma vibe especial e as pessoas são bonitas. Sinto que estou rodeado de personagens. Sintra, por exemplo, é um sítio mágico. Da última vez que estive lá fiquei preso, sem querer, do lado de dentro do castelo [dos Mouros]. Queria lá ter ficado a noite toda na verdade, o bosque é fascinante. Tem um misto de alquimia, e eu sei muito sobre isso.

Já ouviu fado?

O fado é incrível, acho que nunca conseguiria fazer aquilo com a minha voz, quando uma mulher o canta parece que abre uma porta no universo, pela força com que o faz. É uma experiência emotiva e há qualquer coisa de sedutor também no fado. Consegue ver-se, por exemplo, a intensidade com que a pessoa que o canta puxa o ar para dentro dos pulmões. E, depois, aquele poderoso som.

Para quando um regresso a Portugal?

Vamos voltar em breve, mas não posso confirmar datas. Gostava de tocar num teatro ou numa sala de concertos, não quero tocar num bar, por exemplo. Ou numa igreja, quem sabe? Tem de ser num sítio especial porque Portugal também o é.

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